Arvor Intelligence / dossiê eleitoral

Dossiê AtlasIntel 180526

Auditoria integral da pesquisa Atlas/Bloomberg: o instrumento mede voto antes do escândalo, mas depois mistura Banco Master, julgamento moral, imagem, rejeição, economia, demografia e vídeo/áudio. Esse desenho compromete bastante a qualidade interpretativa do relatório.

Coleta: 13/05/2026 a 18/05/2026 Divulgação: 19/05/2026 n = 5.032 RDR online Registro TSE: BR-06939/2026

Sumário brutal

O questionário nacional revela uma separação decisiva: a intenção de voto aparece antes do estímulo audiovisual, então o top-line eleitoral não é contaminado pelo vídeo final. Mas o relatório vende também rejeição, medo, imagem política e leituras do caso Banco Master sem abrir todas as perguntas aplicadas. Aí a qualidade cai bastante.

Top-line de voto

Mais protegido do que parecia

Aprovação, 2022, primeiro turno, segundo turno e confiança por áreas vêm antes do bloco explícito Banco Master e antes do vídeo/áudio.

Questionário

Longo, carregado e assimétrico

Depois do voto, entra uma bateria pesada sobre fraude, vazamento, envolvimento direto, candidatura de Flávio, problemas do Brasil, decisões de Lula, direitos sociais e economia.

Relatório

Publica o que convém

O relatório traz os blocos eleitorais e Banco Master, mas não entrega resultados de várias perguntas aplicadas: problemas do Brasil, medidas de Lula, imagem de líderes, pautas sociais, partido, ideologia e economia.

Margem

±1 p.p. continua fraco

Com n=5.032, a margem AAS a 95% no pior caso é ±1,38 p.p. Para ±1 p.p. seriam necessários cerca de 9.604 casos efetivos.

TSE/PNAD

Demografia bate; escolaridade pesa

Sexo, idade e região ficam próximos do eleitorado TSE. A renda é defensável nas faixas da Q42, mas escolaridade superior segue inflada contra a PNAD.

Ética

Vídeo/áudio no fim é bomba

Mesmo após o questionário principal, expor respondentes a peça audiovisual política transforma a pesquisa em experimento de reação. Sem protocolo completo, fica feio.

Fluxo do questionário correto

O instrumento nacional tem 48 itens. A ordem importa pra caralho: intenção de voto vem antes do bloco Banco Master, mas muitos indicadores publicados depois ficam sob sombra de contexto político pesado.

Q1-Q2Aprovação e avaliação de Lula, governador e prefeito.
Q3-Q82022, quatro cenários de 1º turno e sete cenários de 2º turno.
Q9-Q10Confiança por áreas e medo/preocupação: Lula vs Flávio.
Q11-Q19Banco Master, áudio, vazamento, efeito em Flávio e decisão da base de Jair.
Q20-Q47Problemas, medidas de Lula, imagem, direitos sociais, partido, ideologia, economia, demografia e voto passado.
Q48Peça audiovisual do áudio de Flávio para Vorcaro, com avaliação contínua.
Início do questionário correto com aprovação e cenários eleitorais
Página 1 do questionário correto: aprovação e início dos cenários presidenciais.
Questionário com confiança por áreas, medo eleitoral e início do bloco Banco Master
Página 3: confiança por áreas, medo eleitoral e primeira pergunta sobre Banco Master.
Questionário com perguntas sobre áudio, vazamento e efeito em Flávio Bolsonaro
Página 4: bloco duro sobre áudio, vazamento, envolvimento direto e disposição de voto em Flávio.
Questionário com demografia, renda, religião, Bolsa Família e voto em 2022
Página 11: renda familiar sem opção explícita de não resposta, religião, Bolsa Família e voto passado.

Os absurdos metodológicos

Não é só “tem pergunta demais”. O problema é a sequência, a carga semântica, a omissão de resultados e o uso de um vídeo político como peça final de avaliação.

1. Banco Master antes de rejeição

Rejeição de líderes vem depois do escândalo

A rejeição é Q25. Antes dela, o respondente já passou por Q11-Q19, uma bateria inteira sobre fraude financeira, áudio, envolvimento direto de Flávio e impacto na candidatura. Então rejeição de Flávio, Michelle, Jair e até Lula não é um número “limpo” de rejeição basal.

2. Formulações com carga acusatória

“Evidências de envolvimento direto” é forte

Q15 oferece a alternativa “Evidências de envolvimento direto de Flávio Bolsonaro com o escândalo do Banco Master”. Isso é pesado. Pode ser uma categoria legítima, mas deveria vir com estímulo/documento padronizado e protocolo claro.

3. Vídeo/áudio no final

Pesquisa vira experimento de persuasão

Q48 pede avaliação contínua de uma peça audiovisual: “gravação de áudio enviado por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, com imagens ilustrando os interlocutores e legenda”. Isso não é uma pergunta neutra; é exposição política.

4. Renda sem não resposta

Faixa familiar forçada

Q42 pergunta renda mensal da família em cinco faixas, mas no PDF não aparece “não sei”, “prefiro não responder” ou “sem renda”. Para renda, isso é ruim. Forçar resposta pode distorcer justamente a variável usada para pós-estratificação.

5. Cor/raça e orientação sexual sem relatório

Coleta sensível, publicação seletiva

Q40 pergunta cor/raça e Q44 orientação sexual. O relatório nacional analisado não mostra top-lines desses dados nem usa esses cortes de forma transparente nas páginas principais. Coletar variável sensível e não explicar uso é uma prática fraca.

6. Muitas perguntas aplicadas, poucas publicadas

O relatório é recorte editorial

Q20-Q24 e Q26-Q34 são blocos inteiros sobre problemas, decisões de Lula, imagem, direitos sociais, partido, ideologia e economia. Eles não aparecem como resultados no relatório principal. Isso impede avaliar o contexto mental criado antes das perguntas finais.

A conclusão técnica é dura: os números de voto antes do Banco Master são aproveitáveis; os números de rejeição, imagem, identidade e reações posteriores precisam ser lidos como produto de um questionário carregado. A pesquisa mede opinião, mas também produz contexto. Isso compromete e muito a qualidade interpretativa.

Perguntas sem dados no relatório

Isso é central. O relatório de 60 páginas parece completo, mas não é: ele publica intensamente voto e Banco Master, enquanto deixa fora blocos inteiros que foram aplicados aos respondentes.

ItensConteúdo do questionárioStatus no relatório Atlas/BloombergPor que importa
Q1-Q2Aprovação e avaliação de Lula, governador e prefeito.Publicado parcialmente: Lula sim; governador/prefeito não aparecem no relatório nacional.Mostra que o questionário mede ambiente político local, mas o relatório entrega só parte.
Q3-Q82022, 1º turno e 2º turno presidencial.Publicado.É o bloco mais limpo, pois vem antes do Banco Master.
Q9-Q10Confiança por áreas e medo Lula vs Flávio.Publicado.Já começa a enquadrar disputa Lula-Flávio em termos emocionais e de competência.
Q11-Q19Banco Master, áudio, vazamento, efeito em voto e candidatura.Publicado em grande parte.Bloco central do relatório; muito carregado politicamente.
Q20Maiores problemas do Brasil, até 3 opções.Não publicado no relatório analisado.Seria essencial para saber se corrupção, saúde, economia ou segurança estavam dominando o frame do respondente.
Q21Decisões de Lula/governo: arcabouço fiscal, Gás do Povo, reforma tributária, IR até R$5 mil, Pix, Maduro etc.Não publicado.É uma bateria enorme de aprovação programática. Omitir isso tira a leitura de avaliação substantiva do governo.
Q22Imagem positiva/negativa de Alcolumbre, Leite, Haddad, Flávio, Alckmin, Motta, Jair, Janja, Lula, Michelle, Nikolas, Ratinho Jr., Zema, Caiado, Tarcísio.Não publicado como bloco de imagem.Absurdo editorial: imagem de líderes foi medida, mas o relatório destaca rejeição e cenários, não imagem completa.
Q23Aborto, maconha, cotas raciais, cotas trans, escola pública, autodeclaração de gênero.Não publicado.São variáveis de guerra cultural que poderiam explicar voto e rejeição. Sumiram do relatório.
Q24Partido de preferência.Não publicado.Sem isso, não dá para auditar partidarização da amostra.
Q25Rejeição de políticos.Publicado.Mas vem depois do bloco Banco Master, então especialmente Flávio está sob efeito de contexto.
Q26-Q27Ideologia e identidade política.Não publicados como top-line no relatório analisado.São variáveis-chave para validar composição política da amostra.
Q28-Q30Situação econômica, emprego, família, expectativas e compras de bens duráveis.Não publicado.O relatório fala de eleição, mas omite termômetro econômico detalhado.
Q31-Q34Inflação percebida e esperada em 6 e 12 meses.Não publicado.Para uma parceria com Bloomberg, omitir inflação subjetiva é especialmente estranho.
Q35-Q37Estado, município e bairro.Não publicado como distribuição granular.Sem geografia fina, não há auditoria de cobertura digital.
Q38-Q43Gênero, idade, raça, educação, renda, religião.Publicado parcialmente no perfil/crosstabs; raça não aparece no perfil principal.Demografia usada para controle precisa de top-line e targets claros.
Q44Orientação sexual.Não publicado.Variável sensível sem transparência de finalidade e distribuição.
Q45Bolsa Família.Aparece como corte em gráficos, mas sem top-line nacional claro no relatório.É variável social relevante e deveria ser auditável contra PNAD/CadÚnico.
Q46-Q47Voto no 1º e 2º turno de 2022.Aparece como corte, mas sem distribuição completa de recall no relatório principal.Como comportamento eleitoral anterior é target de pós-estratificação, omitir distribuição e pesos é grave.
Q48Peça audiovisual do áudio Flávio-Vorcaro com avaliação contínua.Resultado divulgado em imagem pública no X; metodologia completa não aparece no relatório PDF.É o ponto de maior risco ético e deveria ter protocolo próprio.

O que o relatório diz

O retrato político segue relevante: Lula lidera contra Flávio, Flávio é competitivo, e o caso Banco Master pesa negativamente. Mas agora precisamos separar melhor: voto antes do escândalo é uma coisa; rejeição e reação depois do escândalo são outra.

Voto e governo

Desaprova Lula
51,3%
Aprova Lula
47,4%
Lula 1º turno
47,0%
Flávio 1º turno
34,3%
Lula x Flávio
48,9%
Flávio x Lula
41,8%

Banco Master e efeito Flávio

Aliados Bolsonaro
43,3%
Aliados Lula
32,8%
Investigação legítima
54,9%
Prejudicar Flávio
33,0%
Enfraqueceu muito
45,1%
Fortaleceu
13,4%
Print do relatório Atlas/Bloomberg com cenário de primeiro turno com Lula e Flávio Bolsonaro
Relatório, página 18: primeiro turno com Lula e Flávio Bolsonaro.
Print do relatório Atlas/Bloomberg com cenários de segundo turno
Relatório, página 29: cenários de segundo turno.
Print do relatório Atlas/Bloomberg com rejeição dos líderes políticos
Relatório, página 34: rejeição. Atenção: vem depois do bloco Banco Master no questionário.
Print do relatório Atlas/Bloomberg sobre efeito da divulgação das conversas na candidatura de Flávio Bolsonaro
Relatório, página 54: efeito percebido na candidatura de Flávio.

TSE + PNAD: perfil social

Para sexo, idade e região, a referência correta é o eleitorado mensal do TSE, porque a pesquisa é eleitoral. Para renda e escolaridade, a PNAD continua sendo melhor: renda não existe no cadastro eleitoral e escolaridade do TSE depende de atualização cadastral voluntária, então fica velha e enviesada.

Sexo, idade e região contra TSE

CorteAtlasTSE 05/2026Delta
Mulher53,2%52,8%+0,4
Homem46,8%47,2%-0,4
16-2410,9%12,3%-1,4
25-3419,4%19,1%+0,3
35-4420,4%19,9%+0,5
45-5925,9%25,5%+0,4
60-10023,3%23,3%0,0
Sudeste41,8%42,1%-0,3
Nordeste29,0%27,6%+1,4
Sul13,8%14,5%-0,7
Norte8,1%8,3%-0,2
Centro-Oeste7,3%7,6%-0,3

Base TSE: Eleitorado Atual, geração 01/05/2026 às 06:48:31, Brasil sem exterior. Idade usa apenas eleitorado 16+; sexo é normalizado em Homem/Mulher porque o perfil Atlas não publica “não informado”.

Escolaridade contra PNAD

CorteAtlasPNAD 16+Delta
Ensino Fundamental33,6%44,6%-11,0
Ensino Médio40,7%36,5%+4,2
Ensino Superior25,7%18,9%+6,8

Aqui a Atlas mostra viés claro para escolaridade alta. O TSE tem escolaridade no cadastro, mas ela é ruim como alvo principal: muita gente conclui etapas de ensino e não atualiza o título.

Renda nas mesmas faixas da Q42

Com o questionário correto, a pergunta é “Qual é a renda mensal da sua família?”. Portanto a comparação certa é com renda domiciliar total mensal da PNAD anual visita 5, não renda individual, não per capita e não só trabalho.

Faixa mensal familiarAtlasPNAD adultosPNAD responsáveis
R$0-R$2.00022,8%19,9%26,2%
R$2.000-R$3.00017,7%11,7%12,7%
R$3.000-R$5.00022,4%26,7%25,7%
R$5.000-R$10.00024,0%25,7%21,8%
Acima de R$10.00013,1%16,0%13,5%

A renda é menos absurda do que a escolaridade. O problema é Q42 não mostrar opção de não resposta, o que pode forçar chute em uma variável sensível. Raça também foi preservada na base TSE de referência, mas o arquivo atual tem 81,1% de “não informado”, então não serve como calibração racial pública forte; além disso, a Atlas não publica o top-line racial da amostra.

O vídeo/áudio

Q48 confirma o que era suspeito: houve uma peça audiovisual no fim, com gravação de áudio, imagens ilustrando interlocutores e legenda. Isso pode ser útil como experimento de reação, mas precisa ser tratado como experimento, não como apêndice casual de uma pesquisa eleitoral.

Peça audiovisual no questionário correto
Questionário correto, página 12: peça audiovisual da gravação de áudio enviada por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro.

Leitura técnica

Se o vídeo veio após submissão das perguntas principais, ele não contamina diretamente os números de intenção de voto publicados antes. Mas ele cria um módulo experimental que exige transparência: quem foi redirecionado, quantos completaram, taxa de abandono, duração assistida, pesos, curva média e diferenças por subgrupo.

Sem isso, a Atlas fica numa zona ruim: mede a reação, divulga achados politicamente úteis, mas não entrega o protocolo completo. Para uma pesquisa eleitoral, isso é um baita problema.

Atlas hoje e DRE 2025

A DRE da AtlasIntel Tecnologia de Dados LTDA em 31/12/2025 mostra uma empresa lucrativa, enxuta e com receita relevante. Isso não prova viés, mas ajuda a entender que a Atlas é uma operação comercial madura, não um laboratório acadêmico publicando tudo por transparência científica.

DRE em 31/12/2025

Receita bruta de serviçosR$ 15.811.871,84
Serviços no mercado externoR$ 1.314.070,50
Deduções de impostos sobre vendasR$ 913.728,32
Receita líquida aproximadaR$ 14.898.143,52
Serviços tomados de PJ e infraR$ 6.148.603,64
IRPJ + CSLLR$ 1.696.331,67
Lucro líquidoR$ 6.743.485,25
Demonstração do resultado do exercício da AtlasIntel Tecnologia de Dados LTDA em 31/12/2025
DRE assinada digitalmente, CNPJ 19.259.002/0001-28.

Veredito

A pesquisa ainda informa algo relevante sobre a corrida presidencial, mas o relatório não merece confiança plena como documento analítico completo.

Aproveitável

Voto antes do escândalo

Q3-Q8 vêm cedo. Esses números são os mais defensáveis: Lula lidera, Flávio é competitivo, direita sem Bolsonaro fragmenta.

Com ressalva

Medo e confiança

Q9-Q10 vêm antes do Banco Master, mas já são formuladas como Lula vs Flávio. Medem comparação política, não diagnóstico neutro.

Comprometido

Rejeição, imagem e reações

Qualquer coisa depois de Q11 precisa ser lida como pós-enquadramento Banco Master. O relatório não deixa isso suficientemente explícito.

A Atlas pode ter acertado tendências, mas o desenho editorial é frouxo: aplica 48 itens, publica só uma parte, omite blocos explicativos enormes e coloca uma peça audiovisual política no final. Isso não é “só detalhe”. Compromete bastante a leitura pública da pesquisa. O mínimo decente seria publicar matriz completa pergunta-a-pergunta, n por célula, pesos, targets de pós-estratificação, efeito de desenho e protocolo separado do vídeo/áudio.

Fontes

Este dossiê foi preparado como publicação externa. As fontes abaixo identificam o que foi usado, sem depender de caminhos privados de máquina.