Arvor Intelligence / auditoria eleitoral

AtlasIntel 260626

A pesquisa nova da Atlas/Bloomberg não é só “estranha”. Ela troca de registro no rastro da crise Michelle-Flávio, inverte a tesoura de gênero do voto, faz o “não sei” quase desaparecer (0,3% no medo) — e segura blocos inteiros do questionário para soltar só no dia seguinte. Em 02/07 saíram, sob embargo, as perguntas fantasma sobre Michelle e sobre o Banco Master/Wagner: pesadas para Michelle e para o PT, sobretudo quando se soma “piora muito” com “piora um pouco”.

Registro final: BR-04582/2026 Relatório: 4.999 respondentes TSE: 5.000 entrevistados Atlas RDR online Blocos Michelle + Master: só em 02/07

Veredito curto

Não dá para jogar tudo fora automaticamente, porque o voto presidencial aparece antes dos blocos Michelle, Banco Master/Wagner e EUA/Trump. Mas também não dá para tratar isso como pesquisa limpa. O uso correto é: sinal fraco de eleitor hiperengajado online, mapa das narrativas que a Atlas quis testar e alerta sobre nichos digitais; nunca bússola única de campanha.

Grave

Registro e relatório não fecham

O TSE registra campo a partir de 25/06 e 5.000 entrevistas; o PDF divulgado fala em 26/06 e 4.999 respondentes. Pequeno? Sim. Mas auditoria começa por bater papel com papel.

Gravíssimo

Quota violada no próprio alvo

O registro admite desvios finais de até 1 p.p. por variável. O relatório passa disso em 16-24, 45-59, Fundamental e Médio.

Bizarro

Mulheres pró-Flávio

Na Atlas, Flávio tem 43,5% entre mulheres e 29,1% entre homens. Datafolha e Nexus recentes mostram o padrão oposto: homens são a fortaleza de Flávio.

Sinal útil

Flávio não desaparece

Mesmo nessa amostra torta, Flávio continua sendo o adversário mais competitivo de Lula no 2º turno: 42,3% contra 48,8%.

Digital demais

Missão/Renan explode

Renan Santos marca 7,8% no cenário principal e 37,9% entre jovens de 16 a 24. O Partido Missão aparece com 7,1% de preferência partidária.

DRE

Operação comercial madura

Receita bruta de R$ 15,8 mi e lucro líquido de R$ 6,74 mi em 2025. Isso não prova viés; mostra incentivos e escala.

Impressão digital

O “não sei” sumiu

Só 0,3% não sabem quem os assusta mais, 1,0% não rejeitam ninguém e 3,6% não têm identidade política. Na Quaest, 56% não sabem em quem votar. Escolha forçada online apaga o eleitor indeciso.

Partido

PP 0,0%, Missão 7,1%

Os dois maiores partidos do Centrão (PP e União Brasil) somam 0,6% de preferência; o Partido Missão, sem histórico eleitoral, marca 7,1%. O sistema partidário aparece de ponta-cabeça.

Minha leitura: a Atlas captou um Brasil online muito engajado, com bolsonarismo familiar, bolsonarismo anti-PT, direita MBL/Missão e respondentes atraídos por pauta política. Isso pode ser útil para guerra digital. Para calibrar voto nacional, é veneno se usado sozinho.

O TSE dizia uma coisa. O PDF saiu outra.

O registro final BR-04582/2026 declara recursos próprios, custo de R$ 75 mil, campo de 25 a 30 de junho, 5.000 entrevistas e quotas com tolerância final de 1 p.p. O relatório público começa a coleta em 26/06, usa 4.999 respondentes e publica uma composição que passa da tolerância em alguns cortes.

Conferência documental

ItemRegistro TSERelatório AtlasLeitura
RegistroBR-04582/2026BR-04582/2026bate
Campo25/06 a 30/0626/06 a 30/061 dia some
Entrevistas5.0004.999diferença de 1 caso
Contratante/paganteAtlasIntelnão destacadoautofinanciada
ValorR$ 75.000,00não destacadorelevante para incentivo

O ponto não é que uma entrevista ou um dia derrube a pesquisa. O ponto é que a versão pública deve bater com o registro, especialmente quando a margem vendida é de apenas 1 p.p.

Registro TSE BR-04582/2026 da pesquisa AtlasIntel junho 2026
Registro TSE: 5.000 entrevistados, início em 25/06, R$ 75 mil, recursos próprios, quotas e tolerância de 1 p.p.

O rastro do registro anterior

Em 28/06 já havia notícia pública citando uma Atlas registrada como BR-03448/2026, com 5 mil eleitores até 29/06. O registro que saiu na pesquisa final é outro: BR-04582/2026, com questionário trazendo bloco Michelle-Flávio após o vídeo da crise familiar.

Raphael Nishimura, metodólogo de surveys e estatístico, apontou nas capturas anexadas que o registro anterior teria sido cancelado e substituído para incluir perguntas sobre Michelle. Isso precisa entrar como alerta: não prova manipulação do resultado, mas exige explicação pública da Atlas.

Captura de Raphael Nishimura sobre cancelamento de registro anterior da Atlas
Captura fornecida pelo usuário: a crítica de Nishimura ao possível cancelamento/substituição do registro.

As perguntas fantasma

O questionário tem 63 perguntas. O relatório público mostra voto, governo, rejeição, medo Lula-Flávio, identidade política e partido. Mas deixa sem top-line blocos politicamente valiosos: Michelle versus Flávio, Jaques Wagner/Banco Master, EUA/Trump/tarifas e parte da demografia/voto passado.

Mapa do questionário

BlocoPerguntasStatus públicoRisco
Voto presidencialQ1-Q7publicadomais aproveitável
Aprovação, confiança, problemas e economiaQ8-Q24parcialrelatório edita o retrato
Michelle x FlávioQ26-Q34só em 02/07bloco central da crise
Banco Master / Jaques WagnerQ35-Q41só em 02/07pode medir dano ao PT
EUA, Trump e tarifasQ42-Q50ainda omitidoalto valor narrativo
Demografia e voto 2022Q51-Q63parcialsem matriz completa
Páginas do questionário Atlas junho 2026 com blocos Michelle, Banco Master, Jaques Wagner e Trump
Páginas 9 a 12 do questionário: a pesquisa mediu coisas que o PDF público não top-lineou.

Perguntar e não publicar é uma forma de poder. O instituto fica com o mapa completo do campo de batalha; o público recebe só o recorte — e escolhe quando soltar cada peça. Em 02/07, um dia depois do topline, a Atlas publicou justamente os blocos Michelle e Banco Master/Wagner em relatórios separados, o de Wagner com EMBARGO DE DIVULGAÇÃO 02/07/2026, 07H00 impresso na capa. Análise completa na seção 02/07.

Atualização · 02/07/2026

As perguntas fantasma saíram — um dia depois

Exatamente os dois blocos que este dossiê apontou como omitidos foram publicados em 02/07, um dia após o topline, em dois relatórios avulsos: Percepções e impacto do vídeo de Michelle Bolsonaro (33 páginas) e Investigações sobre Jaques Wagner e o Banco Master (21 páginas, com EMBARGO DE DIVULGAÇÃO 02/07/2026, 07H00 impresso na capa). Não foi esquecimento: foi liberação escalonada. E o conteúdo explica por quê — é pesado para Michelle e pesado para o PT, sobretudo quando se somam as duas intensidades de “piora”.

Como ler estes gráficos: a Atlas ordena as barras de modo que a maior categoria isolada quase nunca é maioria (ex.: “piora muito” 39,6% aparece perto de “não afeta” 36,2%, sugerindo empate). O sinal real aparece ao somar piora muito + piora um pouco — aí vira maioria clara. É a conta que o desenho do slide não faz por você.

Bloco Michelle: dano à candidata, não só ao clã

Michelle é o 6º nome para liderar a direita

Na ausência de Jair, entre eleitores de direita. Ela fica atrás de Flávio, Nikolas, Renan, Tarcísio e até de Eduardo.

Flávio Bolsonaro
43,2
Nikolas Ferreira
18,4
Renan Santos
14,5
Tarcísio de Freitas
8,6
Eduardo Bolsonaro
4,5
Michelle Bolsonaro
3,9

Entre eleitores de Jair, Flávio esmaga Michelle

“Quem você preferiria como candidato da direita em 2026?” — só eleitores de Jair Bolsonaro.

Flávio
81,9
Michelle
14,7
Nenhum / não sei
3,5

E entre todos, Flávio é visto como mais fiel às orientações de Jair por 38,3% contra 15,5% de Michelle. Ela também tem a maior taxa de “nenhuma lealdade” a Jair da família (15%).

A exposição enfraquece Flávio — a soma é 64,1%

“A exposição do desentendimento enfraquece ou fortalece a candidatura de Flávio?” (quem assistiu ao vídeo). O slide separa as barras; somadas, o veredito é esmagador.

Enfraquece muito
37,8
Enfraquece um pouco
26,3
Enfraquece (soma)
64,1
Não afeta
22,4
Fortalece (soma)
9,2

Sete vezes mais gente diz que a briga enfraquece Flávio (64,1%) do que fortalece (9,2%). Michelle, ao expor a crise, feriu o candidato da própria família.

O público vê Michelle agindo por interesse próprio

“Qual foi a motivação principal do vídeo?” (quem assistiu). Somando as leituras auto-interessadas, dá 60,9%.

Quer ser candidata no lugar de Flávio
38,6
Aumentar poder no PL
22,3
Interesse próprio (soma)
60,9
Apenas expor divergências
28,5

Mesmo com o público geral simpatizando com o vídeo (51% concordam com a publicação e 59,6% acreditam na acusação), a base bolsonarista faz o contrário: 65,6% dos eleitores de Jair discordam de ela ter publicado e 54,6% não acreditam na acusação. Ela ganhou a plateia adversária e perdeu a própria.

Bloco Wagner/Master: o custo para o PT

74,3% já condenaram o líder do governo no Senado

“Você acredita que Jaques Wagner recebeu vantagens indevidas do Banco Master?” (quem sabe do caso). A presunção de culpa é quase unânime.

Sim, recebeu
74,3
Não sei
16,2
Não recebeu
9,4

O caso não é obscuro: 93,9% dizem conhecê-lo (71,4% de perto). E 59,1% acham que ele respinga em Lula — “afeta diretamente o presidente” (35,6%) mais “afeta parte do governo” (23,5%) — contra 37,8% que o isolam como problema pessoal do senador.

Imagem do governo Lula: a soma “piora” é 57,1%

“Qual impacto esse caso tem na sua imagem do governo Lula?” (quem sabe do caso). Isolada, “piora muito” (39,6%) parece empatar com “não afeta” (36,2%). Somada, vira maioria.

Piora muito
39,6
Piora um pouco
17,5
Piora (soma)
57,1
Não afeta
36,2
Melhora (soma)
4,4

Prejudica a reeleição de Lula: soma de 61,2%

“Casos como esse podem prejudicar uma eventual candidatura de Lula à reeleição?” O slide destaca “não prejudicam” (36,3%) no topo; a soma dos “sim” é quase o dobro.

Sim, muito
32,4
Sim, um pouco
28,8
Sim, prejudica (soma)
61,2
Não prejudicam
36,3

A quem o eleitor atribui o esquema

“Qual grupo político está mais envolvido nas fraudes do Banco Master?” Aqui a Atlas dá empate técnico entre os lados — mas o governo não sai ileso.

Aliados de Lula
37,6
Aliados de Bolsonaro
36,0
Todos igualmente
17,1
Centrão
6,1

É um espelho partidário (a direita culpa Lula, a esquerda culpa Bolsonaro), mas somando “aliados de Lula” e “todos igualmente” são 54,7% que enxergam o lado do governo implicado — e a figura concreta acusada, Wagner, é o líder de Lula no Senado.

Leitura estratégica: a rodada de junho da Atlas é, no fim, uma operação de duas pontas contra a mesma foto. Contra a oposição, mede e amplifica a fratura Michelle-Flávio (que 64,1% já veem enfraquecendo o candidato). Contra o governo, entrega ao debate a tese de que o caso Wagner mancha Lula (57,1% de piora de imagem, 61,2% de dano à reeleição), num momento em que o próprio dossiê mostra Lula travado abaixo de 50. O que a Atlas segurou por um dia não era neutro: era munição calibrada para os dois alvos.

Amostra: onde bate e onde entorta

Sexo e região ficam perto do TSE. Escolaridade, usando a variável PNAD trimestral VD3004, está perto do benchmark. O problema duro é outro: o relatório não cumpre plenamente o próprio alvo registrado em idade/escolaridade, e a renda replica bem a PNAD nominal antiga, mas fica pobre demais quando as mesmas faixas são comparadas em reais de 2026.

Perfil publicado versus quotas registradas

CorteQuota TSERelatórioDelta
Mulher52,8%52,3%-0,5
Homem47,2%47,7%+0,5
16-2412,6%10,9%-1,7
25-3419,0%18,6%-0,4
35-4419,8%20,4%+0,6
45-5925,4%27,2%+1,8
60+23,1%22,9%-0,2
Fundamental33,8%34,9%+1,1
Médio40,7%39,5%-1,2
Superior25,5%25,6%+0,1

O registro diz que desvios finais de até 1,0 p.p. seriam admissíveis. A tabela acima usa os números do próprio registro e da página de perfil da amostra.

Perfil da amostra da pesquisa AtlasIntel junho 2026
Perfil publicado: 4.999 respondentes, campo 26/06 a 30/06 e composição final da amostra.

Região contra TSE Eleitorado Atual

RegiãoAtlasTSE 05/2026Delta
Sudeste41,4%42,1%-0,7
Nordeste28,5%27,6%+0,9
Sul14,6%14,5%+0,1
Norte8,3%8,3%0,0
Centro-Oeste7,2%7,6%-0,4

Base local: data/outputs/tse_eleitorado_perfil.sqlite, geração TSE 01/05/2026, Brasil sem exterior.

Renda familiar contra PNAD

FaixaAtlasPNAD adultosPNAD domicílios
R$0-R$2.00022,4%19,9%26,2%
R$2.000-R$3.00017,6%11,7%12,7%
R$3.000-R$5.00023,2%26,7%25,7%
R$5.000-R$10.00023,4%25,7%21,8%
Acima de R$10.00013,3%16,0%13,5%

PNAD anual padrão, renda domiciliar total efetiva deflacionada para 03/2026. Em valores nominais brutos, a PNAD praticamente reproduz as quotas Atlas; em reais atualizados, a faixa R$2-3 mil fica inflada e a alta renda fica comprimida por pessoas. Adultos 16+ são o benchmark principal; domicílios entram como sensibilidade.

Cruzamentos que gritam internet

Andrei Roman tentou defender crosstabs estranhos dizendo que grupos pequenos devem ter números esquisitos. Raphael Nishimura ironizou isso. E ele tem razão no ponto principal: homem e mulher não são subgrupos pequenos numa amostra de quase 5 mil casos.

Gênero: o alarme mais alto

Lula homens
49,2
Lula mulheres
43,7
Flávio homens
29,1
Flávio mulheres
43,5
Renan homens
12,8
Renan mulheres
3,2

Aproximação AAS: a diferença Flávio mulheres-homens de 14,4 p.p. teria margem de diferença em torno de 2,6 p.p. antes de efeito de desenho. Mesmo dobrando a variância, continua enorme. Isso não é “célula pequena”; é sintoma de seleção, peso ou instabilidade.

Tweet de Raphael Nishimura ironizando a defesa dos cruzamentos da Atlas
Nishimura ironiza a desculpa de “subgrupos pequenos”. Em sexo, a desculpa simplesmente não cola.
Juventude

Renan 37,9% em 16-24

Esse número sozinho já sugere amostra de jovem politizado online. Pode ser sinal de bolha MBL/Missão, não intenção nacional estabilizada.

Partido

Missão 7,1%

Um partido recém-registrado, presidido por Renan Santos, aparecer quase colado em NOVO+PSOL é sinal de sobre-representação de audiência política digital.

Comparação

Datafolha/Nexus batem no oposto

No Datafolha de junho, Lula vence mulheres por 52 a 37 e Flávio vence homens por 50 a 41. A Nexus também coloca homens como força de Flávio. A Atlas inverte a tesoura.

Preferência partidária na pesquisa Atlas junho 2026 com Partido Missão em 7,1%
Preferência partidária publicada: Missão com 7,1%, acima de NOVO, PSOL, PSB, PSDB e PDT.

Quatro impressões digitais de um painel online

A tesoura de gênero é o alarme mais alto, mas não o único. A amostra deixa quatro marcas típicas de um eleitorado digital hiperengajado — e nenhuma aparece destacada no PDF público. Juntas, elas explicam por que os cruzamentos internos gritam “internet”.

1. O “não sei” que evaporou

Medo Lula/Flávio · não sei
0,3
Rejeição · nenhum destes
1,0
Identidade política · não sei
3,6
Quaest · não decidiu voto
56

Em pesquisa presencial ou telefônica, a não-resposta em perguntas de atitude costuma ficar entre 5% e 15%. No recrutamento digital de escolha forçada da Atlas, o “não sei” some — e some junto a parcela mais real do eleitorado: a que ainda não decidiu. A Quaest, no espontâneo de junho, achou 56%.

2. Sistema partidário de ponta-cabeça

PT
23,8
PL
21,3
Missão
7,1
NOVO
3,6
PSDB
1,8
União Brasil
0,6
PP
0,0

PP e União Brasil estão entre os maiores partidos do país em prefeitos e deputados. Aparecerem com 0,0% e 0,6% de preferência enquanto o Partido Missão, sem histórico eleitoral, marca 7,1% é assinatura de audiência digital ativista — não de eleitorado nacional.

3. O ranking secreto da família

Jair vs Lula (2º t.)
43,1
Flávio vs Lula
42,3
Michelle vs Lula
38,9

A Atlas publicou, na prática, uma prévia da sucessão bolsonarista: o pai à frente do filho, e Michelle como o nome mais fraco. No cenário sem homem Bolsonaro, Michelle faz só 19,3% no 1º turno e a direita se fragmenta (Zema 8,6, Renan 8,1, Caiado 8,1). Sozinha, ela não consolida o voto da família.

4. O vazamento na direita

Entre quem votou em Jair Bolsonaro no 2º turno de 2022, Flávio retém cerca de 74,8% no cenário principal. Ou seja: 1 em cada 4 bolsonaristas de 2022 não migra para Flávio — escorre para Renan/Missão e para o branco/nulo.

Rejeição Flávio
53,0
Rejeição Jair
45,2

O filho aparece mais rejeitado que o pai (53,0% x 45,2%) e até mais que Michelle (43,2%). É consistente com o dano reputacional do bloco Master/Dark Horse recair sobre Flávio — justamente o bloco que o PDF não top-lineou.

Bônus estatístico: entre evangélicos, a Atlas dá quase empate (Lula 39,7 x Flávio 42,9). A Nexus do mesmo mês dá Flávio 59 x 34. Vinte e cinco pontos de diferença no mesmo eleitorado, no mesmo mês — mais um sintoma de amostra atípica, não de eleitorado real.

O ouro no meio do lixo: o macro bate

Apesar dos cruzamentos tortos, o topo de linha da Atlas conversa com o mercado. As quatro pesquisas de junho colocam Lula preso abaixo de 50, Flávio como o adversário mais competitivo e a disputa aberta dentro da margem. A ruptura está só nos recortes.

Pesquisa (jun/2026)LulaFlávioGapBr/nuloFortaleza de Flávio
AtlasIntel48,842,3+6,58,9MULHERES (43,5 x 29,1 H)
Nexus/BTG4943+68homens (49 x 42)
Datafolha4743+4homens (50 x 41)
Quaest4438+614homens

Direção idêntica no agregado; a inversão está só no gênero. É por isso que a Atlas serve como termômetro de narrativa e alerta de nicho digital — nunca como bússola única de voto nacional.

DRE: o que ela explica e o que não explica

A DRE não prova manipulação. Ela prova que a Atlas é uma operação comercial lucrativa, com escala, infraestrutura e serviços de terceiros relevantes. Isso importa porque pesquisa autofinanciada e divulgada publicamente também é produto de marca.

AtlasIntel Tecnologia de Dados LTDA - 2025

ContaValorLeitura
Receita brutaR$ 15,81 mioperação relevante, não artesanal
Serviços no exteriorR$ 1,31 mireceita internacional
Infraestrutura computacionalR$ 1,79 micusto digital alto
Terceiros/PJR$ 4,35 midependência operacional externa
Lucro líquidoR$ 6,74 mimargem líquida de 42,6%
Custo da pesquisaR$ 75 mil0,47% da receita; 1,11% do lucro

O custo da pesquisa é pequeno perto do lucro anual. Logo, o incentivo econômico não é “recuperar o custo da pesquisa”; é reputação, produto, narrativa e presença de mercado.

DRE da AtlasIntel Tecnologia de Dados LTDA em 31/12/2025
DRE anexada ao registro TSE de junho. Mesmo documento já aparecia nos dossiês anteriores.

O mito da margem de 1 ponto

A Atlas gosta de vender precisão. O segundo turno de 2022 é o teste simples: a última Atlas deu Lula 53,4% x Bolsonaro 46,6% nos válidos, com margem anunciada de 1 p.p. O TSE apurou 50,90% x 49,10%. A direção acertou; a precisão vendida não.

FonteLula válidosBolsonaro válidosMargem Lula-BolsonaroErro da margemLeitura
TSE 202250,90%49,10%+1,8-resultado oficial
Atlas, 29/10/202253,4%46,6%+6,8+5,0fora da margem de 1 p.p.; candidato por candidato erra 2,5 p.p.
Datafolha, 29/10/202252,0%48,0%+4,0+2,2candidato por candidato fica dentro de ±2
Paraná, 29/10/202250,4%49,6%+0,8-1,0foi a leitura mais próxima entre as citadas

Dizer que Atlas “acertou muito” em 2022 é meia verdade. Acertou vencedor. Errou feio a distância. Quando o instituto anuncia margem de 1 ponto, a régua tem de ser a régua que ele mesmo vende.

Estratégia para Flávio

Use a Atlas como detector de cheiro, não como GPS. Ela aponta o que a bolha política conectada está respondendo, não uma verdade limpa sobre o eleitorado nacional.

Aproveitar

Resiliência agregada

Lula fica abaixo de 50 no 2º turno e Flávio ainda é o adversário mais competitivo. Isso conversa com Datafolha, Nexus e Quaest: a eleição está aberta, mas difícil.

Não usar

Mulheres da Atlas

Não faça estratégia feminina com base nessa inversão. O problema real de Flávio em pesquisas melhores é reduzir rejeição e medo entre mulheres.

Monitorar

Missão/Renan

Não é voto consolidado, mas é ruído real de direita anti-sistema/anti-Bolsonaro entre jovens online. Se ignorar, vira vazamento de energia digital.

Cobrar

Transparência

Exigir n efetivo por célula, distribuição dos pesos, resultados completos das 63 perguntas, histórico do registro anterior e matriz de voto por renda/gênero/idade.

Narrativa

Não amplificar briga familiar

A Atlas quis medir Michelle-Flávio. A campanha deve fechar a ferida sem transformar o tema em novela. A base odeia desorganização familiar exposta.

Priorizar

Mulheres e renda baixa

A estratégia robusta continua a mesma dos relatórios anteriores: segurança, custo de vida, saúde e escola. Menos performance agressiva; mais redução de risco reputacional.

Diagnóstico final: pesquisa contaminada, mas não inútil. O lixo está nos cruzamentos e na opacidade; o ouro está em mostrar quais narrativas estão sendo testadas contra Flávio e onde a direita jovem conectada pode estar vazando para Renan/Missão.

Fontes e arquivos

Todos os PDFs da rodada de junho foram movidos para data/pesquisas/atlas/2026-06-30/. As imagens usadas neste relatório estão em docs/img/atlas_260626/.

  • Relatório local: atlas_bloomberg_nacional_2026-06-30.pdf; versão pública em Congresso em Foco.
  • Questionário, estatístico, DRE e registro TSE localizados em data/pesquisas/atlas/2026-06-30/.
  • Blocos publicados em 02/07 (fantasmas até então): Pesquisa Atlas_Bloomberg - Percepções e impacto do vídeo de Michelle Bolsonaro 260630.pdf (33 p.) e Pesquisa Atlas_Bloomberg - Investigações sobre Jaques Wagner e o Banco Master 260630.pdf (21 p., embargo 02/07 07h00), ambos em data/pesquisas/atlas/2026-06-30/.
  • Congresso em Foco sobre o resultado de junho: Lula 48,8 x Flávio 42,3; cenário principal 46,3 x 36,6.
  • Folha do Leste registrando referência pública anterior ao número BR-03448/2026.
  • UOL sobre a última Atlas de 2022: Lula 53,4 x Bolsonaro 46,6 e margem de 1 p.p.
  • CNN/Datafolha sobre 2022: Lula 52 x Bolsonaro 48, margem de 2 p.p.
  • CNN/Paraná Pesquisas sobre 2022: Lula 50,4 x Bolsonaro 49,6, presencial, margem de 2 p.p.
  • TSE, totalização oficial de 2022: Lula 50,90 x Bolsonaro 49,10.
  • Benchmarks locais: data/outputs/tse_eleitorado_perfil.sqlite, data/outputs/atlas_260626/pnad_benchmarks.json, data/outputs/atlas_260626/pnad_income_benchmarks_compare.json e data/outputs/atlas_260626/pnad_education_benchmarks.json.
  • Capturas de Raphael Nishimura fornecidas pelo usuário e preservadas em docs/img/atlas_260626/.