ArvorARVOR INTELLIGENCE · AUDITORIA ELEITORAL · 24/06/2026
Dossiê · Datafolha junho 2026 · TSE BR-09956/2026

O “47 x 43” é empate técnico

A pesquisa Datafolha de junho não mostra virada contra Flávio: o 2º turno repete maio. Mas a manchete “Lula na frente” não sobrevive à estatística. A diferença de 4 pontos é menor que a margem de erro da diferença (~±4 pp), e some por completo quando a renda da amostra é recalibrada à PNAD. Auditamos placar, desenho amostral, transferência de voto, reponderação e as perguntas que foram aplicadas e não publicadas — inclusive perguntas sobre o próprio Flávio.

2.004 entrevistas · 139 municípios Campo 17–18/06/2026 Pontos de fluxo (não-domiciliar) Contratante: Folha de S.Paulo Registro TSE BR-09956/2026
47 x 43
2º turno Lula × Flávio
idêntico a maio · gap de 4 pp
±4,1
Margem sobre a diferença
empate técnico já no AAS
45,6–45,9
2º turno reponderado à PNAD
renda por pessoa zera a vantagem
77%
Setores repetidos de maio
255 de 331 · SP 20 de 22
Sumário executivo

Veredito em uma página

Não há evidência de fraude nos documentos. Há evidência forte de duas coisas: excesso de certeza na manchete e insuficiência de transparência no método. A foto eleitoral é desfavorável a Flávio entre mulheres, baixa renda, Nordeste, católicos e pretos — mas o número que virou notícia, “Lula 47 x 43”, é estatisticamente indistinguível de um empate, e desaparece quando a renda da amostra é alinhada à população.

Placar
47 x 43

2º turno idêntico a maio. Mas a margem de erro da diferença entre dois candidatos é ~±4 pp — maior que os 4 pontos que separam os dois. Empate técnico.

Renda
45,6 / 45,9

Reponderando a renda à PNAD por pessoas 16+, Lula cai a 45,6 e Flávio sobe a 45,9. A vantagem nasce de uma amostra mais pobre que o país.

Transferência
2 : 1

Na consolidação do 1º para o 2º turno, o voto de terceiros e indecisos vai para Flávio na proporção de ~2 para 1 sobre Lula. O anti-Lula é real.

O que o Datafolha fez bem

Perguntou o voto antes dos módulos de Trump, facções, economia e ideologia, protegendo o top-line de priming. Acertou sexo, região e escolaridade contra TSE/PNAD. Publicou anexo de bairros — algo que a maioria dos institutos não faz.

O que falta para ser incontestável

Microdados, pesos finais por entrevistado, efeito de desenho real (não AAS), protocolo de ponto/horário/recusa, distribuição do voto lembrado de 2022 e o resultado de todas as perguntas registradas — inclusive as que avaliam o próprio Flávio.

Achado nº 1 · estatística

Por que “47 x 43” é empate técnico

A margem de erro de ±2 pp que o Datafolha divulga vale para cada estimativa isolada (o 47 de Lula, o 43 de Flávio). Ela não é a margem sobre a distância entre os dois. Quando se quer saber se um candidato está realmente à frente do outro, a conta certa é o erro da diferença — e ele é quase o dobro.

A margem da diferença, na fórmula

Para dois candidatos da mesma amostra, o erro da diferença é EP(L−F) = √[(pL+pF−(pL−pF)²)/n]. Com pL=0,47, pF=0,43 e n=2.004:

  • EP da diferença ≈ 2,12 pp → margem 95% ≈ ±4,15 pp.
  • Diferença observada = 4,0 pp < 4,15 pp → cruza o zero.
  • Conclusão: ao nível de 95%, não dá para afirmar que Lula está à frente — mesmo usando a margem otimista de amostra aleatória simples.

E isso é antes do efeito de desenho. Com o deff real (próxima seção), a margem da diferença sobe para ~±5 pp, e o empate fica ainda mais nítido.

Visual: o intervalo dos dois se sobrepõe

38 41 44 47 50 intenção de voto (%) — barras = IC 95% com deff realista (±2,6) Flávio 43 Lula 47 zona de sobreposição

Os intervalos de 95% de Lula e Flávio se cruzam (faixa dourada). Quando isso acontece, a liderança não é estatisticamente significativa.

Tradução honesta da manchete

“Lula 47 x 43” deveria ser noticiado como “Lula e Flávio empatados tecnicamente, com leve vantagem nominal de Lula”. A diferença de 4 pontos é exatamente o tipo de gap que vira manchete de “liderança” quando, em rigor, é indistinguível de zero. Não é erro de cálculo do Datafolha — é leitura excessiva do número pela cobertura.

Achado nº 2 · desenho amostral

O deff simulado: a margem real é maior que ±2

A própria declaração de responsabilidade técnica diz, com todas as letras: “O Datafolha não usa abordagem domiciliar e, sim, abordagem em pontos de fluxo populacional.” Isso tem duas consequências que a margem de ±2 pp esconde: (1) ponto de fluxo é seleção por interceptação, não probabilística — a rigor, não existe margem clássica; (2) há conglomeração: ~6 entrevistas por setor censitário, em 331 setores. Conglomeração + ponderação inflam a variância pelo efeito de desenho (deff).

Como o deff corrói o n

deff de conglomeração ≈ 1 + (b̄−1)·ρ, com b̄≈6 entrevistas/setor e ρ = correlação intraclasse do voto no setor. A ponderação adiciona 1 + CV²(pesos). O n efetivo é n / deff. A margem real cresce com a raiz do deff.

margem por estimativamargem da diferença (L−F)
Cenáriodeffn efetivo±/estim.±/dif.
AAS declarado (ρ=0)1,002.0042,24,1
Otimista (ρ=0,02)1,171.7142,44,5
Realista (ρ=0,06)1,461.3762,65,0
Conservador (ρ=0,10)1,801.1132,95,6

b̄ = 2.004/331 ≈ 6,05. CV(pesos) suposto 0,25–0,45 (compatível com o ajuste de escolaridade ×1,23 / ×0,86). Sem os microdados, é simulação — mas é a faixa plausível, e toda ela amplia a margem divulgada.

A margem cresce, a diferença não

margem da diferença (±pp) vs. gap observado (4,0) gap = 4,0 pp 4,1 AAS 4,5 otimista 5,0 realista 5,6 conserv. Em todos os cenários, a margem (barra) supera o gap (linha). Empate em qualquer hipótese.

O ponto técnico, sem rodeio

A margem de ±2 pp é a margem de uma amostra aleatória simples — que não é o desenho do Datafolha. Em amostra por pontos de fluxo, conglomerada e ponderada, a margem realista por estimativa fica em torno de ±2,6 pp e a margem sobre a diferença em ~±5 pp. O “Lula à frente” não passa em nenhum dos cenários. Para superar a ambiguidade, o Datafolha precisaria publicar o deff e o n efetivo — coisa que não faz.

Achado nº 3 · transferência de voto

Quem herda os votos do 1º para o 2º turno

No 1º turno, Lula tem 41 e Flávio 31. Sobram 28 pontos que não são de nenhum dos dois: 17 de candidatos do “terceiro caminho”, 7 de branco/nulo e 4 de indecisos. No 2º turno, Lula sobe a 47 (+6) e Flávio a 43 (+12). Ou seja: na consolidação, o voto disponível corre para Flávio na proporção de ~2 para 1 sobre Lula. É a melhor notícia do levantamento para a direita — e mostra que o anti-Lula existe e tem para onde ir.

Saldo de consolidação 1º → 2º turno (Situação A: Lula × Flávio)

Lula Flávio terceiros + branco/nulo + indecisos (28 pts) · ficam fora
Lula 41 Disponíveis 28 terceiros 17 · b/n 7 · NS 4 Flávio 31 1º TURNO Lula 47 +6 Flávio 43 +12 Fora ≈9 2º TURNO +6 → Lula +12 → Flávio

Leitura de fluxo agregado (corte transversal), não painel individual: mostra o saldo líquido de cada bloco entre o 1º e o 2º turno, não o trajeto de cada eleitor. Soma do 2º turno = 99 por arredondamento. Fonte: relatório Datafolha jun/2026, pp. 23 e 25.

A batalha dos três cenários: o teto de Lula está travado

O Datafolha testou Lula contra três nomes da direita. Em todos, Lula fica entre 47 e 48 — seu teto não se move. Quem muda é o adversário. E o adversário mais competitivo é justamente Flávio (43), à frente de Caiado (41) e Zema (39).

teto Lula 47–48 vs Flávio 47 43 vs Caiado 47 41 vs Zema 48 39

Flávio é o adversário que mais aproveita o anti-Lula. O paradoxo da campanha: ele tem a maior rejeição e, ao mesmo tempo, a melhor transferência. Fonte: relatório jun/2026, p. 25, Situações A/B/C.

Por que isso importa para a estratégia

  • A eleição não é sobre Lula crescer. Ele está colado no teto de 47–48 contra qualquer um. É sobre a oposição consolidar os 28 pontos disponíveis.
  • Flávio já transfere melhor que os rivais. Trocar de candidato (Caiado/Zema) não melhora o 2º turno da direita — piora. O ativo é a polarização, não a moderação do nome.
  • O gargalo é a rejeição, não a transferência. Flávio converte indecisos, mas tem 48% que “não votariam de jeito nenhum”. Reduzir esse teto vale mais que qualquer marketing de 1º turno.
  • O voto de Flávio é elástico. Ele tira 31 no 1º turno com só 10% de identificação com o PL (perfil ponderado). Vive de não-partidários — recrutáveis, mas instáveis.
Série · maio → junho

Maio × Junho: não houve virada

O movimento nacional é mínimo. Maio foi a pesquisa do bloco “Banco Master”. Junho troca a narrativa para Trump, facções, economia, ideologia e IA — mas o voto principal é perguntado antes desses módulos. No 2º turno, o placar é idêntico. Quem afirmou que Flávio “desabou” não está lendo o próprio Datafolha.

1º turno estimulado

LulaFláviobranco/nulo
Lula maio
40
Lula junho
41
Flávio maio
31
Flávio junho
31
Branco/nulo mai
9
Branco/nulo jun
7

2º turno Lula × Flávio + rejeição

Lula maio
47
Lula junho
47
Flávio maio
43
Flávio junho
43
Rejeição Flávio
48
Rejeição Lula
46
IndicadorMaioJunhoΔLeitura
1º turno Lula4041+1Oscilação normal, dentro da margem.
1º turno Flávio31310Não recupera o tombo pós-Master, mas também não cai.
2º turno Lula × Flávio47×4347×430Centro da história: estabilidade — e empate técnico.
Rejeição Flávio4648+2Continua o teto estratégico do candidato.
Rejeição Lula4546+1Lula também é muito rejeitado: o anti-Lula é real.
Campo declaradorelatório: 20–21/05relatório: 17–18/06±1dO registro PesqEle marca término em 22/05 e 19/06. Inconsistência documental, não substantiva.
Primeiro turno Datafolha junho por gênero, idade, escolaridade e renda
1º turno de junho: Lula 41, Flávio 31, brancos/nulos 7, não sabe 4. Caiado, Renan e Zema lideram o “terceiro caminho”.
Segundo turno Datafolha junho, três situações
2º turno: três situações. Lula 47×43 (Flávio), 47×41 (Caiado), 48×39 (Zema). O teto de Lula não se move.
Achado nº 4 · bairros & pontos

Bairros: 77% dos setores se repetem

O anexo de bairros é a novidade útil — mostra onde as entrevistas ocorreram. Mas não revela horário, fluxo, reposição de ponto, taxa de recusa nem probabilidade de seleção. E expõe uma tensão: se o desenho “sorteia” pontos de fluxo, por que 255 dos 331 setores (77%) repetem de maio para junho, e 20 de 22 em São Paulo? Isso é mais painel de locais do que sorteio novo — e reforça a necessidade de calcular o deff sobre desenho conglomerado.

Brasil
331setores únicos · jun

2.004 entrevistas, ~6 por setor.

Repetição
77,0%setores repetidos

255 dos 331 já estavam em maio; 76 entraram, 76 saíram.

SP capital
20/22setores idênticos

A rotação real em SP entre maio e junho é mínima.

O achado de SP desmente a tese fácil

Cruzando os 22 pontos paulistanos com o 2º turno de prefeito de 2024 por bairro eleitoral, 18 caem em áreas onde Ricardo Nunes venceu Boulos e 4 onde Boulos venceu. Média simples dos pontos: Nunes 58,35%, colada no resultado oficial da cidade (Nunes 59,34%). Ou seja: em SP capital a crítica honesta não é “escolheram bairro de esquerda”. É “por que quase tudo se repetiu, e qual é o protocolo de sorteio/rotação?”.

Ponto Datafolha junProxy eleitoral 2024NunesBoulosLeitura
Americanópolis / Cid. AdemarAmericanópolis58,341,7Nunes, periferia sul competitiva.
BelémBelenzinho62,437,6Proxy mais robusto que o bairro “Belém” (n irrelevante).
Brás / Bela VistaBela Vista45,154,9Boulos, centro expandido.
GrajaúGrajaú51,848,2Nunes por margem pequena.
Santa CecíliaSanta Cecília44,155,9Boulos, centro-esquerda clássico.
Vila Pompeia / PerdizesVila Pompeia55,045,0Nunes, zona oeste média-alta.
Demais 16 pontosLimão, Penha, Santana, Socorro, Ipiranga, Jabaquara, Brasilândia etc.maioria NunesSem sinal de desenho pró-Boulos.
Anexo de bairros Datafolha, pontos de São Paulo junho
Anexo de bairros de junho (p.5): permite comparar setor a setor contra maio e contra o mapa eleitoral de 2024. O cruzamento usa bairro do local de votação do TSE — proxy, não geocodificação exata do setor.

Arquivos: datafolha_bairros_compare.csv (331 setores, 255 repetidos), datafolha_sp_bairros_2024_match.csv e sp_2024_prefeito_2t_bairros.csv (5,7 mi de votos válidos processados).

Achado nº 5 · a peça-chave

A vantagem de Lula mora na renda da amostra

Sexo, idade, região e escolaridade estão bem calibrados. A renda, não. A amostra do Datafolha é mais pobre que o país: 50,4% declaram renda familiar de até 2 salários mínimos, contra 42,9% na PNAD por domicílios e 35,4% na PNAD por pessoas 16+. Como a baixa renda dá Lula 53 × 38 e a renda acima de 2 SM dá Flávio, esse excesso de pobres tem direção conhecida: infla Lula. Recalibrando só esse marginal, a vantagem some.

Reponderação marginal: a vantagem evapora

Mantemos o voto publicado dentro de cada faixa de renda e trocamos apenas o peso de cada faixa pelo benchmark PNAD. É uma sensibilidade auditável (ignora correlações, não usa microdado), mas mostra para onde o resultado escorrega.

48464442 47,4 46,4 45,6 43,6 44,9 45,9 Datafolharenda publicada PNAD domicílios2025 v1 PNAD pessoas16+ · 2025 v1 empate / Flávio +0,3

Lula cai de 47,4 para 45,6; Flávio sobe de 43,6 para 45,9. As linhas se cruzam: na PNAD por pessoas, é empate com leve vantagem de Flávio. Fonte: datafolha_reweight_sensitivity.json.

Por que a amostra está “pobre demais”

Compare a fatia de renda familiar até 2 SM:

Datafolha jun
50,4
PNAD domicílios
42,9
PNAD pessoas 16+
35,4

% na faixa até 2 salários mínimos. Quanto mais pobre a amostra, maior a vantagem de Lula.

Voto no 2º turno por renda — o gradiente

LulaFlávio
Até 2 SM
53
38
2–5 SM
41
49
5–10 SM
42
51
+10 SM
43
54

A virada de chave acontece exatamente em 2 SM: abaixo, Lula domina; acima, Flávio domina.

Cenário de reponderação (2º turno)LulaFlávioDiferençaLeitura
Datafolha ponderado (renda publicada)47,443,6Lula +3,8Reproduz o 47×43 oficial.
Troca região → TSE 05/202647,143,4Lula +3,7Região não explica nada relevante.
Troca renda → PNAD domicílios 2025 v146,444,9Lula +1,5A defesa mais justa do Datafolha já estreita muito.
Troca renda → PNAD pessoas 16+ 2025 v145,645,9Flávio +0,3Se a unidade correta for o respondente, a vantagem some.

Conclusão técnica, sem exagero

A reponderação não prova que Flávio está à frente. Prova que o “Lula +4” depende de uma amostra economicamente mais pobre que a PNAD — por domicílios e, ainda mais, por pessoas. Some isso ao empate técnico da seção 1, e a leitura honesta do 2º turno é: disputa aberta, dentro da margem, não liderança consolidada de Lula.

Perfil ponderado da amostra Datafolha junho
Perfil ponderado do relatório (p.17): a base dos pesos marginais usados na sensibilidade. Renda familiar até 2 SM ponderada = 1.010 de 2.004 (50,4%).
Achado nº 6 · onde o peso atuou

Bruto × ponderado: a digital da ponderação

O anexo de bairros publica a contagem bruta da amostra; o relatório publica o perfil ponderado. Cruzar os dois é raro e revelador — mostra exatamente onde a ponderação mexeu. A resposta tranquiliza em renda e região, mas acende um alerta em escolaridade: havia superior demais na coleta de rua, corrigido para baixo, e fundamental de menos, puxado para cima com fator 1,23.

Escolaridade: o maior ajuste

Fundamental ↑Médio →Superior ↓
BRUTOPONDERADO Médio 45,7 43,7 Superior 28,4 24,4 (×0,86) Fund. 25,9 32,0 (×1,23)

Fundamental sobe 6,1 pontos no peso; superior cai 4. É um ajuste grande para um marginal que se correlaciona com voto. O Datafolha deveria publicar a distribuição dos pesos finais.

Onde o peso quase não mexeu

CorteBrutoPond.Fator
Sexo masculino47,348,01,01×
60 anos ou +22,924,31,06×
Renda até 2 SM49,350,41,02×
Renda +5 SM12,911,40,89×
Nordeste27,528,01,02×
Fundamental25,932,01,23×
Superior28,424,40,86×

Detalhe contraintuitivo: a ponderação deixou a amostra ainda mais pobre (até 2 SM subiu de 49,3 para 50,4%). O viés de renda não é “corrigido” pelo peso — é levemente reforçado.

Perfil bruto da amostra no anexo de bairros
Perfil bruto (anexo de bairros, p.6): contagens não ponderadas. A declaração de responsabilidade técnica confirma a abordagem em pontos de fluxo e o uso do CNEFE/IBGE.
Achado nº 7 · transparência do questionário

As perguntas-fantasma — inclusive sobre o próprio Flávio

O lado bom: o voto presidencial vem antes dos módulos de Trump, facções, economia e ideologia, blindando o top-line de priming direto. O lado ruim: o relatório publica uma fração mínima do que foi perguntado. E entre o que ficou de fora há perguntas que avaliam diretamente Flávio Bolsonaro — aplicadas a todos os entrevistados e nunca divulgadas.

✓ Publicado no relatório

  • Voto espontâneo, estimulado, rejeição e os três cenários de 2º turno.
  • Avaliação e aprovação do governo Lula.
  • Efeito do apoio de Trump (aumenta 17 / diminui 15 / indiferente 65).
  • Arrependimento do voto de 2022 (8% sim) — mas sobre base de 1.546, sem revelar em quem votaram.

✕ Aplicado e não publicado

  • P.14/P.15 — Flávio influenciou os EUA a classificar PCC/CV como terroristas? Isso foi positivo ou negativo? Pergunta sobre o próprio candidato, retida.
  • P.10 — percepção econômica (país e pessoal).
  • P.11–P.13 — facções como organizações terroristas; EUA com “direito” de atacar facções no Brasil sem avisar.
  • P.16–P.18 — bateria ideológica (armas, drogas, pena de morte, homossexualidade, Deus, sindicatos) e maioridade penal.
  • P.19–P.20 — Inteligência Artificial.
  • Distribuição do voto lembrado de 2022 — a auditoria política básica da amostra.

A tabela que deveria estar publicada

O questionário pergunta em quem o eleitor votou no 2º turno de 2022. A lembrança ponderada deveria orbitar Lula 50,9 × Bolsonaro 49,1 (votos válidos), com desconto por memória e desejabilidade. Sem essa tabela, não há como testar se a amostra está politicamente enviesada. Publicar arrependimento (8%) sem publicar a base lembrada é divulgar o efeito escondendo a causa.

Por que isso é grave

Reter perguntas sobre economia e ideologia é discutível; reter uma pergunta que avalia se a ação de Flávio nos EUA foi positiva ou negativa é editorialmente sensível. O instituto coletou um dado de altíssimo valor reputacional sobre um dos dois finalistas — e não o mostrou. Transparência exige publicar o resultado de todas as perguntas registradas, ou justificar cada omissão.

Questionário Datafolha: facções, PCC, CV e influência de Flávio nos EUA
P.14/P.15: aplicaram perguntas sobre a influência de Flávio na decisão dos EUA — e se ela foi positiva ou negativa. Não aparecem no relatório.
Questionário Datafolha: bateria de valores ideológicos
Bateria ideológica extensa (armas, pobreza, drogas, pena de morte, homossexualidade, Deus, sindicatos, impostos) — um instrumento de message-testing inteiro, não publicado.
Achado nº 8 · a construção da narrativa

A fábrica de narrativa: como o número vira pauta

Uma pesquisa é um insumo. A notícia é um produto editorial construído por cima dele. E a Folha de S.Paulo não é só veículo: é a contratante do Datafolha. Ou seja, decide as perguntas que entram, decide o que publicar e decide o enquadramento da manchete. Comparamos como a imprensa cobriu este levantamento — e o padrão é nítido: o dado dizia “empate técnico”, a manchete dominante disse “Lula lidera”.

O duplo padrão do “empate técnico”

O mesmo veículo que chama a rejeição de Flávio (48) e Lula (46) de “empate técnico dentro da margem” se recusa a aplicar a mesma régua ao voto de 2º turno (47 × 43). Mas a diferença de 4 pontos tem margem de ~±4 a ±5 pp (seção “Empate técnico”) — é tão empate quanto a rejeição, ou mais. A escolha de chamar um de “empate” e o outro de “liderança” não é estatística. É editorial.

O mural de manchetes — o mesmo dado, frames diferentes

Manchetes reais publicadas entre 17 e 24/06/2026 sobre esta pesquisa. A cor indica o enquadramento. Repare como o frame “Lula lidera” e o frame “Flávio ferido pelo escândalo” dominam, enquanto o frame estatisticamente correto (“empate/estabilidade”) é minoria.

frame “Lula lidera / vantagem” frame “Flávio ferido / Dark Horse” frame “empate / estabilidade” (correto) neutro / recorte

Levantamento de manchetes públicas (links clicáveis). A Folha/UOL bloqueia indexação automática; o enquadramento da Folha está representado pelo Correio Braziliense e demais veículos que reproduziram a leitura da contratante. Houve, sim, cobertura neutra (Gazeta do Povo: “veja os números”) e honesta (InfoSAJ, BM&C) — mas foi minoria diante do frame “Lula lidera”.

Os prints — a evidência, não a paráfrase

Capturas reais das páginas, feitas em 24/06/2026. O mesmo levantamento Datafolha, enquadrado de quatro maneiras diferentes — e o frame estatisticamente correto (empate) aparecendo só num veículo pequeno do interior baiano.

Print CNN Brasil: Lula tem 47% contra 43% de Flávio
Lula lidera CNN Brasil. O card de vídeo transforma o número em manchete: “Datafolha: Lula tem 47% no 2º turno; Flávio, 43%”. Sem menção a empate técnico.
Print Correio Braziliense: Lula mantém liderança e Flávio estabiliza após Dark Horse
Flávio ferido Correio Braziliense. O escândalo entra no título: “estabiliza após ‘Dark Horse’”. A linha-fina já cita “financiamento de filme sobre Jair Bolsonaro”.
Print InfoMoney: Flávio estanca perdas e mantém 43% contra 47% de Lula
Flávio ferido InfoMoney. “Flávio estanca perdas” — e o próprio card de vídeo admite o que a manchete esconde: “Lula e Flávio mantêm estabilidade”.
Print InfoSAJ: Lula à frente, mas cenário indica empate técnico
Empate (correto) InfoSAJ. O único da amostra a colocar a verdade no título: “mas cenário indica empate técnico no limite da margem de erro”.
Print Brasil247: Nordeste, mulheres e estudantes sustentam vantagem de Lula
Recorte Brasil247. Destaca só os segmentos fortes de Lula (“61% no Nordeste”). A metade simétrica — homens, Sul, renda alta, evangélicos com Flávio — não vira manchete.
Mesma pesquisa.
Quatro narrativas.

Lula lidera · Flávio ferido · empate técnico · recorte pró-Lula. O dado é um só. A diferença está na redação — e em quem encomendou.

O contratante controla os dois lados

A Folha não “recebe” a pesquisa pronta. Ela encomenda. Isso significa poder sobre o instrumento e sobre a narrativa — um ciclo fechado:

1 · DEFINE as perguntasTrump, facções, influência de Flávio 2 · RECEBE os dadostopline + recortes 3 · ESCOLHE a manchetee o que NÃO publicar 4 · DEFINE a pautado dia seguinte

Encomendou a pergunta do efeito Trump e a da influência de Flávio nos EUA. Publicou o Trump (“não resolve os problemas dele”), reteve a de Flávio. Mesmo instituto, mesmo grupo, controle dos dois lados.

O pré-enquadramento “Dark Horse”

Desde maio, quase toda matéria reancora a pesquisa ao escândalo do filme “Dark Horse / Azarão”: Flávio teria negociado R$ 134 mi com Daniel Vorcaro (Banco Master) para financiar um filme sobre Jair (revelação do Intercept, áudio). O resultado: a pesquisa deixa de ser “foto do voto” e vira capítulo semanal do escândalo.

13/05 · Intercept divulga áudio Flávio–Vorcaro (R$ 134 mi)
22/05 · Datafolha de maio: “1º após o vazamento”, gap vai a 9 pts
17–18/06 · Campo de junho; números idênticos a maio
20/06 · Manchete: “Flávio estabiliza após Dark Horse” — escândalo no título

Enquadrar estabilidade como “estabiliza após o escândalo” mantém o eleitor com a moldura da crise mesmo quando o número não se move. É agenda-setting clássico: a imprensa não diz só o que pensar, diz sobre o que pensar.

Print Intercept Brasil: áudio de Flávio Bolsonaro negociando R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro
A origem do frame Intercept Brasil (13/05/2026). O áudio que abriu o caso “Dark Horse”: Flávio Bolsonaro negociando R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair (“estou e estarei contigo sempre”). É o gancho que a cobertura de pesquisa reutiliza toda semana — e que reconecta a história ao mesmo Master/Vorcaro dos dossiês anteriores.

Decodificador: como ler uma manchete de pesquisa

  • !“X lidera / mantém / amplia” com gap dentro de ~2× a margem → leia como empate técnico. Verbo de liderança não é dado, é escolha.
  • !Número escolhido. “10 pontos à frente” (1º turno) soa mais que “47×43” (2º). Pergunte qual cenário a manchete preferiu e por quê.
  • !Recorte seletivo. “Mulheres e Nordeste sustentam Lula” é verdade — e a metade que falta (“homens e Sul sustentam Flávio”) também.
  • ?Quem pagou? Contratante define perguntas e pauta. Pesquisa Datafolha é encomenda da Folha. Isso é legítimo — mas deve estar no holofote, não no rodapé.
  • ?O que não foi publicado? A pergunta retida costuma valer mais que a divulgada (aqui: a influência de Flávio nos EUA).
  • ?Margem da diferença, não da estimativa. ±2 vale para cada número; a distância entre dois candidatos tem ~±4. Quase nenhuma manchete diz isso.

O ponto, sem teoria da conspiração

Nada disso é fraude nem censura. É enquadramento — e enquadramento é poder. Uma empresa jornalística que encomenda a pesquisa, escolhe as perguntas, decide o que publicar e ainda redige a manchete tem quatro alavancas para moldar a percepção pública a partir do mesmo conjunto de números. A defesa do leitor é uma só: separar o dado (47×43, empate técnico, estável) da narrativa (“Lula lidera”, “Flávio ferido”) — e cobrar que as duas coisas venham marcadas como o que são.

Inteligência de campanha

O mapa de batalha de Flávio

O diagnóstico é cirúrgico. Flávio já consolida homens e renda acima de 2 SM. O buraco está em mulheres, baixa renda e baixa escolaridade — onde Lula abre 15 a 17 pontos. A boa notícia: o anti-Lula existe (rejeição de Lula em 46%), Flávio transfere votos 2:1 e a disputa cabe na margem. A campanha não precisa gritar mais para a base; precisa reduzir medo e custo reputacional em três células decisivas.

Onde a eleição se decide — recortes verificados do 2º turno

Lula lideraFlávio lideraborda = quem vence o segmento
Lula +15
Mulheres
52×37

O maior déficit nacional. Prioridade absoluta.

Lula +15
Até 2 SM
53×38

Base lulista sólida. Conter, não converter.

Lula +17
Fundamental
54×37

Escolaridade baixa = território de Lula.

Flávio +9
Homens
41×50

Fortaleza. Manter sem sangrar mulheres.

Flávio +8/+9
Renda 2–10 SM
41×49–51

Classe média com medo econômico. Expansível.

Empate
Superior · 16–24
46×45

Jovens e diploma: a real terra de ninguém.

Espelho da rejeição: o problema de cada um tem sexo

Os dois são muito rejeitados (Flávio 48, Lula 46). A diferença é onde: a rejeição de Flávio explode entre mulheres; a de Lula, entre homens. Isso desenha a tesoura da campanha.

% que “não votaria de jeito nenhum” Flávio · ♀ 53 Flávio · ♂ 43 Lula · ♂ 52 Lula · ♀ 40

Reduzir a rejeição de Flávio entre mulheres (53%) vale mais que qualquer ganho marginal na base. É o gargalo nº 1 da candidatura.

O playbook em 5 movimentos

  • 1Mulheres (−15). Segurança, saúde, custo da comida e da energia, escola e proteção social — sem pose agressiva. É a célula que decide o 2º turno.
  • 2Renda 2–10 SM (+8/+9, expansível). Virar fiador econômico: estabilidade, imposto menor, crédito para o pequeno negócio. Medo de retrocesso joga a favor.
  • 3Rejeição de Lula como permissão (46%). “Você não precisa amar Flávio para trocar o rumo econômico e de segurança.” Converter anti-Lula em voto útil.
  • 4Anticorpo reputacional pós-Master. A rejeição de 48% é tanto ética quanto ideológica. Sem blindagem de integridade, o moderado anula ou fica com Lula.
  • 5Trump, com cirurgia. Saldo nacional é só +2 líquido (17 a favor, 15 contra). Munição segmentada na base PL; no nacional, enquadrar soberania e segurança, não subordinação.

A síntese estratégica

A eleição não está perdida nem ganha — está na margem. Lula está travado em 47–48 contra qualquer adversário; o jogo é a oposição consolidar os 28 pontos disponíveis, e Flávio já é quem melhor faz isso. O caminho da vitória não passa por radicalizar a base, e sim por desarmar o medo entre mulheres e classe média e baixar o teto de rejeição. Cada ponto de rejeição derrubado vale mais que dez de marketing.

Rejeição por segmento, relatório Datafolha
Rejeição: Flávio 48 (53 entre mulheres), Lula 46 (52 entre homens). O teto de Flávio é o ativo mais decisivo a trabalhar.
Efeito Trump e arrependimento 2022
Trump: 17% mais propensos, 15% menos, 65% indiferentes (saldo +2). Arrependimento de 2022: 8%, mas sobre base de 1.546 e sem o voto lembrado.
A régua que falta

Como a pesquisa ficaria incontestável

O Datafolha tem marca, campo nacional e documentação acima da média do mercado. Justamente por isso precisa subir a régua: pesquisa eleitoral registrada é produto privado com efeito público. Nada aqui exige “provar inocência” — exige abrir o suficiente para que qualquer um refaça a conta.

Transparência mínima

  • Microdados anonimizados pós-divulgação.
  • Pesos finais por entrevistado (ou ao menos a distribuição).
  • Targets de ponderação, não referências genéricas.
  • Efeito de desenho (deff) e n efetivo.
  • Taxa de recusa, substituição e checagem por UF.

Bairros & pontos

  • Dizer se o ponto é sorteado, rotacionado ou painel.
  • Protocolo de horário, dias, fluxo e reposição.
  • Coordenadas aproximadas do setor/ponto.
  • Separar bairro, distrito, RA e setor sem PDF quebrado.
  • Entregar CSV oficial, não só PDF.

Questionário

  • Resultado de todas as perguntas registradas.
  • Distribuição do voto lembrado em 2022.
  • Marcar o que é eleitoral, conjuntural e experimental.
  • Informar split de cartões, rotação e randomização.

Amostragem

  • Abandonar a margem AAS como manchete única.
  • Erro por subgrupo com n efetivo (não n ponderado).
  • Perfil final × TSE (eleitorado) e × PNAD (renda/escolaridade).
  • Cotas de campo × pós-estratificação final.
Metodologia do relatório Datafolha junho
Metodologia publicada: boa para contexto, insuficiente para auditoria de desenho, pesos e pontos de fluxo. A checagem cobre “no mínimo 20%” do material — 80% das entrevistas ficam sem verificação declarada.
Trilha auditável

Fontes e reprodutibilidade

Relatório preparado com os PDFs oficiais movidos para o repositório, texto extraído via PDF.js, imagens renderizadas com Poppler e cruzamentos TSE/PNAD locais. Cada número desta página tem um arquivo de origem.

ArtefatoCaminhoUso
Relatório Datafolha jundata/originals/datafolha_062026/DataFolhaRelatorio062026.pdfToplines, perfil ponderado, cruzamentos.
Questionário jun.../QuestionarioDatafolha062026.pdfOrdem e perguntas não publicadas.
Bairros jun.../bairrosdatafolha062026.pdfSetores, pontos e perfil bruto.
Auditoria (resumo)data/outputs/datafolha_audit_summary.jsonRepetição de setores, SP × 2024.
Sensibilidade de rendadata/outputs/datafolha_reweight_sensitivity.jsonReponderação marginal 2º turno.
Comparação de bairrosdata/outputs/datafolha_bairros_compare.csv331 setores, 255 repetidos.
Match SP × 2024data/outputs/datafolha_sp_bairros_2024_match.csvProxy dos pontos contra prefeito 2024.
PNAD localdata/outputs/brasil.sqliteEscolaridade (2026T1) e renda (anual 2025 v1).
TSE eleitoradodata/outputs/tse_eleitorado_perfil.sqliteSexo, idade e região (sem exterior).

Imprensa analisada na seção “A narrativa”

Nota de método e isenção

Esta auditoria não acusa fraude. O efeito de desenho e a reponderação são simulações declaradas, baseadas nos números publicados pelo próprio Datafolha — não em microdados, que não foram disponibilizados. As conclusões são de incerteza estatística e de transparência, não de má-fé. Todos os insumos estão no repositório aberto para conferência, contestação ou refutação.