A pesquisa Datafolha de junho não mostra virada contra Flávio: o 2º turno repete maio. Mas a manchete “Lula na frente” não sobrevive à estatística. A diferença de 4 pontos é menor que a margem de erro da diferença (~±4 pp), e some por completo quando a renda da amostra é recalibrada à PNAD. Auditamos placar, desenho amostral, transferência de voto, reponderação e as perguntas que foram aplicadas e não publicadas — inclusive perguntas sobre o próprio Flávio.
Não há evidência de fraude nos documentos. Há evidência forte de duas coisas: excesso de certeza na manchete e insuficiência de transparência no método. A foto eleitoral é desfavorável a Flávio entre mulheres, baixa renda, Nordeste, católicos e pretos — mas o número que virou notícia, “Lula 47 x 43”, é estatisticamente indistinguível de um empate, e desaparece quando a renda da amostra é alinhada à população.
2º turno idêntico a maio. Mas a margem de erro da diferença entre dois candidatos é ~±4 pp — maior que os 4 pontos que separam os dois. Empate técnico.
Reponderando a renda à PNAD por pessoas 16+, Lula cai a 45,6 e Flávio sobe a 45,9. A vantagem nasce de uma amostra mais pobre que o país.
Na consolidação do 1º para o 2º turno, o voto de terceiros e indecisos vai para Flávio na proporção de ~2 para 1 sobre Lula. O anti-Lula é real.
Perguntou o voto antes dos módulos de Trump, facções, economia e ideologia, protegendo o top-line de priming. Acertou sexo, região e escolaridade contra TSE/PNAD. Publicou anexo de bairros — algo que a maioria dos institutos não faz.
Microdados, pesos finais por entrevistado, efeito de desenho real (não AAS), protocolo de ponto/horário/recusa, distribuição do voto lembrado de 2022 e o resultado de todas as perguntas registradas — inclusive as que avaliam o próprio Flávio.
A margem de erro de ±2 pp que o Datafolha divulga vale para cada estimativa isolada (o 47 de Lula, o 43 de Flávio). Ela não é a margem sobre a distância entre os dois. Quando se quer saber se um candidato está realmente à frente do outro, a conta certa é o erro da diferença — e ele é quase o dobro.
Para dois candidatos da mesma amostra, o erro da diferença é EP(L−F) = √[(pL+pF−(pL−pF)²)/n]. Com pL=0,47, pF=0,43 e n=2.004:
E isso é antes do efeito de desenho. Com o deff real (próxima seção), a margem da diferença sobe para ~±5 pp, e o empate fica ainda mais nítido.
Os intervalos de 95% de Lula e Flávio se cruzam (faixa dourada). Quando isso acontece, a liderança não é estatisticamente significativa.
“Lula 47 x 43” deveria ser noticiado como “Lula e Flávio empatados tecnicamente, com leve vantagem nominal de Lula”. A diferença de 4 pontos é exatamente o tipo de gap que vira manchete de “liderança” quando, em rigor, é indistinguível de zero. Não é erro de cálculo do Datafolha — é leitura excessiva do número pela cobertura.
A própria declaração de responsabilidade técnica diz, com todas as letras: “O Datafolha não usa abordagem domiciliar e, sim, abordagem em pontos de fluxo populacional.” Isso tem duas consequências que a margem de ±2 pp esconde: (1) ponto de fluxo é seleção por interceptação, não probabilística — a rigor, não existe margem clássica; (2) há conglomeração: ~6 entrevistas por setor censitário, em 331 setores. Conglomeração + ponderação inflam a variância pelo efeito de desenho (deff).
deff de conglomeração ≈ 1 + (b̄−1)·ρ, com b̄≈6 entrevistas/setor e ρ = correlação intraclasse do voto no setor. A ponderação adiciona 1 + CV²(pesos). O n efetivo é n / deff. A margem real cresce com a raiz do deff.
| Cenário | deff | n efetivo | ±/estim. | ±/dif. |
|---|---|---|---|---|
| AAS declarado (ρ=0) | 1,00 | 2.004 | 2,2 | 4,1 |
| Otimista (ρ=0,02) | 1,17 | 1.714 | 2,4 | 4,5 |
| Realista (ρ=0,06) | 1,46 | 1.376 | 2,6 | 5,0 |
| Conservador (ρ=0,10) | 1,80 | 1.113 | 2,9 | 5,6 |
b̄ = 2.004/331 ≈ 6,05. CV(pesos) suposto 0,25–0,45 (compatível com o ajuste de escolaridade ×1,23 / ×0,86). Sem os microdados, é simulação — mas é a faixa plausível, e toda ela amplia a margem divulgada.
A margem de ±2 pp é a margem de uma amostra aleatória simples — que não é o desenho do Datafolha. Em amostra por pontos de fluxo, conglomerada e ponderada, a margem realista por estimativa fica em torno de ±2,6 pp e a margem sobre a diferença em ~±5 pp. O “Lula à frente” não passa em nenhum dos cenários. Para superar a ambiguidade, o Datafolha precisaria publicar o deff e o n efetivo — coisa que não faz.
No 1º turno, Lula tem 41 e Flávio 31. Sobram 28 pontos que não são de nenhum dos dois: 17 de candidatos do “terceiro caminho”, 7 de branco/nulo e 4 de indecisos. No 2º turno, Lula sobe a 47 (+6) e Flávio a 43 (+12). Ou seja: na consolidação, o voto disponível corre para Flávio na proporção de ~2 para 1 sobre Lula. É a melhor notícia do levantamento para a direita — e mostra que o anti-Lula existe e tem para onde ir.
Leitura de fluxo agregado (corte transversal), não painel individual: mostra o saldo líquido de cada bloco entre o 1º e o 2º turno, não o trajeto de cada eleitor. Soma do 2º turno = 99 por arredondamento. Fonte: relatório Datafolha jun/2026, pp. 23 e 25.
O Datafolha testou Lula contra três nomes da direita. Em todos, Lula fica entre 47 e 48 — seu teto não se move. Quem muda é o adversário. E o adversário mais competitivo é justamente Flávio (43), à frente de Caiado (41) e Zema (39).
Flávio é o adversário que mais aproveita o anti-Lula. O paradoxo da campanha: ele tem a maior rejeição e, ao mesmo tempo, a melhor transferência. Fonte: relatório jun/2026, p. 25, Situações A/B/C.
O movimento nacional é mínimo. Maio foi a pesquisa do bloco “Banco Master”. Junho troca a narrativa para Trump, facções, economia, ideologia e IA — mas o voto principal é perguntado antes desses módulos. No 2º turno, o placar é idêntico. Quem afirmou que Flávio “desabou” não está lendo o próprio Datafolha.
| Indicador | Maio | Junho | Δ | Leitura |
|---|---|---|---|---|
| 1º turno Lula | 40 | 41 | +1 | Oscilação normal, dentro da margem. |
| 1º turno Flávio | 31 | 31 | 0 | Não recupera o tombo pós-Master, mas também não cai. |
| 2º turno Lula × Flávio | 47×43 | 47×43 | 0 | Centro da história: estabilidade — e empate técnico. |
| Rejeição Flávio | 46 | 48 | +2 | Continua o teto estratégico do candidato. |
| Rejeição Lula | 45 | 46 | +1 | Lula também é muito rejeitado: o anti-Lula é real. |
| Campo declarado | relatório: 20–21/05 | relatório: 17–18/06 | ±1d | O registro PesqEle marca término em 22/05 e 19/06. Inconsistência documental, não substantiva. |
O anexo de bairros é a novidade útil — mostra onde as entrevistas ocorreram. Mas não revela horário, fluxo, reposição de ponto, taxa de recusa nem probabilidade de seleção. E expõe uma tensão: se o desenho “sorteia” pontos de fluxo, por que 255 dos 331 setores (77%) repetem de maio para junho, e 20 de 22 em São Paulo? Isso é mais painel de locais do que sorteio novo — e reforça a necessidade de calcular o deff sobre desenho conglomerado.
2.004 entrevistas, ~6 por setor.
255 dos 331 já estavam em maio; 76 entraram, 76 saíram.
A rotação real em SP entre maio e junho é mínima.
Cruzando os 22 pontos paulistanos com o 2º turno de prefeito de 2024 por bairro eleitoral, 18 caem em áreas onde Ricardo Nunes venceu Boulos e 4 onde Boulos venceu. Média simples dos pontos: Nunes 58,35%, colada no resultado oficial da cidade (Nunes 59,34%). Ou seja: em SP capital a crítica honesta não é “escolheram bairro de esquerda”. É “por que quase tudo se repetiu, e qual é o protocolo de sorteio/rotação?”.
| Ponto Datafolha jun | Proxy eleitoral 2024 | Nunes | Boulos | Leitura |
|---|---|---|---|---|
| Americanópolis / Cid. Ademar | Americanópolis | 58,3 | 41,7 | Nunes, periferia sul competitiva. |
| Belém | Belenzinho | 62,4 | 37,6 | Proxy mais robusto que o bairro “Belém” (n irrelevante). |
| Brás / Bela Vista | Bela Vista | 45,1 | 54,9 | Boulos, centro expandido. |
| Grajaú | Grajaú | 51,8 | 48,2 | Nunes por margem pequena. |
| Santa Cecília | Santa Cecília | 44,1 | 55,9 | Boulos, centro-esquerda clássico. |
| Vila Pompeia / Perdizes | Vila Pompeia | 55,0 | 45,0 | Nunes, zona oeste média-alta. |
| Demais 16 pontos | Limão, Penha, Santana, Socorro, Ipiranga, Jabaquara, Brasilândia etc. | maioria Nunes | — | Sem sinal de desenho pró-Boulos. |
Arquivos: datafolha_bairros_compare.csv (331 setores, 255 repetidos), datafolha_sp_bairros_2024_match.csv e sp_2024_prefeito_2t_bairros.csv (5,7 mi de votos válidos processados).
Sexo, idade, região e escolaridade estão bem calibrados. A renda, não. A amostra do Datafolha é mais pobre que o país: 50,4% declaram renda familiar de até 2 salários mínimos, contra 42,9% na PNAD por domicílios e 35,4% na PNAD por pessoas 16+. Como a baixa renda dá Lula 53 × 38 e a renda acima de 2 SM dá Flávio, esse excesso de pobres tem direção conhecida: infla Lula. Recalibrando só esse marginal, a vantagem some.
Mantemos o voto publicado dentro de cada faixa de renda e trocamos apenas o peso de cada faixa pelo benchmark PNAD. É uma sensibilidade auditável (ignora correlações, não usa microdado), mas mostra para onde o resultado escorrega.
Lula cai de 47,4 para 45,6; Flávio sobe de 43,6 para 45,9. As linhas se cruzam: na PNAD por pessoas, é empate com leve vantagem de Flávio. Fonte: datafolha_reweight_sensitivity.json.
Compare a fatia de renda familiar até 2 SM:
% na faixa até 2 salários mínimos. Quanto mais pobre a amostra, maior a vantagem de Lula.
A virada de chave acontece exatamente em 2 SM: abaixo, Lula domina; acima, Flávio domina.
| Cenário de reponderação (2º turno) | Lula | Flávio | Diferença | Leitura |
|---|---|---|---|---|
| Datafolha ponderado (renda publicada) | 47,4 | 43,6 | Lula +3,8 | Reproduz o 47×43 oficial. |
| Troca região → TSE 05/2026 | 47,1 | 43,4 | Lula +3,7 | Região não explica nada relevante. |
| Troca renda → PNAD domicílios 2025 v1 | 46,4 | 44,9 | Lula +1,5 | A defesa mais justa do Datafolha já estreita muito. |
| Troca renda → PNAD pessoas 16+ 2025 v1 | 45,6 | 45,9 | Flávio +0,3 | Se a unidade correta for o respondente, a vantagem some. |
A reponderação não prova que Flávio está à frente. Prova que o “Lula +4” depende de uma amostra economicamente mais pobre que a PNAD — por domicílios e, ainda mais, por pessoas. Some isso ao empate técnico da seção 1, e a leitura honesta do 2º turno é: disputa aberta, dentro da margem, não liderança consolidada de Lula.
O anexo de bairros publica a contagem bruta da amostra; o relatório publica o perfil ponderado. Cruzar os dois é raro e revelador — mostra exatamente onde a ponderação mexeu. A resposta tranquiliza em renda e região, mas acende um alerta em escolaridade: havia superior demais na coleta de rua, corrigido para baixo, e fundamental de menos, puxado para cima com fator 1,23.
Fundamental sobe 6,1 pontos no peso; superior cai 4. É um ajuste grande para um marginal que se correlaciona com voto. O Datafolha deveria publicar a distribuição dos pesos finais.
| Corte | Bruto | Pond. | Fator |
|---|---|---|---|
| Sexo masculino | 47,3 | 48,0 | 1,01× |
| 60 anos ou + | 22,9 | 24,3 | 1,06× |
| Renda até 2 SM | 49,3 | 50,4 | 1,02× |
| Renda +5 SM | 12,9 | 11,4 | 0,89× |
| Nordeste | 27,5 | 28,0 | 1,02× |
| Fundamental | 25,9 | 32,0 | 1,23× |
| Superior | 28,4 | 24,4 | 0,86× |
Detalhe contraintuitivo: a ponderação deixou a amostra ainda mais pobre (até 2 SM subiu de 49,3 para 50,4%). O viés de renda não é “corrigido” pelo peso — é levemente reforçado.
O lado bom: o voto presidencial vem antes dos módulos de Trump, facções, economia e ideologia, blindando o top-line de priming direto. O lado ruim: o relatório publica uma fração mínima do que foi perguntado. E entre o que ficou de fora há perguntas que avaliam diretamente Flávio Bolsonaro — aplicadas a todos os entrevistados e nunca divulgadas.
O questionário pergunta em quem o eleitor votou no 2º turno de 2022. A lembrança ponderada deveria orbitar Lula 50,9 × Bolsonaro 49,1 (votos válidos), com desconto por memória e desejabilidade. Sem essa tabela, não há como testar se a amostra está politicamente enviesada. Publicar arrependimento (8%) sem publicar a base lembrada é divulgar o efeito escondendo a causa.
Reter perguntas sobre economia e ideologia é discutível; reter uma pergunta que avalia se a ação de Flávio nos EUA foi positiva ou negativa é editorialmente sensível. O instituto coletou um dado de altíssimo valor reputacional sobre um dos dois finalistas — e não o mostrou. Transparência exige publicar o resultado de todas as perguntas registradas, ou justificar cada omissão.
Uma pesquisa é um insumo. A notícia é um produto editorial construído por cima dele. E a Folha de S.Paulo não é só veículo: é a contratante do Datafolha. Ou seja, decide as perguntas que entram, decide o que publicar e decide o enquadramento da manchete. Comparamos como a imprensa cobriu este levantamento — e o padrão é nítido: o dado dizia “empate técnico”, a manchete dominante disse “Lula lidera”.
O mesmo veículo que chama a rejeição de Flávio (48) e Lula (46) de “empate técnico dentro da margem” se recusa a aplicar a mesma régua ao voto de 2º turno (47 × 43). Mas a diferença de 4 pontos tem margem de ~±4 a ±5 pp (seção “Empate técnico”) — é tão empate quanto a rejeição, ou mais. A escolha de chamar um de “empate” e o outro de “liderança” não é estatística. É editorial.
Manchetes reais publicadas entre 17 e 24/06/2026 sobre esta pesquisa. A cor indica o enquadramento. Repare como o frame “Lula lidera” e o frame “Flávio ferido pelo escândalo” dominam, enquanto o frame estatisticamente correto (“empate/estabilidade”) é minoria.
“No 2º turno, Lula tem 47% contra 43% de Flávio Bolsonaro”
CNN Brasil · Lula citado primeiro, ‘contra’ adversariza Lula lidera“Datafolha: Lula mantém 47% e Flávio Bolsonaro tem 43%”
Exame · ‘mantém’ projeta liderança durável Lula lidera“Lula tem 10 pontos na frente do 2º colocado no 1º turno”
SRZD · usa o gap maior (1º turno) em vez do 2º Flávio ferido“Lula mantém liderança e Flávio estabiliza após ‘Dark Horse’”
Correio Braziliense · reancora ao escândalo Flávio ferido“Flávio estanca perdas e mantém 43% contra 47% de Lula”
InfoMoney · ‘estanca perdas’ = candidato em queda Flávio ferido“Caso Dark Horse trava Flávio e impede reação contra Lula”
Brasil247 · pesquisa como prova do escândalo Empate (correto)“Lula à frente, mas cenário indica empate técnico no limite da margem”
InfoSAJ · o frame que casa com a estatística — minoria Estabilidade“Datafolha mostra estabilidade no 2º turno entre Lula e Flávio”
BM&C News · descreve, não projeta vencedor Recorte pró-Lula“Nordeste, mulheres e estudantes sustentam vantagem de Lula”
Brasil247 · destaca só os segmentos fortes de LulaLevantamento de manchetes públicas (links clicáveis). A Folha/UOL bloqueia indexação automática; o enquadramento da Folha está representado pelo Correio Braziliense e demais veículos que reproduziram a leitura da contratante. Houve, sim, cobertura neutra (Gazeta do Povo: “veja os números”) e honesta (InfoSAJ, BM&C) — mas foi minoria diante do frame “Lula lidera”.
Capturas reais das páginas, feitas em 24/06/2026. O mesmo levantamento Datafolha, enquadrado de quatro maneiras diferentes — e o frame estatisticamente correto (empate) aparecendo só num veículo pequeno do interior baiano.
Lula lidera · Flávio ferido · empate técnico · recorte pró-Lula. O dado é um só. A diferença está na redação — e em quem encomendou.
A Folha não “recebe” a pesquisa pronta. Ela encomenda. Isso significa poder sobre o instrumento e sobre a narrativa — um ciclo fechado:
Encomendou a pergunta do efeito Trump e a da influência de Flávio nos EUA. Publicou o Trump (“não resolve os problemas dele”), reteve a de Flávio. Mesmo instituto, mesmo grupo, controle dos dois lados.
Desde maio, quase toda matéria reancora a pesquisa ao escândalo do filme “Dark Horse / Azarão”: Flávio teria negociado R$ 134 mi com Daniel Vorcaro (Banco Master) para financiar um filme sobre Jair (revelação do Intercept, áudio). O resultado: a pesquisa deixa de ser “foto do voto” e vira capítulo semanal do escândalo.
Enquadrar estabilidade como “estabiliza após o escândalo” mantém o eleitor com a moldura da crise mesmo quando o número não se move. É agenda-setting clássico: a imprensa não diz só o que pensar, diz sobre o que pensar.
Nada disso é fraude nem censura. É enquadramento — e enquadramento é poder. Uma empresa jornalística que encomenda a pesquisa, escolhe as perguntas, decide o que publicar e ainda redige a manchete tem quatro alavancas para moldar a percepção pública a partir do mesmo conjunto de números. A defesa do leitor é uma só: separar o dado (47×43, empate técnico, estável) da narrativa (“Lula lidera”, “Flávio ferido”) — e cobrar que as duas coisas venham marcadas como o que são.
O diagnóstico é cirúrgico. Flávio já consolida homens e renda acima de 2 SM. O buraco está em mulheres, baixa renda e baixa escolaridade — onde Lula abre 15 a 17 pontos. A boa notícia: o anti-Lula existe (rejeição de Lula em 46%), Flávio transfere votos 2:1 e a disputa cabe na margem. A campanha não precisa gritar mais para a base; precisa reduzir medo e custo reputacional em três células decisivas.
O maior déficit nacional. Prioridade absoluta.
Base lulista sólida. Conter, não converter.
Escolaridade baixa = território de Lula.
Fortaleza. Manter sem sangrar mulheres.
Classe média com medo econômico. Expansível.
Jovens e diploma: a real terra de ninguém.
Os dois são muito rejeitados (Flávio 48, Lula 46). A diferença é onde: a rejeição de Flávio explode entre mulheres; a de Lula, entre homens. Isso desenha a tesoura da campanha.
Reduzir a rejeição de Flávio entre mulheres (53%) vale mais que qualquer ganho marginal na base. É o gargalo nº 1 da candidatura.
A eleição não está perdida nem ganha — está na margem. Lula está travado em 47–48 contra qualquer adversário; o jogo é a oposição consolidar os 28 pontos disponíveis, e Flávio já é quem melhor faz isso. O caminho da vitória não passa por radicalizar a base, e sim por desarmar o medo entre mulheres e classe média e baixar o teto de rejeição. Cada ponto de rejeição derrubado vale mais que dez de marketing.
O Datafolha tem marca, campo nacional e documentação acima da média do mercado. Justamente por isso precisa subir a régua: pesquisa eleitoral registrada é produto privado com efeito público. Nada aqui exige “provar inocência” — exige abrir o suficiente para que qualquer um refaça a conta.
Relatório preparado com os PDFs oficiais movidos para o repositório, texto extraído via PDF.js, imagens renderizadas com Poppler e cruzamentos TSE/PNAD locais. Cada número desta página tem um arquivo de origem.
| Artefato | Caminho | Uso |
|---|---|---|
| Relatório Datafolha jun | data/originals/datafolha_062026/DataFolhaRelatorio062026.pdf | Toplines, perfil ponderado, cruzamentos. |
| Questionário jun | .../QuestionarioDatafolha062026.pdf | Ordem e perguntas não publicadas. |
| Bairros jun | .../bairrosdatafolha062026.pdf | Setores, pontos e perfil bruto. |
| Auditoria (resumo) | data/outputs/datafolha_audit_summary.json | Repetição de setores, SP × 2024. |
| Sensibilidade de renda | data/outputs/datafolha_reweight_sensitivity.json | Reponderação marginal 2º turno. |
| Comparação de bairros | data/outputs/datafolha_bairros_compare.csv | 331 setores, 255 repetidos. |
| Match SP × 2024 | data/outputs/datafolha_sp_bairros_2024_match.csv | Proxy dos pontos contra prefeito 2024. |
| PNAD local | data/outputs/brasil.sqlite | Escolaridade (2026T1) e renda (anual 2025 v1). |
| TSE eleitorado | data/outputs/tse_eleitorado_perfil.sqlite | Sexo, idade e região (sem exterior). |
Esta auditoria não acusa fraude. O efeito de desenho e a reponderação são simulações declaradas, baseadas nos números publicados pelo próprio Datafolha — não em microdados, que não foram disponibilizados. As conclusões são de incerteza estatística e de transparência, não de má-fé. Todos os insumos estão no repositório aberto para conferência, contestação ou refutação.