28 posts, cada um com card 16:9 pronto para screenshot e texto longo (formato X) pronto para colar. Arco: o achado da margem (1–3) → o desenho e a renda (4–8) → transferência e cenários (9–10) → bairros e pesos (11–13) → as perguntas escondidas, inclusive sobre o próprio Flávio (14–17) → estratégia de campanha (18–22) → como a imprensa construiu a narrativa em cima do número (23–26) → cobrança e veredito (27–28). Sem hashtags: o X premia conteúdo, não tag.
Como publicar: dê screenshot em cada card (proporção exata 16:9), clique em “Copiar texto” para o corpo do post e publique na ordem. Dossiê-mãe: brasil.arvor.co/datafolha_062026.html · Registro TSE BR-09956/2026.
~980 charsToda semana, uma pesquisa na mesa de operação. Hoje, o Datafolha de junho.
A manchete que circulou foi “Lula 47 x 43 sobre Flávio no 2º turno”. Lido como liderança. Mas tem um problema técnico que muda tudo: a margem de erro de ±2 que o Datafolha divulga vale para CADA número isolado — não para a distância entre os dois.
A conta certa, o erro da DIFERENÇA entre dois candidatos, é quase o dobro: ±4,1 pontos. O gap observado é 4. Ou seja: ao nível de 95%, não dá para afirmar que Lula está na frente. É empate técnico.
E isso é só o começo. Quando a renda da amostra é recalibrada à PNAD, a vantagem de Lula some por completo.
Auditei o relatório, o questionário e o anexo de bairros. Refiz a margem com o efeito de desenho real, reconstruí a transferência de votos e achei perguntas aplicadas que nunca foram publicadas — inclusive sobre o próprio Flávio.
Thread. 🧵
O Datafolha fez o que muito instituto não faz: perguntou o voto no começo, antes do roteiro pesado de Trump, facções e ideologia. E publicou o anexo de bairros.
~900 charsAuditoria séria começa pelo que está certo. E o Datafolha acertou coisas importantes.
Primeiro: a ordem do questionário. O voto presidencial (espontâneo, estimulado, rejeição e 2º turno) é perguntado LOGO NO INÍCIO, antes da bateria sobre Trump, facções, economia e ideologia. Isso protege o top-line de voto do priming direto desses temas. A Quaest, por exemplo, não fez isso tão bem.
Segundo: a calibragem demográfica. Sexo, região e escolaridade da amostra batem com o TSE (eleitorado) e a PNAD (IBGE). Não é amostra torta de qualquer jeito.
Terceiro: o anexo de bairros. O Datafolha publicou onde as entrevistas aconteceram, setor a setor. A maioria dos institutos não abre isso.
Então não é o caso de gritar “fraude”. O problema é outro: excesso de certeza na manchete e falta de transparência no método. Vamos ao bisturi.
margem sobre a diferença Lula−Flávio > 4,0 do gap → empate técnico
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026cálculo: erro da diferença de proporções, n=2.004
~1010 charsAqui está o erro de leitura que vira manchete enganosa.
A margem de erro de ±2 pontos que o Datafolha divulga vale para cada estimativa SOZINHA: o 47 de Lula, o 43 de Flávio. Ela NÃO mede a distância entre os dois.
Quando você quer saber se um candidato está REALMENTE à frente do outro, a conta certa é o erro da diferença. E para dois candidatos da mesma amostra ele é quase o dobro:
EP(L−F) = raiz de [(0,47+0,43−(0,04)²)/2004] ≈ 2,12 pontos.
Margem de 95% sobre a diferença ≈ ±4,15 pontos.
O gap observado é 4,0. Menor que a margem da diferença. Ou seja: o intervalo de confiança de Lula e o de Flávio se SOBREPÕEM. Estatisticamente, não dá para afirmar que um está na frente do outro.
“Lula 47 x 43” deveria ser noticiado como “Lula e Flávio empatados tecnicamente, com leve vantagem nominal de Lula”. E isso é antes de corrigir o desenho da amostra — o que só piora para o lado da incerteza. Próximo post.
±2 é a margem de uma amostra que o Datafolha não usa
±2 é a conta de amostra aleatória simples. O desenho real é por pontos de fluxo, conglomerado (~6 por setor) e ponderado. Com o efeito de desenho, a margem da diferença vai a ~±5.
margem da diferençalinha = gap 4,0
AAS (±2)
4,1
otimista
4,5
realista
5,0
conservador
5,6
o gap (4,0) é menor que a margem em TODOS os cenários
~1040 charsA própria declaração técnica do Datafolha diz, com todas as letras: “não usa abordagem domiciliar e, sim, abordagem em pontos de fluxo populacional”.
Isso tem duas consequências que o ±2 esconde:
1) Ponto de fluxo é seleção por interceptação, não probabilística. A rigor, margem clássica nem se aplica.
2) Há conglomeração: ~6 entrevistas por setor censitário, em 331 setores. Isso infla a variância pelo efeito de desenho (deff).
Simulei o deff = 1 + (b̄−1)·ρ, com b̄≈6 e ρ (correlação do voto dentro do setor) variando. Some a isso a ponderação. O resultado:
• Cenário realista: deff ≈ 1,46 → n efetivo cai de 2.004 para ~1.376 → margem por estimativa ~±2,6 (não ±2) e margem da diferença ~±5,0.
Conclusão: em NENHUM cenário plausível o gap de 4 pontos supera a margem. O “Lula à frente” não passa no teste. Para acabar com a dúvida, bastava o Datafolha publicar o deff e o n efetivo. Não publica.
“O Datafolha não usa abordagem domiciliar e, sim, abordagem em pontos de fluxo populacional.”
Declaração de responsabilidade profissional de estatística, anexo de bairros, 19/06/2026. É exatamente por isso que a margem de amostra aleatória simples não descreve esta pesquisa.
interceptação, não domicíliochecagem cobre “no mínimo 20%”CNEFE/IBGE para bairros
~940 charsEstá escrito no próprio documento, na declaração de responsabilidade profissional da estatística que assina a pesquisa:
“O Datafolha não usa, em sua metodologia, abordagem domiciliar e, sim, abordagem em pontos de fluxo populacional.”
Ponto de fluxo é abordar quem passa: rua, comércio, terminal. É legítimo e barato, mas tem duas implicações que a manchete ignora:
→ Não é amostra probabilística. Quem passa num ponto às 14h de uma terça não é um sorteio da população. Por isso, a “margem de erro” clássica é uma aproximação ilustrativa, não uma garantia.
→ As entrevistas se concentram em poucos setores (~6 cada), o que infla a incerteza real.
E tem mais: a própria metodologia diz que a checagem cobriu “no mínimo 20% do material”. Ou seja, 80% das entrevistas não têm verificação declarada.
Nada disso é fraude. É o tamanho real da incerteza — que a manchete de “liderança” apaga.
Metade da amostra (50,4%) declara renda familiar de até 2 salários. Na PNAD do IBGE, isso é 42,9% (domicílios) ou 35,4% (pessoas). E baixa renda dá Lula 53 x 38.
% na faixa até 2 salários mínimos
Datafolha jun
50,4
PNAD domicílios
42,9
PNAD pessoas
35,4
quanto mais pobre a amostra, maior a vantagem de Lula
~990 charsAqui está a engrenagem que produz a vantagem de Lula.
No perfil ponderado do Datafolha, 50,4% dos entrevistados declaram renda familiar de até 2 salários mínimos. Metade da amostra.
Quanto diz a PNAD Contínua do IBGE? Depende da unidade:
• Por domicílios: 42,9% na faixa até 2 SM.
• Por pessoas de 16+ anos: 35,4%.
Nos dois casos, a amostra do Datafolha é MAIS POBRE que a população. E isso não é detalhe, porque a renda é o corte que mais separa os candidatos no 2º turno:
• Até 2 SM: Lula 53 x Flávio 38.
• Acima de 2 SM: Flávio vence em todas as faixas (49, 51, 54).
Ou seja: a chave vira exatamente em 2 salários. Uma amostra com pobres demais empurra o resultado para Lula por construção. Não é manipulação — pode ser só viés natural de abordagem de rua. Mas tem direção conhecida. E dá para medir o efeito. É o próximo post.
Mantendo o voto dentro de cada faixa e trocando só o peso da renda pela PNAD, Lula cai e Flávio sobe. As linhas se cruzam.
Lula 47,4→45,6 · Flávio 43,6→45,9 · empate
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026reponderação marginal declarada (sem microdado)
~1020 charsSem microdados, não dá para fazer a reponderação oficial. Mas dá para fazer uma sensibilidade auditável: manter o voto publicado DENTRO de cada faixa de renda e trocar só o PESO de cada faixa pelo benchmark da PNAD.
É conservador (ignora correlações), mas mostra para onde o resultado escorrega. Resultado no 2º turno Lula x Flávio:
• Datafolha como está: Lula 47,4 x 43,6 → Lula +3,8 (reproduz o oficial).
• Reponderando renda pela PNAD por domicílios: 46,4 x 44,9 → Lula +1,5.
• Reponderando pela PNAD por pessoas 16+: 45,6 x 45,9 → Flávio +0,3.
As duas linhas se cruzam. Na unidade “por pessoa”, que é a mais defensável quando o respondente é o eleitor, a vantagem de Lula não só some — inverte de leve.
Isso NÃO prova que Flávio está na frente. Prova que o “Lula +4” depende de uma amostra mais pobre que o país. Junte com o empate técnico do post 3 e a leitura honesta do 2º turno é uma só: disputa aberta, dentro da margem. Não liderança consolidada.
~880 charsPara entender por que a renda da amostra decide o resultado, olhe o gradiente do 2º turno:
• Até 2 SM: Lula 53 x Flávio 38 (Lula +15)
• 2 a 5 SM: Lula 41 x Flávio 49 (Flávio +8)
• 5 a 10 SM: Lula 42 x Flávio 51 (Flávio +9)
• Mais de 10 SM: Lula 43 x Flávio 54 (Flávio +11)
A virada de chave é cirúrgica: acontece exatamente na fronteira de 2 salários mínimos. Abaixo, território de Lula. Acima, território de Flávio, em TODAS as faixas.
Agora junte com o post anterior: a amostra do Datafolha tem 50,4% na faixa até 2 SM, contra 35–43% na PNAD. Ela carrega justamente o lado do gradiente onde Lula é forte.
Não é preciso supor má-fé. Basta a física da amostragem de rua, que costuma capturar mais gente de baixa renda circulando. Mas o efeito no placar é real e mensurável — e empurra para Lula.
~950 charsTem uma boa notícia para a direita escondida nesta pesquisa. E é grande.
No 1º turno: Lula 41, Flávio 31. Sobram 28 pontos que não são de nenhum dos dois — 17 de candidatos do “terceiro caminho” (Caiado, Renan, Zema e cia.), 7 de branco/nulo e 4 de indecisos.
No 2º turno, esse bloco se redistribui. E o saldo é claro:
• Lula sobe de 41 para 47 → ganha +6.
• Flávio sobe de 31 para 43 → ganha +12.
Ou seja: na hora de consolidar, o voto disponível corre para Flávio na proporção de DOIS PARA UM sobre Lula. O eleitor anti-Lula existe, é numeroso e migra para o adversário.
Isso é leitura de fluxo agregado (não painel individual), mas o sinal é inequívoco: Flávio é mais eficiente na transferência do que o número do 1º turno sugere. O gargalo dele não é atrair indeciso — é o teto de rejeição. Guardem isso para os posts de estratégia.
~930 charsUm detalhe que quase ninguém comentou: o Datafolha testou Lula em TRÊS cenários de 2º turno.
• Lula 47 x Flávio 43
• Lula 47 x Caiado 41
• Lula 48 x Zema 39
Repare no número de Lula: 47, 47, 48. Não se move. O teto dele está travado, independentemente do adversário. Isso sugere que Lula está perto do seu máximo — a eleição não é sobre ele crescer.
E o adversário mais competitivo? Flávio (43), à frente de Caiado (41) e Zema (39). O paradoxo da candidatura Bolsonaro: ele tem a MAIOR rejeição e, ao mesmo tempo, a MELHOR transferência de voto. Polariza melhor.
Tradução estratégica: trocar Flávio por um nome “mais palatável” da direita não melhora o 2º turno — piora. O ativo competitivo aqui é a polarização, não a moderação do nome. O jogo real é a oposição consolidar os 28 pontos disponíveis e baixar o teto de rejeição. Voltaremos a isso.
Se o desenho “sorteia” pontos de fluxo, por que 255 dos 331 setores são os mesmos de maio? E 20 de 22 em São Paulo?
77%
255 de 331 setores repetidos · SP: 20 de 22 mais painel de locais do que sorteio novo
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026fonte: anexo de bairros mai × jun (compare.csv)
~900 charsO anexo de bairros é a parte mais útil da pesquisa — e a que levanta a pergunta mais incômoda.
Cruzei os setores censitários de maio com os de junho. Resultado: 255 dos 331 setores de junho (77%) JÁ estavam em maio. Em São Paulo capital, 20 dos 22 pontos são exatamente os mesmos.
Aqui está a tensão: a metodologia fala em abordagem por pontos de fluxo, o que sugere seleção a cada onda. Mas, na prática, os locais se repetem de um mês para o outro. Isso é mais um PAINEL de locais do que um sorteio novo.
Por que isso importa? Porque painel de locais com ~6 entrevistas cada é, tecnicamente, amostragem conglomerada — exatamente o que infla o efeito de desenho e a margem real (post 4).
Não é fraude. Mas é uma escolha que precisa estar explicada: os pontos são sorteados de novo, rotacionados ou mantidos? Qual o protocolo? O Datafolha não diz.
Cruzei os 22 pontos de SP com o 2º turno de 2024. A média deles dá Nunes 58,35% — colada no resultado oficial da cidade (59,34%). Não é desenho “de esquerda”.
pontos Datafolha
58,4
SP oficial 2024
59,3
% Nunes (2º turno prefeito) · 18 de 22 pontos em área Nunes 5,7 milhões de votos válidos processados
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026TSE votação por seção SP 2024 · proxy por bairro
~960 charsSempre que aparece anexo de bairros, vem a acusação fácil: “escolheram bairro de esquerda para favorecer o Lula”. Fui testar isso em São Paulo, com dado oficial.
Cruzei os 22 pontos paulistanos do Datafolha com o resultado do 2º turno de prefeito de 2024, bairro a bairro (Nunes x Boulos), processando 5,7 milhões de votos válidos.
Resultado:
• 18 dos 22 pontos caem em áreas onde NUNES (direita) venceu.
• A média simples dos pontos dá Nunes 58,35%.
• O resultado oficial da cidade foi Nunes 59,34%.
Praticamente idêntico. Em SP, a distribuição geográfica dos pontos NÃO é enviesada para a esquerda — se algo, está colada no eleitorado real da capital.
Então, sendo honesto: em São Paulo a crítica não é “escolheram bairro de esquerda”. A crítica é a do post anterior — por que quase tudo se repetiu de maio, e qual é o protocolo de sorteio? Auditoria séria credita o que está certo e cobra o que falta.
~940 charsFiz um cruzamento raro: a contagem BRUTA da amostra (que está no anexo de bairros) contra o perfil PONDERADO (que está no relatório). Isso mostra exatamente onde o peso atuou.
A boa notícia: em sexo, região e renda, o peso quase não mexeu. Está honesto.
O alerta: escolaridade. Na coleta de rua havia gente com ensino superior demais (28,4%) e fundamental de menos (25,9%). A ponderação corrigiu isso com fatores fortes:
• Fundamental: ×1,23 (subiu para 32,0%)
• Superior: ×0,86 (caiu para 24,4%)
É um ajuste grande para um marginal que se correlaciona com voto. E tem um detalhe contraintuitivo: a ponderação deixou a amostra AINDA mais pobre (até 2 SM subiu de 49,3 para 50,4%). O viés de renda não é corrigido pelo peso — é levemente reforçado.
Nada disso é ilegal. Mas é exatamente por isso que o Datafolha deveria publicar a distribuição dos pesos finais. Não publica.
~900 charsO relatório do Datafolha publica o voto, a rejeição, o efeito Trump e o arrependimento de 2022. Parece bastante. Mas é uma fração do que foi perguntado.
Li o questionário inteiro. Foram aplicadas a TODOS os entrevistados, e não publicadas:
• P.10 — percepção da economia (país e pessoal).
• P.11 a P.13 — facções como organização terrorista; se os EUA têm “direito” de atacar facções dentro do Brasil sem avisar o governo.
• P.16 a P.18 — uma bateria ideológica enorme: armas, drogas, pena de morte, homossexualidade, Deus, sindicatos, impostos, maioridade penal.
• P.19 e P.20 — Inteligência Artificial.
• E a distribuição do voto lembrado de 2022 — a auditoria política básica da amostra.
Isso é um instrumento de message-testing inteiro, coletado e guardado. Reter resultado de pergunta registrada é o oposto de transparência. E tem uma pergunta na lista que é ainda mais sensível. Próximo post.
Perguntaram se Flávio influenciou os EUA — e se isso foi positivo ou negativo. Não publicaram.
P.14 e P.15 do questionário: a influência de Flávio na decisão dos EUA de classificar PCC/CV como terroristas, e se ela ajudou ou atrapalhou o Brasil. Aplicadas a todos. Ausentes do relatório.
P.14 · teve influência?P.15 · positiva ou negativa?resultado não divulgado
~980 charsEsta é a omissão mais sensível da pesquisa.
Entre as perguntas aplicadas e não publicadas, duas são sobre o PRÓPRIO Flávio Bolsonaro:
P.14 — “O senador Flávio Bolsonaro teve ou não teve influência na decisão do governo dos EUA de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas?”
P.15 — “Essa influência foi positiva ou negativa para o Brasil?”
Pare e pense. O instituto coletou de 2.004 eleitores uma avaliação direta sobre uma ação de um dos dois finalistas — se ele atuou junto a Washington e se isso ajudou ou prejudicou o país. É um dado de altíssimo valor reputacional, no meio de uma campanha presidencial.
E não está no relatório.
Reter perguntas sobre economia é discutível. Reter uma pergunta que avalia se a ação internacional de um candidato foi boa ou ruim para o Brasil é editorialmente grave. Transparência exige publicar o resultado de TODAS as perguntas registradas — ou justificar, uma a uma, cada omissão.
8% dizem se arrepender do voto de 2022. Mas sobre uma base de 1.546, e sem revelar em quem essas pessoas votaram. Sem isso, não dá para auditar o viés político da amostra.
8%
arrependimento · base 1.546 (não 2.004) voto lembrado de 2022 = não publicado
~930 charsO relatório publica que 8% dos eleitores se arrependeram do voto para presidente em 2022. Parece transparente. Mas falta o essencial.
Primeiro: essa pergunta foi feita sobre uma base de 1.546 pessoas, não 2.004. Os outros 458 (não votaram, não lembram ou recusaram) ficam de fora — e isso não é explicado.
Segundo, e mais importante: o questionário PERGUNTA em quem o eleitor votou no 2º turno de 2022. Mas o relatório NÃO publica essa distribuição.
Por que isso importa? Porque o 2º turno de 2022 foi Lula 50,9 x Bolsonaro 49,1. A lembrança ponderada da amostra deveria orbitar esse número, com descontos esperados por memória e desejabilidade. É a auditoria política básica: serve para testar se a amostra está enviesada para um lado.
Publicar o arrependimento (8%) sem publicar a base lembrada é divulgar o efeito escondendo a causa. 8% de qual composição? Sem essa tabela, não dá para saber.
17% dizem que o apoio de Trump aumentaria a vontade de votar, 15% diminuiria, 65% indiferente. No agregado, quase nulo. A munição é segmentada, não nacional.
aumentaria
17
diminuiria
15
indiferente
65
saldo líquido +2 · efeito real é local, não geral
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026fonte: relatório p.27, efeito do apoio de Trump
~880 charsO apoio de Trump a um candidato brasileiro virou tema. O que o Datafolha mediu?
• 17% dizem que aumentaria a vontade de votar no candidato apoiado.
• 15% dizem que diminuiria.
• 65% dizem que não faria diferença.
Saldo líquido nacional: +2 pontos. Praticamente nulo.
A leitura estratégica é importante. No agregado, Trump não é trunfo nem veneno — é quase ruído. Mas a média esconde polarização: provavelmente soma muito na base bolsonarista e subtrai entre desalinhados e antiamericanos.
Tradução para campanha: Trump é munição SEGMENTADA, não bandeira nacional. Faz sentido ativar entre apoiadores já convictos; faz pouco sentido como mensagem de massa, porque o ganho na base é anulado pela perda no centro.
No palco nacional, o enquadramento que funciona não é “subordinação a Washington”, e sim soberania e segurança. Detalhe que separa estrategista de torcedor.
~900 charsSaindo da auditoria, entrando na estratégia. O mapa do 2º turno de Flávio é cirúrgico.
Onde ele já vence:
• Homens: 50 x 41.
• Renda acima de 2 SM: 49 a 54.
Onde ele apanha — e é aqui que a eleição se decide:
• Mulheres: Lula 52 x 37 (déficit de 15).
• Até 2 SM: Lula 53 x 38 (déficit de 15).
• Escolaridade fundamental: Lula 54 x 37 (déficit de 17).
São três células: mulheres, baixa renda e baixa escolaridade. Note que elas se sobrepõem muito — é largamente o mesmo eleitorado.
A leitura: a campanha não precisa gritar mais para a base masculina e de renda média-alta, que já está consolidada. Precisa REDUZIR MEDO e custo de votar nesses três grupos. Não é virar de lado ideológico; é mudar o tom e a pauta — segurança, custo de vida, saúde e proteção social, sem pose agressiva. Os próximos posts detalham como.
~860 charsA rejeição é o teto de cada candidato. E ela desenha a tesoura da campanha.
• Flávio: rejeição de 48% no total, mas 53% entre MULHERES e 43% entre homens.
• Lula: rejeição de 46% no total, mas 52% entre HOMENS e 40% entre mulheres.
Leia de novo. O ponto mais alto de rejeição de Flávio são as mulheres. O ponto mais alto de Lula são os homens. É espelhado.
Para Flávio, isso define a prioridade número 1: baixar a rejeição feminina de 53%. Cada ponto derrubado aí vale mais do que qualquer ganho marginal na base masculina, que já está com ele.
E o risco não é só ideológico — é reputacional. O caso Master pesa como narrativa de privilégio e família, e isso machuca especialmente entre o eleitorado feminino e moderado. Sem anticorpo ético, esse eleitor anula ou fica com Lula. Reduzir teto de rejeição é a maior alavanca da candidatura. De longe.
A eleição está na margem. Lula travado em 47–48; o jogo é consolidar oposição e desarmar medo.
1Mulheres (−15): segurança, saúde, custo de vida, sem pose agressiva.
2Classe média 2–10 SM: fiador econômico, imposto menor, crédito.
3Rejeição de Lula (46%): virar permissão de voto útil.
4Anticorpo pós-Master: blindagem ética e integridade.
5Trump cirúrgico: base PL sim, nacional não.
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026síntese estratégica sobre dados do relatório
~960 charsJuntando tudo, o playbook da direita em 5 movimentos:
1. MULHERES (déficit de 15). A célula que decide o 2º turno. Pauta: segurança, saúde, inflação de comida e energia, escola, proteção social — sem pose agressiva. Tom importa mais que ideologia aqui.
2. CLASSE MÉDIA 2–10 SM (já lidera, expansível). Virar fiador econômico: estabilidade, imposto menor, crédito para o pequeno negócio. O medo de retrocesso joga a favor.
3. REJEIÇÃO DE LULA (46%) COMO PERMISSÃO. “Você não precisa amar Flávio para trocar o rumo.” Converter anti-Lula em voto útil.
4. ANTICORPO REPUTACIONAL. A rejeição de 48% é tanto ética quanto ideológica. Sem blindagem de integridade pós-Master, o moderado escapa.
5. TRUMP COM CIRURGIA. Saldo nacional é só +2. Ativar na base PL; no nacional, enquadrar soberania, não subordinação.
Resumo: não radicalizar a base. Desarmar o medo e baixar o teto de rejeição. Cada ponto de rejeição derrubado vale dez de marketing.
Ele tira 31 no 1º turno com só 10% de identificação partidária com o PL. Vive de não-partidários — recrutáveis, mas instáveis. Lula tem chão mais firme (22% PT).
identificação partidária × voto 1º turno
PT → Lula
22→41
PL → Flávio
10→31
“nenhum partido”
52
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026fonte: partido de preferência, perfil ponderado p.17
~900 charsUm dado pouco notado do perfil ponderado, com leitura estratégica forte.
Identificação partidária da amostra:
• PT: 22%
• PL: 10%
• “Nenhum/não tem partido”: 52%
Agora compare com o voto de 1º turno: Lula 41, Flávio 31.
Lula tira 41 a partir de uma base de 22% petistas — converte o dobro do seu chão. Flávio tira 31 a partir de só 10% de pelistas — TRIPLICA a base partidária dele.
Isso quer dizer duas coisas ao mesmo tempo:
→ Força: o voto de Flávio tem alcance muito além do PL. Ele recruta no oceano dos 52% sem partido.
→ Fragilidade: esse voto é elástico, pouco ancorado em lealdade. Sobe e desce com conjuntura e humor — é menos fiel que o voto petista.
Para a campanha, é mandato e alerta: há teto para crescer entre não-partidários, mas o piso é menos garantido. Trabalhar consistência de mensagem para fixar o que hoje é volátil.
Nada disso exige “provar inocência”. Exige abrir o suficiente para qualquer um refazer a conta.
→Microdados anonimizados e pesos finais
→Efeito de desenho (deff) e n efetivo
→Taxa de recusa, substituição e checagem por UF
→Protocolo de ponto, horário e rotação
→Resultado de todas as perguntas registradas
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026pesquisa registrada é produto privado de efeito público
~880 charsO Datafolha tem marca, campo nacional e documentação acima da média do mercado. Justamente por isso, a régua dele tem que ser mais alta. Pesquisa eleitoral registrada é produto privado com efeito público.
Para virar incontestável, bastava abrir:
• Microdados anonimizados após a divulgação.
• Pesos finais por entrevistado (ou ao menos a distribuição).
• Efeito de desenho (deff) e n efetivo — em vez do ±2 de amostra aleatória simples.
• Taxa de recusa, substituição e checagem por UF.
• Protocolo dos pontos: sorteio, rotação ou painel; horário e fluxo.
• Resultado de TODAS as perguntas registradas, inclusive o voto lembrado de 2022 e as perguntas sobre a atuação de Flávio.
Nada aqui é exigência de “provar inocência”. É só permitir que qualquer um refaça a conta. Enquanto isso não vier, a pesquisa continua boa para manchete e insuficiente para auditoria. Dá para fazer melhor.
~1010 charsAgora a parte que quase ninguém audita: a narrativa construída em cima da pesquisa.
Coletei como a imprensa noticiou ESTE Datafolha entre 17 e 24 de junho. Mesmo número (Lula 47 x 43), manchetes em direções opostas:
• “Lula MANTÉM 47% e Flávio tem 43%” (Exame) — frame de liderança durável.
• “Lula tem 10 PONTOS à frente no 1º turno” (SRZD) — usa o gap maior, de outro cenário.
• “Flávio ESTANCA PERDAS” (InfoMoney) — candidato em queda que freou.
• “Flávio ESTABILIZA após Dark Horse” (Correio) — escândalo no título.
• “…EMPATE TÉCNICO no limite da margem” (InfoSAJ) — o frame estatisticamente correto. Minoria.
Repare: o dado era estabilidade e empate técnico. A manchete dominante foi “Lula lidera” e “Flávio ferido”. Verbo de liderança (“mantém”, “à frente”) não é dado — é escolha editorial.
E tem um detalhe que fecha o raciocínio: quem encomendou a pesquisa foi a própria Folha. Ou seja, o mesmo grupo define as perguntas, recebe os dados, escolhe o que publicar e redige a manchete. Quatro alavancas. Próximos posts.
O mesmo veículo chama a rejeição (48×46) de “empate técnico” — mas o voto (47×43) de “Lula lidera”. A diferença não é estatística. É editorial.
Rejeição 48×46
✓ tie
Voto 47×43
✗ lidera
gap de 2 pts = “empate” · gap de 4 pts = “liderança”? os dois cabem na margem da diferença (~±4–5)
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026margem da diferença > gap nos dois casos
~960 charsEsta é a incoerência mais reveladora da cobertura.
Quando o assunto é REJEIÇÃO, os veículos escrevem que Flávio (48%) e Lula (46%) estão em “empate técnico dentro da margem de erro”. Está certíssimo: 2 pontos não distinguem ninguém.
Mas quando o assunto é o VOTO de 2º turno — Lula 47 x Flávio 43 — os mesmos veículos abandonam a régua e escrevem “Lula lidera”, “Lula mantém vantagem”.
Por que um gap de 2 pontos é empate e um gap de 4 pontos é liderança? Não é, e a estatística prova: a margem de erro sobre a DIFERENÇA entre dois candidatos é ~±4 pontos (e ~±5 com o efeito de desenho real). Ou seja, o 47x43 é tão empate técnico quanto a rejeição — ou mais.
A escolha de chamar um de “empate” e o outro de “liderança” não vem dos dados. Vem da redação. É a mesma pesquisa, a mesma margem, e dois rótulos diferentes conforme convém à narrativa. Quando a régua muda no meio do texto, não é estatística: é enquadramento.
A Folha não recebe a pesquisa pronta. Ela encomenda. Isso é poder sobre o instrumento E sobre a narrativa — um ciclo fechado.
1DEFINE as perguntas (Trump, facções, influência de Flávio nos EUA)
2RECEBE os dados (topline + recortes)
3ESCOLHE a manchete — e o que NÃO publicar
4DEFINE a pauta do dia seguinte
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026Datafolha é encomenda da Folha de S.Paulo
~990 charsTem uma palavra que muda tudo e some no rodapé dos releases: CONTRATANTE.
O Datafolha não é um oráculo neutro que entrega números do céu. A pesquisa é ENCOMENDADA pela Folha de S.Paulo. E quem encomenda controla o ciclo inteiro:
1. DEFINE as perguntas. Foi a Folha que escolheu testar o “efeito Trump”, as facções como terrorismo e a influência de Flávio na decisão dos EUA. A pauta nasce na escolha das perguntas.
2. RECEBE os dados antes de todo mundo, com todos os recortes.
3. ESCOLHE o que publicar — e o que reter. Publicou o efeito Trump (“não resolve os problemas dele”) e o arrependimento de 2022. Reteve a pergunta sobre a influência de Flávio nos EUA (post 15).
4. ESCREVE a manchete e define a pauta do dia seguinte.
São quatro alavancas sobre a percepção pública, a partir do mesmo conjunto de números. Nada disso é ilegal. Mas devia estar no holofote, não na nota de rodapé. Quando o dono da pesquisa é o dono da manchete, o leitor precisa saber.
Quase toda matéria reancora a pesquisa ao escândalo do filme “Dark Horse”. A foto do voto vira capítulo semanal da crise.
Intercept, 13/05 · o gancho “Dark Horse”
arvor intelligence · auditoria datafolha 062026fontes: Intercept, Agência Pública, Brasil de Fato
~1010 charsPor que a pesquisa de junho, que repetiu maio, virou notícia de escândalo? Por causa do pré-enquadramento.
O caso “Dark Horse”: em maio, o Intercept revelou áudios em que Flávio Bolsonaro teria negociado R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio negou (“de onde você tirou isso? é mentira”).
Desde então, quase toda matéria de pesquisa reancora o número ao escândalo. A linha do tempo é clara:
• 13/05 — Intercept divulga o áudio.
• 22/05 — Datafolha “o 1º após o vazamento”; gap vai a 9 pontos.
• 17–18/06 — campo de junho; números IDÊNTICOS a maio.
• 20/06 — manchete: “Flávio estabiliza após Dark Horse”.
Mesmo quando o número não se move, o título mantém a moldura da crise. Isso é agenda-setting de manual: a imprensa não diz só o que pensar — diz SOBRE O QUE pensar. A pesquisa deixa de ser foto do voto e vira o capítulo semanal de um escândalo que envolve, de novo, o Banco Master e Vorcaro — os mesmos nomes dos dossiês anteriores.
Não é fraude. É excesso de certeza na manchete e falta de transparência no método.
O 2º turno é empate técnico, a vantagem de Lula depende de uma amostra mais pobre que o país, e o anti-Lula transfere 2:1 para Flávio. A disputa está aberta — na margem.
~980 charsFecho como abri. Não dá para gritar fraude. O Datafolha mediu o voto antes do roteiro pesado, acertou a demografia e publicou os bairros. Crédito dado.
Mas também não dá para engolir a manchete como ciência fechada. Três coisas ficaram demonstradas:
1. EMPATE TÉCNICO. O gap de 4 pontos é menor que a margem da diferença (±4 no melhor caso, ~±5 com o desenho real). “Lula à frente” não passa no teste de 95%.
2. A RENDA INFLA LULA. A amostra tem 50,4% de pobres (até 2 SM), contra 35–43% na PNAD. Corrigindo isso, Lula 47→45,6 e Flávio 43→45,9. Empata.
3. O ANTI-LULA EXISTE E MIGRA. No 2º turno, o voto disponível corre 2:1 para Flávio, que é o adversário mais competitivo. O teto de Lula está travado em 47–48.
E ficou a pergunta retida sobre a atuação do próprio Flávio nos EUA, aplicada e não publicada.
O nome disso não é fraude. É incerteza estatística + transparência insuficiente. A cura é uma só: abrir os dados.
arvor intelligence · dados abertosTSE BR-09956/2026 · github.com/ArvorCo/PNAD
~980 charsSe você leu até aqui, o resumo é este: a pesquisa Datafolha de junho não mostrou virada contra Flávio, mas também não mostrou a liderança que a manchete vendeu. O 2º turno é empate técnico, a vantagem de Lula mora na renda da amostra, e o voto disponível corre para Flávio.
Tudo o que afirmei aqui está aberto para conferência, contestação ou refutação. O dossiê completo tem:
• A margem refeita com o erro da diferença e o efeito de desenho simulado.
• A reponderação por renda contra a PNAD, número a número.
• A transferência de voto reconstruída do 1º para o 2º turno.
• O cruzamento dos bairros com a eleição de SP 2024.
• A lista das perguntas aplicadas e não publicadas.
• A análise das manchetes: como o dado “empate” virou “Lula lidera”.
Dossiê: brasil.arvor.co/datafolha_062026.html
Dados e scripts: github.com/ArvorCo/PNAD
E se quiser ver o mesmo bisturi na Quaest e na BTG/Nexus, os dossiês anteriores estão no mesmo lugar.
Toda semana, uma pesquisa na mesa de operação. Auditem os auditores. Eu comecei. 🌳