Thread da auditoria do Datafolha de 18 e 19 de agosto de 2026, registro TSE BR-04496/2026, 2.058 entrevistas. Vinte e três cards que ensinam o suficiente de estatística para você ler qualquer pesquisa sozinho, e que refazem, com os números na tela, a conta que leva o segundo turno publicado de 47 × 43 para 44,2 × 46,0 quando a distribuição de renda vem do IBGE.
Como usar. Cada bloco traz o card 16:9 para anexar e, logo abaixo, o texto exato do post com a contagem de caracteres. O botão copia sem formatação. Aula ensina o conceito. Fato publicado vem com a página do relatório. A conta vem com a fórmula aberta e o resultado conferível.
a teseaulaa contafato publicadoo que fazer
Post 1/23 · a tese · mesma pesquisa, duas eleições
datafolha · 18–19/08/2026 · n = 2.058 · BR-04496/2026
47×43 vira 44,2×46,0
A manchete depende de uma régua
A Folha e a Globo publicaram: Lula 47, Flávio 43 no segundo turno. O número está certo. O que ele significa depende de uma escolha que a manchete não conta: qual retrato do Brasil a pesquisa usa para pesar as respostas.
50% até 2 SM na pesquisa35,4% na PNAD do IBGEsensibilidade, não recontagem
arvor intelligence · brasil.arvor.corelatório completo, p. 22 do anexo
1104 charsA Folha e a Globo publicaram no dia 21: Lula 47, Flávio 43 no segundo turno. O número está certo. Eu conferi célula por célula.
O que ele significa depende de uma escolha que nenhuma manchete conta. Toda pesquisa pesa as respostas para que a amostra pareça com o país. Para isso, ela precisa de um retrato do país. E o retrato de renda que o Datafolha usa não é o do IBGE.
O Datafolha apresenta um Brasil em que 50% dos eleitores vivem com até dois salários mínimos no domicílio. A PNAD Contínua, a maior pesquisa domiciliar do país, mede 35,4%.
Troque só isso. Nada mais. O mesmo relatório devolve Lula 44,2 e Flávio 46,0.
Nesta thread eu mostro a conta inteira, com os números na tela, para você refazer sozinho.
E, no caminho, ensino o suficiente de estatística para você nunca mais precisar acreditar numa manchete de pesquisa: o que é amostra, por que a margem da capa não serve para comparar dois candidatos, como uma amostra nacional é sorteada e o que exatamente acontece quando um instituto pondera.
Vinte e três posts. Nenhum documento sigiloso. Nenhuma conta que não caiba numa planilha.
Toda pesquisa registrada no TSE publica o relatório completo, o questionário aplicado, o plano amostral, a lista de municípios e a nota fiscal. Está no PesqEle, é grátis e não exige cadastro.
PesqEle é públicoquestionário aplicadoR$ 307.641,60
1066 charsAntes de qualquer conta, a ficha. Datafolha, registro TSE BR-04496/2026. Campo em 18 e 19 de agosto de 2026. 2.058 entrevistas presenciais em pontos de fluxo, em 128 municípios. Contrataram a Folha de S.Paulo e a TV Globo, por R$ 307.641,60.
Tudo isso é público. O sistema chama PesqEle, é do Tribunal Superior Eleitoral, é grátis e não pede cadastro. De lá saem o relatório completo de 51 páginas, o questionário aplicado com 8 páginas, o plano amostral, a lista de municípios e bairros e as notas fiscais.
É muita transparência, e é bom que seja. O problema não é falta de documento. É que a cobertura para na página 2 e o país inteiro discute duas linhas de um arquivo de cinquenta e uma páginas.
O relatório tem duas partes. As vinte e duas primeiras páginas são a apresentação, e é de lá que sai a notícia. As vinte e nove seguintes são o anexo de tabelas cruzadas: catorze tabelas, cada uma repartida por onze recortes, de renda a religião.
As outras quarenta e nove páginas estão abertas há dias e continuam abertas agora. Nesta thread nós vamos até elas.
A manchete saiu na sexta. O documento nasceu na segunda.
O relatório completo de 51 páginas é o único documento que permite conferir o número da manchete. O arquivo carrega dentro de si a data em que foi produzido: 24 de agosto às 16h27. A pesquisa foi divulgada no dia 21.
divulgação 21/08arquivo criado 24/084 de 4 ondas
campo creationDate do PDF, dentro do arquivoigual em maio, junho, julho e agosto
1047 charsO prazo. Antes de discutir qualquer número, uma pergunta que quase ninguém faz: quando foi possível conferir esse número?
Todo PDF guarda dentro de si a data em que foi produzido. O relatório completo do Datafolha de agosto, com as 51 páginas, as tabelas cruzadas e as margens por recorte, traz 24 de agosto às 16h27.
A pesquisa foi divulgada no dia 21, uma sexta-feira. Durante três dias o país discutiu dois números e o documento que permite checá-los ainda não existia.
E não é um acidente desta onda. Em maio, divulgação dia 22 e relatório criado dia 25. Em junho, 19 e 22. Em julho, 24 e 27. Em agosto, 21 e 24. Quatro ondas, sempre exatamente três dias.
O que o metadado prova: um arquivo criado no dia 24 não podia estar disponível no dia 21. O que ele não prova: irregularidade. Prazos de depósito são matéria da Resolução do TSE e exigem leitura do dispositivo, não do arquivo.
O que fica é a ordem, e ela é sempre a mesma: primeiro o número, depois o debate nacional, depois o documento. Quando o relatório chega, o ciclo já fechou.
Você não precisa tomar a sopa inteira para saber se está salgada. Precisa mexer bem e provar uma colher. Pesquisa é isso: 2.058 pessoas para falar de 158 milhões de eleitores.
amostrauniversomexer bem = sortear
eleitorado residente no Brasil: 157.846.602TSE, competência junho de 2026
1183 charsAula 1. Como 2.058 pessoas falam por 158 milhões de eleitores.
Você não precisa tomar a sopa inteira para saber se está salgada. Precisa mexer bem e provar uma colher. É exatamente isso que uma pesquisa faz.
O segredo não é o tamanho da colher, é o mexer. Se o sorteio é honesto, uma colher pequena diz muito sobre a panela. Se a panela não foi mexida, nem uma tigela inteira serve.
Daí vem a diferença entre dois erros que costumam ser confundidos.
Erro de amostragem é o azar do sorteio. Ele encolhe quando a amostra cresce e é o que a margem de erro mede.
Viés é a panela mal mexida: quando um tipo de gente tem mais chance de cair na colher do que outro. Esse não encolhe com amostra maior. Só encolhe com desenho melhor, ou com correção declarada.
Um exemplo de viés que você reconhece na hora: entrevistar só em ponto de fluxo, no meio da tarde, num dia útil. Quem está trabalhando dentro de um escritório fechado tem menos chance de ser abordado que quem circula na rua. Aumentar a amostra de 2 mil para 20 mil não conserta isso. Só o desenho conserta, ou uma correção declarada depois.
Guarde essa distinção entre erro de sorteio e viés. A thread inteira depende dela.
A capa diz margem de dois pontos. Isso vale para cada número sozinho. Comparar dois candidatos tem incerteza maior, porque quando um sobe o outro tende a cair, e o erro dos dois se soma.
cada número: ±2a diferença: ±4,10o intervalo cruza zero
aproximação de amostragem aleatória simpleso instituto não publica o efeito de desenho
1123 charsAula 2. A margem de erro da capa não serve para comparar dois candidatos.
Quando a pesquisa diz margem de dois pontos, isso vale para cada número isolado. Lula 47 quer dizer algo entre 45 e 49.
Comparar dois candidatos é outra conta. Se um sobe, o outro tende a cair: os dois erros andam juntos e a incerteza da diferença fica maior que a de cada parte.
Para 47 contra 43, com 2.058 entrevistas, a margem da diferença é de 4,095 pontos. O intervalo da vantagem de quatro pontos vai de −0,10 a +8,10.
Ele inclui o zero. Isso não prova empate no eleitorado. Prova que esta amostra não separa os dois com 95% de confiança.
No primeiro turno, 39 contra 33, a mesma conta dá de +2,34 a +9,66. Não inclui o zero. Ali existe liderança medida.
A conta, para quem quiser conferir: a variância da diferença entre duas proporções da mesma pesquisa é a soma das duas menos o quadrado da diferença, tudo dividido pelo tamanho da amostra. Com 0,47 e 0,43 em 2.058 entrevistas, dá 4,095 pontos a 95%.
Uma pesquisa, duas situações diferentes, uma manchete só. Aprenda a pedir a margem da diferença, e repare em quem nunca a publica.
O Datafolha divide o país em estratos por região e por natureza do município, sorteia cidades com probabilidade proporcional ao tamanho, depois bairros e pontos, e no ponto aplica cotas de gênero e idade. Isso é boa prática e está declarado.
estratificaçãoPPTcota no ponto de fluxo
registro BR-04496/2026, plano amostral128 municípios, 288 setores censitários
1272 charsAula 3. Estratificação e cota, que é como uma amostra nacional nasce.
Ninguém sorteia 2.058 brasileiros de uma lista única. O país é dividido em estratos: as cinco regiões, cruzadas com capital, região metropolitana e interior. Dentro de cada estrato sorteiam-se municípios com probabilidade proporcional ao tamanho, ou seja, cidade grande tem mais chance de entrar. Depois sorteiam-se bairros e pontos de abordagem. Só então o entrevistador aborda alguém.
No ponto entra a cota: o entrevistador precisa preencher um número de homens e de mulheres, e de cada faixa de idade. Isso impede que a amostra vire só quem tem tempo de parar na rua.
Tudo isso está declarado no registro do TSE, e é boa prática. Vale dizer com todas as letras: o desenho do Datafolha é sério.
Nesta onda foram 128 municípios e 288 setores censitários, com média de 7,15 entrevistas por setor. Isso tem uma consequência que quase nunca é dita: sete pessoas do mesmo quarteirão se parecem mais entre si do que sete pessoas sorteadas em sete cidades. Amostra em conglomerado tem incerteza maior que a fórmula da capa supõe, e o instituto não publica o quanto.
O que fica de fora da cota é o que mais interessa aqui. Renda não é cota. Renda entra depois, na ponderação. E é aí que a régua importa.
Se o campo trouxe gente demais de um tipo e de menos de outro, o instituto multiplica cada resposta por um número para que o retrato final tenha a cara do país. É legítimo, é padrão e é necessário. Só que exige um retrato do país para comparar.
ponderar é legítimodepende do benchmarkrenda não é cota
49% é a referência declarada ao TSE35,4% é a PNADC anual 2025 do IBGE
1340 charsAula 4. Ponderação, o passo silencioso que decide o placar.
Nenhuma pesquisa de rua sai perfeita do campo. Vem gente demais de um tipo e de menos de outro. O instituto então multiplica cada entrevista por um número, o peso, para que o retrato final tenha a cara do país.
O peso é simples de entender. Se o campo trouxe 52% de eleitores de até dois salários mínimos e a referência diz que o país tem 49%, a faixa recebe peso 0,94: cada resposta dela vale um pouco menos. Se a referência dissesse 35%, o peso seria 0,68, e o mesmo grupo pesaria muito menos.
Repare no que acabou de acontecer. A pesquisa é a mesma, as respostas são as mesmas, o campo é o mesmo. O resultado muda porque a referência mudou.
Ponderar é legítimo, padrão e necessário. Não é truque. Mas depende inteiramente de qual retrato do país você escolhe como verdadeiro.
E há um detalhe de calendário que vale registrar. O registro no TSE declara que a referência de renda usada vem da PNAD anual de 2024. A PNAD anual de 2025 já estava publicada quando o campo foi a campo, em agosto de 2026. Além disso, o cartão de renda mostrado ao entrevistado usa reais de 2026: dois salários mínimos são R$ 3.242 hoje e eram R$ 2.824 em 2024. A régua da pergunta e a régua da cota estão em anos diferentes.
É essa escolha que ninguém discute na manchete. Vamos discutir agora.
O perfil publicado na página 5 do anexo diz que metade do eleitorado vive com até dois salários mínimos no domicílio. A PNAD Contínua anual mais recente, que visitou 152.488 domicílios, mede 35,4% entre pessoas de 16 anos ou mais.
Datafolha 52,0%PNADC 35,4%diferença de 16,5 pontos
Datafolha, anexo p. 5 e 22IBGE, PNADC anual 2025, visita 1
1259 charsA régua. Aqui está a escolha inteira, em dois números.
O Datafolha apresenta um eleitorado em que 52,0% das rendas informadas ficam até dois salários mínimos, 35,5% entre dois e cinco, e 12,6% acima de cinco.
A PNAD Contínua anual do IBGE, que visitou 152.488 domicílios e pergunta rendimento fonte por fonte, mede 35,4%, 39,2% e 25,4% entre pessoas de 16 anos ou mais.
São 16,5 pontos de diferença na faixa mais pobre. E a faixa acima de cinco salários aparece na pesquisa com metade do peso que o IBGE mede.
Duas explicações honestas para isso, e as duas importam. Primeira: renda declarada de improviso na rua não é a mesma coisa que rendimento domiciliar levantado com questionário longo em casa. Segunda: a referência que o instituto declarou ao TSE vem da PNAD de 2024, e a de 2025 já estava publicada quando o campo foi a campo.
A PNAD anual de 2025 que usamos como referência entrevistou 408.364 pessoas em 152.488 domicílios. Não é uma pesquisa concorrente do Datafolha: é a base estatística com que o próprio país mede desemprego, pobreza e renda.
Nada disso é fraude, e é importante dizer com todas as letras. É uma escolha de régua, declarada e legítima. Só que ela decide o placar, e por isso merece estar na manchete tanto quanto o placar.
O relatório publica o segundo turno por faixa de renda. São três linhas. Com elas e com os pesos, qualquer pessoa refaz o placar nacional numa planilha.
até 2 SM: Lula 55, Flávio 352 a 5: Lula 37, Flávio 51+5: Lula 39, Flávio 54
74 entrevistados não informaram rendae por isso ficam fora desta tabela
977 charsA conta, passo 1. A tabela que faz tudo funcionar tem três linhas.
O relatório publica o segundo turno separado por faixa de renda familiar, na página 22 do anexo de tabelas cruzadas.
Até 2 salários mínimos, base ponderada 1.031: Lula 55, Flávio 35.
De 2 a 5 salários, base 704: Lula 37, Flávio 51.
Acima de 5 salários, base 249: Lula 39, Flávio 54.
Repare no padrão, porque é ele que torna a régua decisiva. Quem ganha menos vota mais em Lula. Quem ganha mais vota mais em Flávio. A inversão acontece já na segunda faixa.
Quando o voto varia tanto entre as faixas, o peso que você dá a cada faixa não é detalhe técnico. É o resultado.
A coluna que sobra, de quem não escolhe ninguém, também tem padrão: 9% na faixa mais pobre, 12% na do meio, 7% na mais rica.
E um detalhe honesto: 74 entrevistados não informaram renda e por isso não aparecem em nenhuma das três linhas. A soma das bases dá 1.984, não 2.058.
Guarde estes nove números. No próximo post nós os usamos.
Multiplique o voto de cada faixa pelo peso dela na pesquisa e some. Se a conta estiver certa, ela tem que reproduzir o número que o instituto publicou. Reproduz.
peso × voto, somapublicado: 47recomposto: 46,9
percentuais renormalizados por linhaarredondamento do relatório é de 1 ponto
1158 charsA conta, passo 2. Antes de mudar qualquer coisa, é preciso provar que a leitura está certa.
A regra é a média ponderada, que você já usa sem saber. É a mesma conta da média do boletim quando cada prova vale um peso diferente.
Multiplique o voto de cada faixa pelo peso daquela faixa e some tudo.
Com os pesos da própria pesquisa: 51,97% vezes 55,6 dá 28,9. Mais 35,48% vezes 37, que dá 13,1. Mais 12,55% vezes 39, que dá 4,9.
Soma: 46,9.
O Datafolha publicou 47. A diferença é arredondamento das células impressas.
Isso é o controle de qualidade da auditoria. Se a recomposição não batesse com o publicado, qualquer conta derivada estaria errada e nada do que vem a seguir valeria. Ela bate.
Se ficou abstrato, pense no boletim da escola. Você tirou 8 na prova que vale 50% da nota, 6 na que vale 30% e 4 na que vale 20%. A média não é 6, que seria a média simples. É 8 vezes 0,5, mais 6 vezes 0,3, mais 4 vezes 0,2, que dá 6,6. O peso muda o resultado sem mudar nenhuma nota.
É exatamente a mesma conta. As faixas de renda são as provas, o voto é a nota e o peso é quanto cada faixa vale no país.
Agora dá para trocar uma peça e ver o que acontece.
Não se muda nenhuma resposta, nenhuma célula, nenhum entrevistado. Muda-se apenas quanto cada faixa de renda pesa, usando a distribuição da PNAD Contínua. A soma vira outra.
mesmas respostasoutros pesosoutro resultado
PNADC anual 2025, visita 1, VD5001pessoas de 16 anos ou mais
1035 charsA conta, passo 3. Agora troque uma coisa só.
Nenhuma resposta muda. Nenhuma célula da tabela muda. Nenhum entrevistado é acrescentado ou removido. Muda apenas quanto cada faixa de renda pesa no total, usando a distribuição da PNAD Contínua no lugar da distribuição da pesquisa.
35,43% vezes 55,6 dá 19,7. Mais 39,22% vezes 37, que dá 14,5. Mais 25,35% vezes 39, que dá 9,9.
Soma: 44,1. Lula caiu 2,8 pontos.
Fazendo o mesmo com a coluna de Flávio: 46,2. Ele subiu 3,0.
É toda a magia. Uma média ponderada de três linhas, que cabe numa planilha e leva dois minutos.
Vale repetir o que não mudou, porque é isso que dá força ao exercício: as três linhas de voto continuam idênticas às que o instituto imprimiu. Ninguém foi reentrevistado, nenhum número foi corrigido, nenhuma resposta foi descartada.
A pergunta que fica não é técnica, é editorial: qual das duas réguas descreve melhor o eleitorado brasileiro de 2026? Uma responde por uma pergunta rápida em ponto de fluxo, a outra por um questionário domiciliar de 152 mil casas.
Para não trocar o placar do instituto pelo nosso, ancoramos: partimos do 47 e do 43 publicados e aplicamos apenas a diferença que a troca de régua produziu. Nada é inventado, e a origem continua sendo o número oficial.
Lula 47 → 44,19Flávio 43 → 45,97saldo −1,78
fórmula aberta: publicado + (PNADC − recomposto)docs e scripts em brasil.arvor.co
1037 charsA conta, passo 4. O resultado, e a blindagem que ele exige.
Não trocamos o placar do instituto pelo nosso. Ancoramos. Partimos do 47 e do 43 publicados e somamos apenas a diferença que a troca de régua produziu.
Lula: 47 menos 2,81 dá 44,19.
Flávio: 43 mais 2,97 dá 45,97.
A vantagem publicada de quatro pontos para Lula vira uma vantagem de 1,78 ponto para Flávio.
A fórmula inteira é esta: publicado mais a diferença entre a recomposição com a régua do IBGE e a recomposição com a régua da pesquisa. Ela está no script, o script está público, e o resultado é conferível por qualquer pessoa com uma planilha.
Por que ancorar em vez de publicar direto o 44,08 contra 46,22 da recomposição? Porque a recomposição usa só uma margem e o instituto pondera por várias ao mesmo tempo. Ancorando, o número que sai continua sendo o do instituto mais o efeito isolado da troca, e não uma pesquisa nossa.
E vale repetir: isto é análise de sensibilidade, não recontagem. Mede de qual régua o placar depende, não quem está ganhando a eleição.
Maio, junho, julho e agosto renderam quatro manchetes iguais: Lula à frente por quatro a cinco pontos. Aplique a mesma distribuição de renda do IBGE às quatro e a vantagem some nas quatro.
publicado: +4, +4, +5, +4sob a régua: −2,81 a −1,78nenhuma onda com Lula à frente
mesma fórmula e mesmo benchmark nas quatro ondasrelatórios de maio, junho, julho e agosto
1123 charsA série. Aqui a coisa deixa de ser um número e vira uma narrativa inteira.
As quatro últimas ondas do Datafolha renderam quatro manchetes iguais: Lula lidera o segundo turno por quatro a cinco pontos. Estabilidade, dizem. Vantagem consolidada.
Aplique a mesma distribuição de renda do IBGE às quatro, com a mesma fórmula, sem escolher onda.
Maio: Flávio +2,81.
Junho: empate, Flávio +0,16.
Julho: empate exato.
Agosto: Flávio +1,78.
Em nenhuma das quatro Lula fica à frente. E a leitura de tendência também muda: sob esta régua, o desafiante perdeu cerca de um ponto entre maio e agosto, em vez de estar correndo atrás de uma vantagem consolidada.
São duas eleições diferentes, e a diferença não é acadêmica. Uma disputa em que o presidente lidera com folga desde maio e uma disputa empatada desde maio produzem decisões opostas sobre aliança, agenda e prioridade de recurso, dos dois lados. Só uma das duas está sendo noticiada.
E repare no que este exercício não faz: ele não escolhe a onda que dá o resultado desejado. São as quatro ondas disponíveis, com a mesma fórmula e o mesmo benchmark, publicadas juntas.
Quando um jornal escreve que alguém lidera, está afirmando liderança identificada. Essa afirmação tem de passar num teste de amostragem e num teste de composição. No segundo turno de agosto ela não passa em nenhum dos dois.
intervalo inclui zerosinal inverte com o IBGE4 de 4 ondas
margem da diferença: ±4,095 a 95%10.000 simulações mantêm o sinal invertido
1238 charsA manchete. Aqui está a parte que não é técnica, é de responsabilidade.
Quando um texto escreve que alguém lidera, ele afirma uma liderança identificada. Essa afirmação precisa passar em dois testes independentes.
Teste um, de amostragem: a diferença de quatro pontos tem margem de 4,095 pontos a 95%, sob a hipótese mais generosa possível. O intervalo vai de −0,10 a +8,10 e contém o empate.
Teste dois, de composição: trocando só a distribuição de renda pela do IBGE, o saldo vira Flávio +1,78. E não é uma onda isolada, são as quatro, com a mesma fórmula.
Escrever “lidera” sobre um resultado que não sobrevive a nenhum dos dois não é erro de rodapé. É transformar em fato consumado o que a própria pesquisa apresenta como indeterminado, e fazê-lo nos três dias em que o documento que permitiria contestar ainda não existe.
A correção é barata: “Lula tem 47%, Flávio tem 43%, e a diferença não separa os dois com 95% de confiança.” Nove palavras a mais e a frase fica verdadeira.
E para ser justo: no primeiro turno, “lidera” está correto. O saldo de seis pontos tem intervalo de +2,34 a +9,66. O problema é usar a mesma palavra para as duas situações, que são estatisticamente diferentes. A pesquisa distingue. A cobertura, não.
Reponderar uma margem publicada mostra de qual régua o resultado depende. Não identifica o resultado verdadeiro do eleitorado, porque a ponderação real do instituto é conjunta e não é pública.
quatro limites declaradosfalsificávelsem microdados
as limitações estão no JSON públicoanalysis/datafolha_082026
959 charsO limite. Esta é a parte que separa auditoria de propaganda, e ela vem antes da conclusão, não depois.
O que fizemos é análise de sensibilidade: trocar uma peça e medir o efeito. Ela responde a uma pergunta precisa e estreita, que é de qual régua o placar depende.
Ela não responde quem está ganhando a eleição, e por quatro motivos que declaramos antes de qualquer número.
Um: não existem microdados nem pesos individuais públicos. Sem eles não dá para saber como renda interage com escolaridade, idade e região dentro da ponderação real do instituto, que é conjunta.
Dois: renda declarada de improviso na rua não é idêntica ao rendimento domiciliar levantado pelo IBGE com questionário longo.
Três: ajustamos uma margem por vez. As outras ficam como estão.
Quatro: a série mostra tendência sob uma régua comum, não a tendência real da eleição.
Quem publica sensibilidade como se fosse recontagem está fazendo a mesma coisa que a manchete que critica.
quatro questionários registrados no TSE, lado a lado
7 e depois 0
O questionário parou de perguntar sobre fatos
Toda pesquisa registrada publica o questionário aplicado. Comparando as quatro últimas ondas, aparece uma coisa que nenhuma delas mostra sozinha: a pauta temática existia, nomeava pessoas e media o custo eleitoral de fatos. Em agosto ela desapareceu inteira.
maio: 7 perguntas de casojulho: 9agosto: nenhuma
questionários de maio, junho, julho e agostoPesqEle, registros públicos
872 charsA pauta. Este é o achado que só aparece quando você abre as quatro ondas ao mesmo tempo.
Todo questionário aplicado é público. Comparando maio, junho, julho e agosto, o número de perguntas temáticas, ou seja, as que não são intenção de voto, avaliação de governo nem perfil, foi 16, 25, 23 e 3.
E o número de perguntas que medem o efeito eleitoral de um fato concreto, com pessoas nomeadas dentro do enunciado, foi 7, 3, 9 e zero.
Em agosto nenhuma pergunta cita qualquer agente político. O questionário caiu de 3.461 palavras em junho para 1.764.
Não faltou espaço. Em maio o instituto dedicou nove perguntas a apostas esportivas online, cassinos e endividamento. Em julho, nove perguntas à Copa do Mundo, ao técnico Carlo Ancelotti e a apostas durante a Copa.
Na primeira onda depois do registro de candidaturas, não coube uma única pergunta sobre um fato político.
Existe um desenho clássico para medir o dano eleitoral de um escândalo: contar o fato ao entrevistado, pedir um juízo, medir o efeito sobre o voto e perguntar o que o político deveria fazer. Em quatro ondas, ele foi aplicado uma vez, a um único político.
P.3 informaP.4 julgaP.8 sugere desistir
questionário de maio, páginas 3 e 4cartão 9 lista quatro substitutos
1138 charsA bateria. Vale a pena ver como se mede o custo eleitoral de um fato, porque o desenho é bom e é justamente por isso que a comparação importa.
Na onda de 20 e 21 de maio, o Datafolha aplicou sete perguntas seguidas sobre um único caso, na seguinte ordem.
Primeiro informou o fato ao entrevistado, com detalhe. Depois pediu o juízo moral: agiu bem ou agiu mal. Depois citou uma frase específica do diálogo divulgado e perguntou se as duas pessoas têm relação próxima.
Aí veio a medição do custo: você pensava em votar nele antes? E depois, a confiança aumentou, diminuiu ou não mudou?
E fechou perguntando se ele deveria manter a candidatura ou abrir mão e apoiar outro, com um cartão listando quatro substitutos possíveis.
Duas ressalvas que o método exige. A bateria vem depois das perguntas de voto, então não contamina o placar daquela onda: isso é bom desenho. E julho não foi unilateral, porque a bateria das tarifas nomeia Lula e permite responsabilizá-lo, inclusive como principal culpado.
O ponto não é que o instituto pergunte. É que esse desenho, em quatro meses, foi usado uma vez só, e em agosto não foi usado para nada.
quem pagou a pesquisa noticiou o caso até a véspera
10 matérias, 0 perguntas
Os contratantes noticiaram. O questionário não perguntou.
Esta pesquisa foi paga pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo. Entre 31 de julho e 17 de agosto os dois publicaram a abertura de três inquéritos, a fala do próprio presidente sobre o caso e a informação de que o adversário faria dele eixo de campanha.
31/07 a 17/0845 resultados na busca da Folha0 perguntas no campo de 18/08
buscas nos próprios veículos, com filtro de períodosearch.folha.uol.com.br e g1.globo.com/busca
1133 charsO contraste. Esta pesquisa foi paga pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo, e é aí que a comparação de pauta deixa de ser curiosidade metodológica.
Entre 31 de julho e 17 de agosto, os dois contratantes publicaram, com data e hora: a abertura do primeiro inquérito contra o filho do presidente, a autorização do terceiro, a fala do próprio presidente sobre o caso, e uma reportagem informando que o adversário faria do assunto ponto central da campanha.
A última delas saiu às 21h07 do dia 17. O campo começou na manhã do dia 18.
A busca do próprio jornal devolve 45 resultados para o tema entre 1º e 17 de agosto. O questionário aplicado nos dias 18 e 19 tem zero perguntas sobre isso.
Dois dias depois de publicar a pesquisa, a Folha escreveu que corrupção se tornou tema central da eleição.
E a defesa do instituto, dita por nós antes que alguém precise dizer: as mensagens da Polícia Federal que citam nominalmente o filho do presidente só vieram a público em 20 de agosto, depois de o campo fechar. Só que o caso não nasceu no dia 20, e em maio o instituto pegou um fato da semana anterior e o transformou em sete perguntas.
As células do relatório vêm arredondadas em número inteiro. Perturbando cada uma em meio ponto e refazendo a conta dez mil vezes, o sinal se mantém em todos os sorteios. E, das cinco margens testadas, quatro não mudam nada.
10.000 simulações100% invertem69,2% do caminho basta
10.000 sorteios com células perturbadas em ±0,5intervalo simulado: −1,96 a −1,61
938 charsA robustez. Toda conta boa precisa passar por um teste que poderia derrubá-la.
As tabelas do relatório vêm arredondadas em número inteiro. Um 55 pode ser qualquer coisa entre 54,5 e 55,5. Isso poderia, sozinho, explicar uma inversão apertada.
Então perturbamos cada célula em meio ponto para cima ou para baixo, renormalizamos as linhas e refizemos a conta dez mil vezes.
Flávio fica à frente em 100% dos sorteios. O intervalo simulado do saldo vai de −1,96 a −1,61. O achado não é sorte de arredondamento.
Segundo teste, mais duro. Fizemos o mesmo exercício com as outras quatro margens que o relatório publica.
Sexo: o saldo vai de +4 para +4,10. Idade: +3,95. Região: +4,00. Escolaridade: +5,09, ou seja, amplia a vantagem de Lula.
Quatro das cinco margens preservam a liderança publicada. Só a renda troca o sinal. Não estamos escolhendo a margem que dá o resultado que queremos: estamos relatando a única que muda alguma coisa.
Ninguém consegue julgar se um retrato do país está certo sem saber como o país é. A PNAD Contínua do IBGE é pública, gratuita e cobre renda, escolaridade, trabalho, cor e região. Nós processamos os microdados e publicamos o resultado aberto.
PNADC é públicamicrodados abertosnosso ensaio é gratuito
brasil.arvor.co · O Brasil em NúmerosIBGE, PNAD Contínua, microdados
1237 charsConheça o país. Esta é a parte que nenhuma thread de pesquisa costuma dizer.
Você não consegue julgar se o retrato de um instituto está certo sem saber como o Brasil é de verdade. E o Brasil de verdade está público.
A PNAD Contínua do IBGE é a maior pesquisa domiciliar do país. Ela visita mais de 150 mil domicílios, pergunta rendimento fonte por fonte, escolaridade, ocupação, cor e região, e publica os microdados de graça.
O problema é que microdado bruto tem quase dois gigabytes e não abre no Excel. Por isso nós processamos e publicamos o resultado aberto, com o código à vista, em brasil.arvor.co.
Lá está quanto o brasileiro realmente ganha por faixa de salário mínimo, quem estudou até onde entre os eleitores de 16 anos ou mais, e onde as pessoas moram e trabalham.
A edição que usamos aqui, a anual de 2025, entrevistou 408.364 pessoas em 152.488 domicílios.
Com esse perfil na mão você confere a régua de qualquer instituto, em qualquer eleição, sem depender de ninguém. Inclusive de nós.
E vale para muito além de pesquisa eleitoral. O mesmo hábito serve para orçamento público, inflação, emprego e dívida: os dados oficiais estão publicados, e quase toda discussão nacional acontece sem que ninguém abra a planilha.
Não é preciso ser estatístico. É preciso fazer seis perguntas, e todas têm resposta pública. Se alguma delas não tiver, isso também é informação.
leva dois minutostudo é públicovale para qualquer instituto
cada pergunta tem resposta no PesqElee as seis levam menos de dez minutos
989 charsComo ler uma manchete de pesquisa. Seis perguntas, todas com resposta pública.
Um. A margem citada é de cada número ou da diferença entre dois? Vantagem de quatro pontos com margem de dois não é liderança estabelecida.
Dois. Qual retrato do país foi usado para pesar as respostas? Procure renda e escolaridade no registro do TSE, e olhe o ano da fonte.
Três. O que está no anexo e não virou manchete? Os cruzamentos quase sempre contam uma história mais rica que o topline.
Quatro. O instituto publicou o efeito de desenho? Amostra colhida em conglomerados tem incerteza maior que a fórmula simples da capa.
Cinco. Quais perguntas foram aplicadas e não publicadas? Basta comparar o questionário registrado com o relatório divulgado.
Seis. A manchete usa verbo de causa? Derrapa, dispara e reage quase sempre descrevem oscilação dentro da margem.
Seis perguntas, dez minutos, nenhuma conta difícil. É o suficiente para você parar de ser leitor de manchete e virar leitor de pesquisa.
O Datafolha já publica muito mais do que a maioria. Os cinco itens abaixo custam pouco, não expõem nenhum entrevistado e encerrariam metade das discussões públicas sobre pesquisa no Brasil.
não expõe ninguémcusto baixovale para todos os institutos
nenhum item exige microdado individuale todos cabem em duas páginas do relatório
972 charsO que exigir dos institutos. E é preciso começar reconhecendo: o Datafolha publica muito mais do que a maioria. Relatório completo, questionário, plano amostral, municípios e notas fiscais.
Faltam cinco coisas. Nenhuma delas expõe qualquer entrevistado e todas cabem em duas páginas.
O efeito de desenho de cada estimativa. Uma linha por tabela, e a margem publicada passa a ser a margem verdadeira.
A distribuição dos pesos. Média, mínimo, máximo e dispersão. Isso mostra quanto trabalho o peso está fazendo, sem identificar ninguém.
O ano e a tabela exata do benchmark de renda e escolaridade. Qual PNAD, qual variável, qual universo.
As perguntas que foram aplicadas e não publicadas, ou a razão de não publicar.
E o cruzamento do voto de primeiro turno com o de segundo, que é a única forma de medir transferência sem estimar nada.
Isso não é ataque a instituto. É a diferença entre uma pesquisa que pode ser conferida e uma pesquisa em que é preciso acreditar.
Nada nesta thread foi vazado, hackeado ou obtido em off. Tudo saiu de arquivos que qualquer pessoa baixa de graça, com uma média ponderada de três linhas. O que faltava não era acesso. Era conta.
51 páginas públicastrês linhas de contacódigo aberto
dossiê completo em brasil.arvor.coscripts e dados abertos, sem paywall
1167 charsO fecho.
Nada nesta thread foi vazado, hackeado ou conseguido em off. Cada número saiu de um arquivo público, baixado de graça do sistema do TSE, e de uma média ponderada de três linhas que cabe numa planilha.
O que faltava não era acesso. Era conta.
É por isso que este trabalho é publicado com os scripts abertos e com as limitações declaradas antes das conclusões. Se algum número aqui estiver errado, ele é falsificável em vinte minutos, e é assim que tem de ser.
A disputa que importa não é entre pessoas. É entre uma leitura pública que cabe numa manchete e uma leitura pública que exige dez minutos de aritmética. A primeira é barata de produzir e cara de desfazer. A segunda está ao alcance de qualquer eleitor que decida olhar.
Quanto mais gente aprender a abrir o anexo, conferir a régua e refazer a média, menos poder tem quem depende de que ninguém confira.
Se você chegou até aqui, já sabe mais sobre leitura de pesquisa do que a maior parte de quem comenta pesquisa. Use isso na próxima manchete que aparecer, inclusive nas nossas.
O dossiê completo, com dezesseis capítulos, está em brasil.arvor.co. Os dados e os scripts também. Refaça a conta.