Logotipo ArvorArvor Intelligence Auditoria eleitoral · peça n.º 09 · 31/07/2026

Datafolha · julho de 2026 · perícia documental, estatística e territorial

48×43 é a manchete.45×45 é o interior.

O placar nacional de segundo turno dá cinco pontos a Lula. Nos próprios cruzamentos do relatório, toda essa vantagem é metropolitana: nas capitais e regiões metropolitanas Lula faz 52×39; no interior, onde vivem 1.217 dos 2.004 entrevistados, o placar é 45×45. A pesquisa também mede um Brasil que quase ninguém cita: os 1.006 eleitores sem partido, metade da amostra, onde Flávio abre 48×35. E o mapa de onde tudo isso é medido é quase sempre o mesmo: 139 municípios, 137 deles já publicados no anexo de junho, um mês antes de o campo de julho começar. Por fim, a régua: a amostra tem 52% na faixa até dois salários mínimos contra 35,4% na PNAD Contínua, e trocar só essa margem leva o segundo turno a 45,4 × 45,3.

45×45 interior · n=1.217 −5,11 pp contribuição das metrópoles 118 cidades fixas nas 3 ondas 98,6% do mapa de julho já estava publicado 50,88% Bolsonaro em 2022 no painel 16,6 pp a amostra mais pobre que a PNAD
Registro
BR-01166/2026
Data do registro
18/07/2026
Campo
22–24/07/2026
Divulgação
24/07/2026
Amostra
2.004 eleitores
Municípios
139 (2,5% do país)
Método
Pontos de fluxo
Contratante
Folha de S.Paulo
Valor
R$ 307.541,60
Fato 48 × 43

Placar ponderado de segundo turno. A margem de 95% da diferença sob amostragem aleatória simples é ±4,17 pontos.

Fato 45 × 45

Segundo turno no interior, base de 1.217 entrevistas — 60,7% da amostra. A contribuição do interior para o saldo nacional é zero.

Achado 118 de 139

Municípios presentes nas três ondas com a mesma cota de entrevistas em cada uma. É um painel fixo, público e previsível.

Sensibilidade 45,4 × 45,3

Segundo turno com a distribuição de renda da PNAD Contínua no lugar da distribuição da amostra. Uma margem trocada, cinco pontos evaporados.

Veredito Opaco ≠ fraude

Há inconsistências documentais e transparência insuficiente. Não há, nos arquivos examinados, prova de fabricação ou de escolha enviesada de cidades — testamos e a hipótese caiu.

Cap. 01

A diferença cabe num dado que falta

A margem de ±2 publicada pelo instituto descreve uma proporção isolada no pior caso sob amostragem aleatória simples. Ela não é a incerteza da diferença Lula−Flávio e não incorpora, por si, cotas, conglomerados, pontos de fluxo nem pesos.

48Lula (PT)
VERSUS
43Flávio (PL)
Primeiro turno

40 × 32

A margem AAS da diferença é ±3,70; seria necessário efeito de desenho de cerca de 4,68 para o intervalo tocar zero. É um saldo bem mais robusto que o do segundo turno.

Votos válidos

45 × 36

Excluindo branco, nulo e não sabe. Esse denominador não deve ser misturado com os 40×32 sobre o total da amostra.

Rejeição

48 × 46

Flávio é rejeitado por 48% e Lula por 46%. Guarde este par: no capítulo 02 ele se inverte.

Sob AAS

A vantagem é positiva por pouco

Tratando as duas preferências como categorias da mesma amostra, a margem de 95% da diferença é ±4,17 p.p. O intervalo do saldo de cinco pontos vai de +0,83 a +9,17. Sob essa hipótese simplificada, não é correto chamar automaticamente de empate técnico.

Desenho real

O resultado muda com deff modesto

A coleta usa estratos, seleção de municípios, pontos de fluxo, cotas e ponderação. Se o efeito de desenho da diferença for 1,44 ou maior, o intervalo inclui zero. É plausível, mas não demonstrável sem pesos, estratos e conglomerados.

Var(pL − pF) = [(pL + pF) − (pL − pF)²] / n
MOE95 = 1,96 × √[(0,48 + 0,43 − 0,05²) / 2.004] = 4,17 p.p.
deff-limite = (5 / 4,17)² = 1,44
deff de conglomerado (Kish) = 1 + (m − 1)ρ, com m = 6 ⇒ ρ-limite = 0,088

O que 1,44 significa no chão

O anexo territorial mostra que a coleta é feita em blocos de seis entrevistas por setor censitário (cap. 05). Com conglomerados desse tamanho, o efeito de desenho de Kish é 1 + (m−1)ρ. Para chegar a 1,44 basta uma correlação intraclasse de ρ = 0,088 — valor baixíssimo para vizinhos de um mesmo setor censitário, que compartilham renda, escolaridade e ambiente político. Já apagar os oito pontos do primeiro turno exigiria ρ = 0,736, o que seria absurdo. Fato a álgebra e o tamanho do bloco. Hipótese o valor real de ρ, que só o instituto pode calcular.

Conclusão calibrada

Lula lidera numericamente. A liderança é significativa somente sob a hipótese de amostragem aleatória simples. No desenho realmente usado, a conclusão sobre significância permanece indeterminada porque o instituto não publicou deff, variância por conglomerado, distribuição dos pesos ou tamanho amostral efetivo.

Série de segundo turno Lula × Flávio Bolsonaro no Datafolha
RodadaLulaFlávioSaldoLeitura prudente
Jun/20254738+9Vantagem ampla
Jul/20254837+11Vantagem ampla
Dez/20255136+15Pico da série
Mar/20264643+3Convergência
Abr/20264645+1Equilíbrio
12–13/mai45450Empate pontual
20–21/mai4743+4Diferença pequena
17–18/jun4743+4Estabilidade
22–23/jul4843+5Flávio estável; Lula +1

De junho para julho: +1 para Lula e zero para Flávio no segundo turno; no primeiro turno, Lula vai de 41 a 40 e Flávio de 31 a 32. Todas essas variações de uma onda estão dentro do erro. A série sustenta polarização estável, não uma queda identificável de Flávio na rodada.

Cap. 02

A vantagem de Lula é metropolitana

A página 32 do relatório traz um recorte que nenhuma manchete usou: natureza do município. Capital e região metropolitana somam 787 entrevistas; o interior, 1.217. Separados, são duas eleições diferentes — e só uma delas está decidida.

Ponto de fluxo · interior Praça central de uma cidade do interior de Minas Gerais, com bancos, árvores e igreja ao fundo
Praça da Matriz, Conselheiro Pena (MG). É neste tipo de lugar — praça, feira, calçadão, terminal — que 60,7% da amostra nacional do Datafolha é coletada. Foto: HVL, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.
45×45segundo turno no interior (n=1.217)
52×39segundo turno em capital + RM (n=787)
0,00 ppcontribuição do interior ao saldo nacional
−5,11 ppcontribuição de capital + RM ao saldo nacional
Aritmética, não opinião

O saldo nacional Flávio−Lula é de −5 pontos. Decomposto por natureza do município, −5,11 vêm de capital e região metropolitana e 0,00 vem do interior. Não é uma interpretação: é a média ponderada dos dois grupos reproduzindo o número que a Folha publicou.

Capital + Região Metropolitanan=787 · 39,3% da amostra −5,11 pp
Interiorn=1.217 · 60,7% da amostra 0,00 pp
Saldo nacional Flávio−Lulatopline publicado −5 pp

Escala: a metade do trilho equivale a 20 pontos percentuais de contribuição. A decomposição é descritiva — mostra de onde vem aritmeticamente o saldo, não por que ele existe.

Primeiro turno

38 × 35

No interior, a distância de primeiro turno é de apenas três pontos. Em capital e região metropolitana, é de quinze: 43 × 28. O “oito pontos de vantagem” nacional é a média de duas realidades muito distintas.

Rejeição invertida

46 × 48

A manchete nacional diz que Flávio é o mais rejeitado (48% contra 46%). No interior, os números se invertem: Flávio 46, Lula 48. Em capital e RM, Flávio 51 e Lula 44.

Mercado aberto

39% sem nome

Na pergunta espontânea, 39% dos eleitores do interior não citam nenhum nome, contra 34% nas metrópoles. Lula é citado por 28% e Flávio por 17%. Há um estoque enorme de eleitor sem candidato formado.

O que isso não prova

“Interior” aqui é a categoria do próprio Datafolha (município que não é capital nem integra região metropolitana), não uma definição do IBGE aplicada por nós. Também não se pode ler o empate no interior como equivalente ao resultado que uma eleição real produziria: as bases são ponderadas, o desenho não é aleatório simples e o intervalo de 95% do interior sob AAS vai de −5,3 a +5,3. O que se pode afirmar com segurança é aritmético: sem as metrópoles, o saldo nacional desaparece.

Cap. 03

A metade do Brasil que não tem partido

1.006 dos 2.004 entrevistados dizem não ter nenhum partido. É o maior recorte isolado da pesquisa — maior que o Sudeste, maior que os católicos, o dobro do PT. Nesse bloco, Flávio ganha por treze pontos e Lula é o mais rejeitado do país.

1.006eleitores sem partido — 50,2% da amostra
48×35segundo turno nesse bloco (Flávio +13)
55×39rejeição: Lula 55, Flávio 39
53%não citam nenhum nome espontaneamente
LulaFlávio
PT · n=48598 × 2
PL · n=2202 × 98
Outro partido · n=29342 × 51
Nenhum partido · n=1.00635 × 48
Sinal robusto

deff-limite 5,44

A vantagem de treze pontos de Flávio entre os sem-partido tem intervalo de 95% sob AAS de +7,4 a +18,6. Seria preciso um efeito de desenho de 5,44 — muito acima do plausível — para o sinal desaparecer. É um dos achados mais resistentes da rodada, ao lado de Nordeste, fundamental e evangélicos.

O paradoxo do bloco

Preferência sem lembrança

O mesmo grupo que dá 48% a Flávio no segundo turno cita espontaneamente Lula (15%) e Flávio (13%) quase no mesmo patamar, e 53% não citam ninguém. É preferência ativada por estímulo, não identidade consolidada. É o eleitorado mais volátil e o mais decisivo.

O risco simétrico

Um bloco que decide por rejeição pode virar para qualquer lado. Ele rejeita Lula (55%) mais do que rejeita Flávio (39%), mas 15% dele vota em branco ou nulo no segundo turno — mais que a média nacional de 9%. Metade da eleição está em disputa entre um candidato e a abstenção, não entre dois candidatos.

Cap. 04

Para onde vai o voto quando a eleição afunila

Entre o primeiro e o segundo turno, cerca de dezoito pontos são liberados: catorze de candidatos eliminados e quatro de indecisos que decidem. Os totais das barras são o que o Datafolha publicou. A repartição entre elas, não — e é por isso que cada fita aqui está hachurada.

! O Datafolha não publica matriz de transição. Nenhum elo do diagrama abaixo foi medido: a repartição é modelo, não medição. Só os totais de cada barra — 40, 32, 4, 3, 3, 2, 1, 1, 1, 8 e 3 no primeiro turno; 48, 43, 9 e 1 no segundo — são números publicados. O que estimamos é uma matriz de afinidade ajustada por IPF/RAS até fechar exatamente nessas margens.
A prova cruzada: os três cenários de 2º turno da mesma amostra
CenárioLulaAdversárioBranco/nuloNão sabeO que a comparação mede
A · Lula × Flávio484391Referência
B · Lula × Caiado4740112Adversário perde 3; branco/nulo sobe 2
C · Lula × Zema4840102Adversário perde 3; branco/nulo sobe 1

Três perguntas, a mesma amostra, os mesmos pesos, a mesma semana. É o experimento mais próximo de uma medição de transferência que existe nesta pesquisa — e ele não é estimativa, é topline publicado.

Medido

Lula não se move

47, 48 e 48 nos três cenários. O teto de Lula não depende de quem está do outro lado. Quem varia é o bloco adversário — o que significa que a disputa de segundo turno é uma disputa interna da oposição, não uma disputa pelo eleitor de Lula.

Medido

3 pontos que só Flávio tem

O bloco anti-Lula rende 43 com Flávio e 40 com Caiado ou Zema. A diferença não vai para Lula, que fica onde estava: vai para branco e nulo, que sobe de 9 para 11 e 10. É a fidelidade da base bolsonarista, observada e não suposta.

O que isso valida

A premissa da matriz

Se a base de Flávio cruzasse para Lula, Lula subiria quando o adversário fosse outro. Ele não sobe. Isso sustenta a premissa ideológica do diagrama abaixo — base própria fiel, cruzamento para o campo oposto próximo de zero, vazamento indo para a não-escolha — sem precisar assumi-la por fé.

Transferência estimada de 1º para 2º turno

Barras: fato · fitas: inferência
destino Lula destino Flávio branco, nulo e não sabe hachura = fluxo estimado, não medido
Método em cinco passos, o mesmo em toda pesquisa de 1º turno que auditamos: (1) só os toplines entram como fato; (2) os cenários alternativos de 2º turno viram restrição observada, porque medem quanto o bloco perde quando troca de líder; (3) a matriz a priori é construída sobre o eixo ideológico declarado — base própria fiel, candidatura do mesmo campo migrando majoritariamente para o líder do campo, cruzamento para o campo oposto próximo de zero e vazamento para branco/nulo concentrado em quem perde o líder; (4) o iterative proportional fitting ajusta essa prior às margens publicadas por mínima entropia cruzada, com as origens do 1º turno reescaladas de 98 para 101 pontos; (5) publica-se com barra sólida para o medido e fita hachurada para o estimado. É leitura agregada: não descreve o percurso de nenhum eleitor individual. Reprodução em scripts/datafolha-072026-graficos.py.
+10,1pontos que Flávio consolida fora da própria base
+6,8pontos que Lula consolida fora da própria base
1,48 : 1razão de consolidação em julho
2 : 1a mesma razão em junho — a vantagem encolheu
A direita pulverizada

Afluentes do mesmo rio

Pelo modelo, Caiado entrega cerca de 2,2 dos seus 4 pontos a Flávio, Renan 1,9 de 3, Zema 1,8 de 3, Cury 1,1 de 2 e Daciolo praticamente o ponto inteiro. Nenhuma dessas candidaturas chega a um dígito no primeiro turno, mas somadas valem mais que a distância do segundo.

O vazamento

5,1 pontos que não voltam

O maior fluxo isolado que não vai para candidato nenhum é o branco e nulo que permanece branco e nulo. Somado ao que Caiado, Zema e Renan perdem para a não-escolha, o branco/nulo sobe de 8 para 9 justamente quando a eleição deveria estar polarizando.

O indeciso que decide

1,0 × 0,6

Dos três pontos de “não sabe” do primeiro turno, sobra um no segundo. Quem decide pende levemente para Lula. Ou seja: o ganho de Flávio não vem do indeciso — vem inteiramente da direita que se dispersou no primeiro turno.

O limite deste diagrama

Qualquer matriz que respeite as margens publicadas reproduz os mesmos totais. A nossa parte de premissas explícitas — base própria fiel, Daciolo e Cury majoritariamente para Flávio, Samara para Lula, branco/nulo alimentado sobretudo pelas candidaturas de direita eliminadas — e o ajuste apenas garante coerência aritmética, não veracidade. A razão de consolidação em torno de 1,5:1 é robusta à escolha da prior, porque é imposta pelas margens; o corte candidato a candidato não é. Com a matriz de transição que o instituto tem e não publica, esta seção seria medida em vez de estimada.

Cap. 05

O Brasil não está empatado consigo mesmo

O placar nacional esconde duas coalizões sociais quase espelhadas. A clivagem mais forte não é uma oscilação de um ponto: é renda, escolaridade, região, religião, cor, idade e posição no mercado de trabalho.

Retrato oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
48Baixa renda, fundamental, Nordeste, 60+, católicos, donas de casa e aposentados. Foto: Ricardo Stuckert/PR, CC BY 2.0.
Foto oficial do senador Flávio Bolsonaro
432 a 10 salários, Sul, 35–44, evangélicos, empresários, brancos e sem-partido. Foto: Agência Senado.
LulaFlávio
Até 2 SM · n=1.00256 × 36
2–5 SM · n=67839 × 50
Fundamental · n=59459 × 34
Superior · n=50939 × 48
Nordeste · n=55262 × 29
Sul · n=29436 × 52
Mulheres · n=1.04550 × 40
35–44 · n=39338 × 53
60+ · n=48355 × 37
Católicos · n=98854 × 37
Evangélicos · n=49531 × 60
Parda · n=91651 × 41
Branca · n=71540 × 50
Preta · n=29054 × 34
Segundo turno por ocupação — página 25 do relatório
OcupaçãoLulaFlávioBaseContribuição ao saldoLeitura
Assalariado com registro4046497+1,49Carteira assinada pende a Flávio
Assalariado sem registro4939127−0,63Informal pende a Lula; base pequena
Funcionário público4742136−0,34Intervalo inconclusivo
Autônomo, liberal e bico4347478+0,95Quase empate, base grande
Empresário276588+1,67Sinal forte, base pequena
Desempregado543474−0,74Base pequena
Dona de casa6134167−2,25Sinal forte
Aposentado6035294−3,67Sinal forte; coerente com 60+
Onde o saldo nasce e onde ele morre — contribuição aritmética por recorte
RecorteFlávio−LulaBaseIC95% AASDeff p/ zeroContribuição
Nordeste−33552−40,5 a −25,519,53−9,09
Católicos−17988−22,9 a −11,28,44−8,38
Fundamental−25594−32,5 a −17,511,14−7,41
Mulheres−101.045−15,7 a −4,33,06−5,21
Capital + RM−13787−19,6 a −6,43,88−5,11
Parda−10916−16,2 a −3,82,62−4,57
Evangélicos+29495+21,0 a +37,013,12+7,16
Sem partido+131.006+7,4 a +18,65,44+6,53
Branca+10715+3,1 a +16,92,09+3,57
Interior01.217−5,3 a +5,30,00
Acima de 10 SM+651−20,8 a +32,80,05ruído

As dimensões se sobrepõem: a mesma pessoa pode ser mulher, nordestina, católica, parda e do interior. Somar os eixos seria erro grosseiro. “Deff para zero” é quanto o desenho precisaria inflar a variância para o intervalo tocar zero — quanto maior, mais resistente é o sinal. Recortes com base abaixo de 200 (10+ SM, desempregados, empresários) descrevem tendência, não medida.

Diagnóstico público

O eixo material é nítido, mas o maior buraco isolado de Flávio não é renda: é religião. Católicos custam −8,38 pontos de contribuição; evangélicos devolvem +7,16. As duas maiores bases da pesquisa — católicos (988) e sem-partido (1.006) — puxam em direções opostas com força quase idêntica. Isso descreve coalizões, não causalidade: sem microdados não é possível dizer se religião explica renda, se região explica religião, nem construir fluxos individuais a partir de totais agregados.

Cap. 06

As mesmas 139 cidades, mês após mês

O anexo territorial das três rodadas mostra um padrão que ninguém comentou: os municípios praticamente não mudam, e a cota de entrevistas de cada um é idêntica em maio, junho e julho. O Brasil que o Datafolha mede é um painel fixo, publicado, de 139 cidades.

118municípios nas três ondas, com a mesma cota em cada uma
87,4%das entrevistas de julho ocorrem nesse painel fixo
2municípios trocados de junho para julho — ambos em SP
30,2%do eleitorado nacional vive nos 139 municípios
Cota congelada

6 por setor

Em julho, 328 das 331 linhas do anexo trazem exatamente 6 entrevistas; três trazem 12. São Paulo recebe 132 entrevistas em maio, em junho e em julho. Rio, 72 nas três. Salvador, Fortaleza, BH e Brasília, 36 cada, sempre.

Bloco de seis é conglomerado. Pela fórmula de Kish, basta ρ = 0,088 de correlação intraclasse dentro do setor para o efeito de desenho chegar a 1,44 — o valor que faz o 48×43 tocar o empate.

Duas UFs ausentes

25 de 27

Amapá e Roraima não recebem nenhuma entrevista — juntos, 0,62% do eleitorado. O Amazonas, ao contrário, aparece com 2,99% da amostra para 1,78% do eleitorado; Mato Grosso, com 0,60% para 1,67%.

Concentração

23,4% em 11 cidades

As onze maiores concentram 468 entrevistas. As 30 menores cidades do painel somam 360 entrevistas para 368 mil eleitores — cada entrevista ali “carrega” pouco mais de mil eleitores; na média nacional, 78.766.

O mapa que a Folha publica todo mês

Cada círculo é um município do anexo de julho. Horizontal: voto em Bolsonaro no 2º turno de 2022 (TSE). Vertical: eleitorado atual (escala logarítmica). Área: entrevistas em julho. Cor: região. Círculos cheios estão nas três ondas; translúcidos, não.

MunicípioUFEntrevistasEleitoresBolsonaro 2022
Ponto de fluxo · terminal Interior de um terminal rodoviário no interior de Minas Gerais
Terminal rodoviário de Coronel Fabriciano (MG). Ponto de fluxo é a técnica declarada no registro: aborda-se quem está passando, não quem está em casa. Foto: HVL, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

Bairro não é unidade amostral — setor é

Dentro das cidades fixas, os setores censitários giram. De maio para junho, 77,0% dos setores se repetiram; de junho para julho, apenas 20,9%. Só 44 setores aparecem nas três rodadas. Ou seja: o painel é de municípios, não de setores — e a crítica de “mesmos bairros” só se sustenta pelo geocódigo de 15 dígitos, não pelo rótulo do bairro (que repete 51,7%).

Inconsistência objetiva

O setor 130083905000015, em Caapiranga/AM, aparece duas vezes no anexo de julho: uma como Centro e outra como Nossa Senhora das Graças, com seis entrevistas em cada linha. Em junho, esses bairros estavam ligados a setores terminados em 014 e 015. Pode ser erro de digitação, agregação ou outro problema documental; o instituto precisa corrigir ou explicar.

Registro 16/05 · campo 20–22/05 · divulgação 22/05

334 linhas, 331 setores únicos, 139 municípios, 2.004 entrevistas.

Registro 13/06 · campo 17–19/06 · divulgação 19/06

331 linhas, 331 setores únicos, 139 municípios. 120 dos municípios e 77,0% dos setores vinham de maio.

Registro 18/07 · campo 22–24/07 · divulgação 24/07

331 linhas, 330 setores únicos, 139 municípios. 137 municípios repetem junho; só 69 setores repetem.

A antecipação vem da repetição, não do prazo

Fato o anexo territorial de cada rodada não é público antes do campo. O próprio registro de julho, protocolado em 18/07, declara que “a relação completa dos municípios e bairros pesquisados será anexada ao registro até o dia seguinte à data de publicação da pesquisa, conforme Resolução 23.600/2019 do TSE, no art. 2º, §7º”. O mapa de julho entrou no ar depois do campo, não antes.

Fato o que é público antes do campo é o registro: datas, tamanho da amostra, contratante, valor, questionário e o plano amostral em termos gerais.

Inferência a previsibilidade da geografia não depende disso. O anexo de junho, público desde 19/06, já continha 137 dos 139 municípios de julho. Quem quisesse saber onde a rodada seguinte seria coletada não precisava esperar o anexo novo: bastava ler o antigo.

Consequência de auditoria como o anexo só chega depois da divulgação, não existe prova pública de que a amostra estava definida antes do campo. É isso que o depósito prévio sob resumo criptográfico resolveria.

Cap. 07

Testamos a suspeita. Ela não sobreviveu.

A hipótese natural diante de um painel fixo é a mais grave: teriam escolhido cidades convenientes e travado nelas? A pergunta merece resposta com dados, não com adjetivo. Cruzamos os 139 municípios com o resultado oficial do 2º turno de 2022, voto a voto.

50,88%voto em Bolsonaro em 2022, somando os 139 municípios
49,10%voto em Bolsonaro em 2022 no Brasil inteiro
49,33%o mesmo painel, ponderado pelas entrevistas de julho
78 de 139cidades onde Bolsonaro venceu — 53,9% das entrevistas
Hipótese derrubada

O painel não é anti-Bolsonaro

Somados, os 139 municípios votaram 1,78 ponto mais em Bolsonaro que o Brasil. A mediana municipal do painel é 53,67% para Bolsonaro. Ponderando cada cidade pelo número de entrevistas que ela recebe — que é como o painel efetivamente pesa —, o terreno fica em 49,33%, praticamente colado ao resultado nacional de 49,10%.

Traduzindo: não há evidência de que o Datafolha tenha escolhido cidades para forçar um resultado. Quem quiser sustentar essa acusação precisa de outra prova, porque esta não existe nos números.

O que sobra, e é mais grave

Previsível não é o mesmo que enviesado

O problema real não é quais cidades foram escolhidas. É que são as mesmas, com as mesmas cotas, e que o anexo de cada rodada, ao ser publicado, entrega a geografia da rodada seguinte. Um painel fixo tem virtude estatística, porque reduz a variância entre ondas e melhora a comparabilidade, e tem um custo de integridade, porque torna a medição previsível para quem lê o anexo anterior.

Nenhuma das duas propriedades está declarada no relatório. Não há uma linha sobre protocolo de rotação, probabilidade de inclusão do município, ou por que Amapá e Roraima nunca entram.

Extremos do painel em 2022 — voto nominal válido no 2º turno presidencial
Mais bolsonaristasBolsonaro 2022Mais lulistasBolsonaro 2022
Corupá/SC78,4%Aurora/CE15,6%
Joaçaba/SC72,6%Dormentes/PE21,1%
Rio Branco/AC72,5%Remígio/PB21,8%
Criciúma/SC72,0%Joaquim Pires/PI22,1%
Navegantes/SC70,1%Afogados da Ingazeira/PE22,1%
Marília/SP69,4%Brotas de Macaúbas/BA22,1%
A leitura que importa

O terreno onde o Datafolha mede o Brasil é um terreno que Bolsonaro venceu em 2022 na maioria das cidades — 78 de 139, com 1.080 das 2.004 entrevistas. É exatamente por isso que os 43% de Flávio devem ser lidos como desempenho abaixo do terreno herdado, e não como sabotagem amostral. A distância entre o que o território deu em 2022 e o que a pesquisa mede em 2026 é a medida do trabalho que falta — e é um trabalho de chão, não de tribunal.

Cap. 08

A amostra é mais pobre que o país que ela mede

O Datafolha publica o próprio perfil de renda: metade da amostra ponderada declara renda familiar de até dois salários mínimos. A PNAD Contínua, que mede rendimento domiciliar com microdado e peso calibrado, diz outra coisa. Trocar essa régua — e só ela — muda o placar.

52,0%da amostra do Datafolha, na faixa até 2 SM
42,9%dos domicílios brasileiros, pela PNAD
35,4%das pessoas de 16 anos ou mais, pela PNAD
3,2×mais gente acima de 10 SM na PNAD do que na amostra

A mesma faixa, três réguas

Fato · distribuição medida
até 2 SM 2 a 5 SM 5 a 10 SM 10+ SM
Como ler: cada coluna é 100% do universo. À esquerda, a composição da amostra do Datafolha pelas bases publicadas dos cruzamentos; ao centro e à direita, a PNAD Contínua anual de 2025 (visita 1), rendimento domiciliar deflacionado para abril de 2026 e convertido em salários mínimos. As fitas mostram para onde cada faixa se desloca quando a régua muda. Fonte: scripts/datafolha-072026-renda.py.
Validação antes de mexer

47,9 × 42,8

Aplicando as próprias margens de renda do Datafolha ao próprio cruzamento publicado, chegamos a Lula 47,9 e Flávio 42,8 — o 48×43 divulgado. A máquina de cálculo reproduz o resultado oficial antes de qualquer alteração. Só depois disso faz sentido trocar a distribuição.

O deslocamento

16,6 pontos

É a distância entre a fatia de até 2 SM na amostra (52,0%) e nas pessoas de 16 anos ou mais da PNAD (35,4%). Como Lula faz 56×36 nessa faixa e perde em todas as outras, essa diferença de composição não é neutra: ela é praticamente todo o saldo nacional.

Troque a régua de renda e as linhas se cruzam

Inferência · sensibilidade de margem única
Atenção: isto não é um resultado eleitoral nem uma correção oficial da pesquisa. É a resposta a uma pergunta específica — quanto do 48×43 depende de a amostra ser economicamente mais pobre que o Brasil medido pela PNAD. Reponderação de margem única, sem interações e sem microdados individuais.
Cenários de reponderação por renda — 2º turno e 1º turno
Régua de rendaAté 2 SM2T Lula2T Flávio2T saldo1T Lula1T Flávio1T saldo
Datafolha · bases do cruzamento52,05%47,9142,84Lula +5,0739,7732,59Lula +7,18
Datafolha · perfil ponderado (pág. 13)52,08%47,8842,83Lula +5,0539,7132,60Lula +7,11
PNAD · domicílios (VD5001)42,93%46,5844,20Lula +2,3838,9433,28Lula +5,66
PNAD · pessoas de 16 anos ou mais35,44%45,3645,29empate · Lula +0,0737,9333,95Lula +3,98
PNAD · pessoas 16+ (renda habitual, VD5007)35,12%45,2945,33Flávio +0,0437,8234,01Lula +3,81

A unidade importa. Se a régua correta for o domicílio, a vantagem de Lula cai pela metade. Se for a pessoa de 16 anos ou mais — que é exatamente o universo declarado da pesquisa, “eleitores com 16 anos ou mais” —, ela desaparece. As duas variantes de rendimento domiciliar da PNAD (efetivo e habitual) dão o mesmo desenho, o que indica que o resultado não depende da escolha da variável.

A direção do erro tem precedente

Na véspera do segundo turno de 2022, o Datafolha publicou Lula 52 × Bolsonaro 48 em votos válidos (registro BR-08297/2022). A urna deu 50,90 × 49,10 — número que recalculamos, voto a voto, no capítulo 06. A diferença publicada era o dobro da real, e o erro foi todo na mesma direção que a composição de renda corrige. Isso não prova que o erro de 2022 tenha sido causado pela renda: prova que a direção do viés de composição e a direção do erro observado coincidem, e que testar essa margem é obrigação de quem lê pesquisa.

O que este exercício não prova

Não prova que Flávio esteja empatado com Lula hoje. Prova que o “Lula +5” não sobrevive à troca de uma única margem por uma fonte oficial mais recente. Renda declarada em ponto de fluxo não é rendimento domiciliar medido pela PNAD; 3,9% da amostra não declarou renda; e reponderar uma margem isolada ignora que renda, região, escolaridade e religião andam juntas. Com microdados e pesos individuais — que o instituto não publica — o cálculo correto seria uma calibração multivariada, não esta.

Cap. 09

A amostra é plausível. Os pesos são invisíveis.

Sexo, idade e região ficam próximos do eleitorado do TSE. A fragilidade não é uma aberração demográfica evidente: é não ser possível reconciliar amostra bruta, metas registradas, distribuição ponderada e resultado final.

Perfil final Datafolha versus eleitorado TSE de julho/2026, Brasil sem exterior
VariávelMeta registradaDatafolha ponderadoTSELeitura
Homens48%48%47,18%Próximo
Mulheres52%52%52,82%Próximo
16–2413%13%12,52%Próximo
25–3420%18%19,05%Abaixo da meta; pesos não explicados
35–4420%20%19,74%Próximo
45–5925%25%25,42%Próximo
60+22%24%23,27%Acima da meta; próximo do TSE
Sudeste42%42,02%Colado ao TSE
Nordeste28%27,58%Próximo
Sul15%14,48%Próximo
Norte + Centro-Oeste16%15,91%Próximo
Onde o perfil se afasta: renda familiar contra a PNAD Contínua 2025
Faixa de renda familiarDatafolha ponderadoPNAD domicíliosPNAD pessoas 16+DistânciaLeitura
Até 2 SM52,05%42,93%35,44%+16,6 ppAmostra muito mais pobre que o universo declarado
Mais de 2 a 5 SM35,22%35,69%39,23%−4,0 ppFaixa mais próxima entre as três réguas
Mais de 5 a 10 SM10,08%14,23%16,91%−6,8 ppClasse média sub-representada
Mais de 10 SM2,65%7,15%8,42%−5,8 ppA PNAD tem 3,2× mais gente aqui

Distância = Datafolha menos PNAD pessoas de 16 anos ou mais, que é o universo declarado da pesquisa (“eleitores com 16 anos ou mais”). Enquanto sexo, idade e região ficam a menos de um ponto do TSE, a renda se afasta em 16,6 pontos na faixa que mais decide o resultado. O efeito disso no placar está no capítulo 07.

Ponto forte

Perfil clássico coerente

Não aparece desvio grosseiro de sexo, idade ou macro-região. Isso reduz uma hipótese simples de viés composicional, embora não teste a seleção dentro do ponto de fluxo.

Renda

50% até 2 salários

A meta registrada era 48%; o perfil ponderado fica em 50%. A PNAD anual dá referências diferentes conforme a unidade: cerca de 42,9% dos domicílios ou 35,4% das pessoas de 16 anos ou mais. “Renda familiar declarada” não é idêntica a nenhuma delas.

Não é correção

Reponderar é sensibilidade

Como Lula faz 56×36 até 2 SM e Flávio 50×39 entre 2–5 SM, trocar apenas a distribuição marginal de renda tem direção previsível. Mas, sem microdados e interações, isso não produz o “resultado real” e não prova viés.

O que o relatório não permite calcular

Não há peso final individual, mínimo/máximo/CV dos pesos, efeito de desenho de Kish, tamanho efetivo, identificador de estrato ou conglomerado, probabilidade de seleção no ponto, taxa de abordagem, elegibilidade, recusa, substituição, distribuição por dia e horário ou duração. A checagem mínima de 20% do material de cada entrevistador é positiva, mas verifica execução; não resolve cobertura nem não resposta. Nada disso é ilegal: a norma vigente simplesmente não exige.

Cap. 10

A intenção de voto vem primeiro. O verbo é edição.

O principal mérito do instrumento é a ordem: espontânea, estimulada, rejeição e segundo turno vêm antes do bloco político-temático. As perguntas sobre prisão, tarifas e imprensa não podem ter contaminado os toplines que as antecedem. O problema aparece depois, na forma de algumas perguntas e na tradução jornalística de outras.

Ordem

Voto antes do tema

Protege o placar principal de priming posterior. É uma escolha metodológica correta e precisa constar do veredito.

Bom
P5

Prisão domiciliar

O enunciado informa “razões humanitárias” e condições de saúde antes de perguntar casa versus prisão. A justificativa pode legitimar uma das alternativas; uma forma mais neutra separaria conhecimento do fato e opinião.

Carga
P7

Proibição de visita

A pergunta encadeia a decisão à leitura de uma carta e depois pede se o ministro “agiu bem ou mal”. A causalidade comprimida no enunciado pode soar punitiva e omite o conjunto dos fundamentos da decisão.

Compressão
P9–P11

Versões de Lula e Flávio

Há alternância de vozes, mas as tarefas não são simétricas: P10 detalha a culpa atribuída por Flávio e mede o esforço de Lula; P11 detalha a acusação de Lula e pergunta se os EUA querem beneficiar Flávio.

Assimetria
P12

Um único culpado

Trump, Lula, Flávio e Eduardo são lidos separadamente. A família Bolsonaro divide menções entre dois nomes; “todos” e “nenhum” são espontâneos. A forma força monocausalidade para um fenômeno de múltiplos atores.

Arquitetura
P13

Retaliar, ceder tudo ou negociar

“Atender todas as condições” é uma formulação extrema; “negociar” ocupa a posição intermediária e socialmente moderada. O resultado de 74% pela negociação precisa ser lido à luz dessa assimetria.

Alternativas
Arquivo

Mais perguntas do que resultados

O PDF oficial de 33 páginas publica voto, rejeição, segundo turno e cruzamentos. O instrumento segue por governo, tarifas, influência da imprensa, futebol, apostas e religião. Ao menos três dezenas de medidas substantivas ficam fora; algumas foram liberadas depois, em matérias.

Conta-gotas
Versão

P4 não aparece

A numeração salta de P3 para P5. Pode ser resíduo de versionamento, não vício de campo; justamente por isso a versão aplicada e seu histórico deveriam ter hash e controle públicos.

Resíduo
Fiel

“Lula 48%, Flávio 43%”

G1, 24/07. Aritmeticamente correto e sem afirmar “fora da margem”. Falta o contexto de desenho: deff, incerteza da diferença e bases dos recortes. É compressão jornalística, não falsidade.

Excede o dado

“Inferno astral de Flávio”

Folha, análise de 24/07. É interpretação causal. Entre junho e julho, Flávio ficou em 43% no segundo turno e subiu de 31% para 32% no primeiro. A rodada não identifica deterioração mensurável.

Pós-estímulo

“Para 52%, Trump quer ajudar Flávio”

Folha, 26/07. O número existe. Mas a resposta veio depois de o entrevistado ouvir a acusação de Lula no próprio enunciado. O título transforma opinião pós-estímulo em crença aparentemente espontânea.

O recorte que ninguém publicou

Nas 33 páginas do relatório está o cruzamento por natureza do município — capital, região metropolitana e interior. Nenhuma das manchetes examinadas usou esse recorte. Não afirmamos intenção editorial: afirmamos o fato de que o dado que muda a leitura da eleição estava publicado e não foi noticiado, enquanto “inferno astral” foi.

Cap. 11

Onde se ganha voto no chão

Esta seção é assumidamente prescritiva e vale para qualquer candidatura que leia os mesmos números — inclusive a de Flávio Bolsonaro, que é quem o dado desafia. Cada movimento abaixo nasce de uma linha do relatório, com base amostral declarada. Não há aqui técnica de manipulação de pesquisa; há leitura de onde o eleitor está e do que ele responde.

Feira de Caruaru · PE Feira livre de Caruaru, em Pernambuco, com barracas e público circulando
Feira de Caruaru (PE). O Nordeste custa 9,09 pontos de contribuição a Flávio — o maior déficit territorial da pesquisa — e é no comércio popular como este que se concentra o tipo de ponto de fluxo usado pelo instituto. Foto: Edudgarcia, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

A regra de ouro desta seção

Campanha de rua em cidade média muda voto porque muda a conversa da cidade, não porque muda a pesquisa. Tentar “ocupar” pontos de fluxo para deslocar um instituto seria, além de indefensável, tecnicamente inútil: os setores giram entre ondas (79% novos de junho para julho), as cotas são de seis entrevistas por setor e a ponderação por sexo, idade, escolaridade e renda absorve concentração artificial.

O valor do mapa público é outro e é legítimo: ele diz onde o país é ouvido — e, portanto, onde a percepção nacional se forma primeiro.

01

Fazer a eleição no interior, não no aeroporto

1.217 das 2.004 entrevistas estão fora de capitais e regiões metropolitanas, e ali o placar é 45×45 no segundo turno e 38×35 no primeiro. Cada ponto ganho no interior vale 0,607 ponto nacional; cada ponto ganho na capital vale 0,393.

O painel dá o endereço: 38 municípios do anexo têm entre 50 e 200 mil eleitores, e mais 32 têm entre 20 e 50 mil. São 70 cidades que somam 840 entrevistas — 41,9% da amostra nacional — e onde uma agenda de campanha custa uma fração de um evento metropolitano.

02

Falar com quem não tem partido — e não pedir que tenha

1.006 entrevistados não têm partido nenhum. É a maior base da pesquisa, dá 48×35 a Flávio, rejeita Lula por 55% e, ainda assim, 53% dela não cita nenhum nome espontaneamente e 15% vai a branco/nulo no segundo turno.

O adversário desse bloco não é Lula: é a não-escolha. Discurso identitário-partidário aqui é ruído; o que converte é utilidade concreta, nome e número memorizáveis e um adversário nomeado — que já é rejeitado por 55% deles.

03

Fechar o buraco de 15 pontos entre lembrar e escolher

Na espontânea nacional, Flávio é citado por 17%; na estimulada, faz 32%. São quinze pontos que dependem de o entrevistador mostrar o cartão. Entre mulheres, 45% não citam ninguém; entre 16 e 24 anos, 46%.

Esse é um problema de presença física e repetição, não de posicionamento: quem é lembrado sem cartão é quem apareceu na semana. É exatamente o que uma campanha de chão produz e uma campanha de estúdio não produz.

04

Tratar o católico do interior como o maior déficit isolado

Evangélicos (n=495) dão +7,16 pontos de contribuição a Flávio; católicos (n=988) tiram −8,38. É o maior buraco líquido de toda a pesquisa, maior que o do Nordeste em base e quase igual em contribuição.

A conta é simples: consolidar ainda mais os 60% entre evangélicos rende pouco — a base já está próxima do limite. Reduzir a diferença entre católicos em cinco pontos vale mais que qualquer ganho adicional no segmento já convertido.

05

Disputar o trabalho, não a ideologia do trabalho

Assalariado com carteira dá 46×40 a Flávio; sem carteira, 49×39 a Lula; autônomos e bicos, 47×43 a Flávio; aposentados, 60×35 a Lula; donas de casa, 61×34.

Os dois maiores déficits ocupacionais (aposentados, −3,67; donas de casa, −2,25) são de renda fixa e cuidado, não de emprego. Uma agenda de reajuste previdenciário crível, fila de cuidado e custo de alimentos toca 461 entrevistas; uma agenda de empreendedorismo toca 88.

06

Brigar com a métrica, nunca com o número

Contestar “48×43” é perder: o número é fiel ao arquivo. O que é contestável e verdadeiro cabe em três frases: a margem publicada não é a margem da diferença; o efeito de desenho não foi publicado e bastaria 1,44 para o intervalo tocar zero; e o recorte por natureza do município — que existe no relatório — mostra 45×45 no interior.

“Inferno astral” é a extrapolação vulnerável: Flávio ficou estável em 43% e subiu de 31% para 32% no primeiro turno. Essa é a correção jornalística que se sustenta em qualquer mesa.

07

Usar o direito de acesso em vez de reclamar do resultado

Partido, federação, coligação, candidatura e Ministério Público Eleitoral podem exigir acesso ao sistema interno de controle, ao relatório entregue ao contratante, ao questionário aplicado e às planilhas e mapas amostrados. Isso é instrumento legal, não favor.

Três alvos documentais já estão maduros nesta rodada: a divergência de um dia no campo, a diferença de R$ 100 entre registro e nota fiscal e o setor duplicado em Caapiranga. Nenhum é escândalo; juntos, formam cadeia de custódia.

08

Comprar amostra que responde à pergunta certa

Com deff de planejamento de 1,5, são necessários cerca de 576 casos por recorte para erro próximo de ±5 pontos. Nesta pesquisa, o Sul tem 294, a faixa 35–44 tem 393, a de 5–10 SM tem 194 e a acima de 10 SM tem 51.

Uma pesquisa própria de 2.000 casos repetirá as mesmas limitações. Um diagnóstico com n≈6.000 e estratificação por natureza do município produziria interior e capital com precisão real — e é aí que a decisão de alocação de agenda se paga.

Limite honesto

Cruzamento agregado não é causalidade. Nada aqui prova que uma agenda no interior produz voto — prova apenas onde o eleitor está, quanto ele pesa no agregado nacional e o quão incerto é cada sinal. Uma campanha séria trata isto como hipótese testável com pesquisa própria e resultado publicado, não como receita garantida.

Cap. 12

Há matéria para correção e acesso. Não para acusação vazia.

A Resolução TSE 23.600, alterada pela 23.747/2026, exige precisão técnica para impugnar pesquisa. O caminho mais forte é separar inconsistências documentais demonstráveis de lacunas que a regra atual ainda permite.

Reconciliar a data final do campo

Relatório e anexo territorial dizem 22–23/07; registro e declaração dizem 22–24/07. Pedir retificação e logs por dia, com contagem de entrevistas, horários e versão do banco.

Reconciliar o valor da pesquisa

Registro e declaração: R$ 307.541,60. Nota fiscal: R$ 307.641,60. A diferença de R$ 100 é 0,033% — teste de consistência, não escândalo —, mas “valor e origem” e documento fiscal precisam coincidir ou ser explicados.

Corrigir o setor duplicado de Caapiranga

Solicitar o geocódigo correto de cada bairro e confirmar se foram 12 entrevistas em um setor, seis em cada um de dois setores, ou erro apenas no anexo.

Publicar o protocolo de rotação e seleção

118 municípios repetem nas três ondas com cota idêntica e duas UFs nunca entram. Pedir o plano amostral completo: probabilidade de inclusão do município, critério de estratificação, regra de rotação de setores e justificativa para a ausência de AP e RR.

Reconciliar os pesos

Solicitar distribuições bruta, meta e final, peso mínimo/máximo/CV, trimming, deff e n efetivo. O perfil final de 25–34 e 60+ não reproduz exatamente as metas registradas; pode ser arredondamento ou ajuste conjunto, mas exige papel.

Regular o intervalo registro–campo

O anexo territorial só é entregue depois da divulgação, conforme o art. 2º, §7º da Resolução 23.600/2019, de modo que hoje não há prova pública de que a amostra estava definida antes do campo. Propor o depósito do anexo no registro sob resumo criptográfico, com abertura na primeira divulgação e conferência do hash.

O que é problema da pesquisa e o que é problema da norma
AchadoSituaçãoInstrumento adequado
Datas, custo e geocódigo incoerentesDeficiência documental objetiva a esclarecerPedido de correção/acesso; eventual impugnação técnica
Deff e pesos não públicosA regra registra ponderação, mas não exige diagnóstico público completoAcesso do legitimado + nova resolução ou lei
Painel municipal fixo sem protocolo declaradoLícito; não há exigência de publicar regra de rotaçãoMudança normativa; pedido de plano amostral
Anexo territorial entregue só depois da divulgaçãoPermitido pelo art. 2º, §7º da Res. 23.600; não há prova de que a amostra precedeu o campoDepósito sob hash no registro, aberto na divulgação
Resultados temáticos fora do PDF públicoO §7º-B mantém relatório completo reservado até depois da eleição, salvo ordemMudança normativa; não presumir infração
Ausência de taxas de abordagem e recusa no fluxoLacuna crítica do modo presencialNova obrigação de transparência
Revisão incorporada à proposta

A minuta da Arvor passa a refletir a Resolução 23.747/2026: elimina a tolerância de relatório depois da primeira divulgação e a carência adicional de três dias; exige dados de abordagem e recusa para pontos de fluxo; cria validação de geocódigos únicos, protocolo de rotação e publicação da probabilidade de inclusão do município; e reconcilia data, custo e identificadores entre os documentos.

Cap. 13

Do PDF à conta, sem caixa-preta

Os seis documentos da pesquisa nacional estão preservados no acervo bruto do projeto. A auditoria compara os anexos territoriais de maio, junho e julho, valida geocódigos, recalcula a incerteza da diferença e cruza o painel com o eleitorado atual do TSE e com o resultado oficial de 2022.

Reprodução

Dois scripts, uma conta

scripts/datafolha-072026-audit.py lê os anexos territoriais, valida setores e recalcula margens.
scripts/datafolha-072026-campanha.py monta o painel municipal, agrega o eleitorado do TSE em streaming, transcreve os cruzamentos das páginas 24–33 e cruza tudo com o 2º turno de 2022.
scripts/datafolha-072026-renda.py lê o microdado da PNADC anual 2025 visita 1, calcula as faixas de rendimento domiciliar em salários mínimos e refaz os toplines trocando só a margem de renda.

Saídas auditáveis: analysis/datafolha_072026/audit.json, campanha.json, renda.json e o mapa municipal em CSV.

Regra de evidência

Fato, inferência, hipótese

Fato é transcrição documental ou cálculo reproduzível. Inferência é a explicação mais compatível com os fatos, sem identificação causal. Hipótese exige dado adicional.

Percentuais são arredondados pelo instituto; bases do relatório são ponderadas. Sem microdados e pesos individuais, nenhuma reponderação marginal é tratada como correção oficial ou “verdade” alternativa.

Fontes primárias e matérias examinadas

  1. Datafolha, relatório BR-01166/2026, 33 páginas, campo 22–23/07/2026 (páginas 24–33: cruzamentos).
  2. PesqEle/TSE, registro BR-01166/2026, registrado em 18/07/2026.
  3. Anexos territoriais BR-07489/2026 (maio), BR-09956/2026 (junho) e BR-01166/2026 (julho).
  4. TSE · Resolução 23.600 consolidada.
  5. TSE · Resolução 23.747/2026.
  6. Lei 9.504/1997, arts. 33–35.
  7. TSE · perfil atual do eleitorado (157.846.602 eleitores, competência jun./2026).
  8. TSE · resultados de 2022, votação por partido, município e zona.
  9. IBGE · PNAD Contínua anual 2025, visita 1 (microdado, rendimento domiciliar VD5001 e VD5007).
  10. Datafolha · véspera do 2º turno de 2022, registro BR-08297/2022.
  11. Folha · “Inferno astral...”.
  12. Folha · “Para 52%...”.
  13. G1 · segundo turno 48×43.
  14. Arvor · proposta atualizada de pesquisa auditável.
Limitações desta auditoria

A margem da diferença assume amostragem aleatória simples; o desenho real usa estratos, pontos de fluxo, cotas e ponderação. Sem pesos individuais, conglomerados e microdados não é possível calcular o efeito de desenho real. Repetição de município é repetição documental da unidade de seleção, não do mesmo entrevistado. O cruzamento com 2022 usa votos nominais válidos de PL e PT por município e ignora brancos, nulos e abstenção; ele descreve o terreno, não prevê comportamento em 2026. A categoria “interior” é a do próprio instituto. Dois municípios exigiram alias de grafia para casar com as bases do TSE (Santa Izabel do Pará e Alvorada do Oeste), documentados no script.

Fotografias sob licença livre, via Wikimedia Commons: rua 25 de Março, São Paulo — Otávio Nogueira, CC BY 2.0; Feira de Caruaru — Edudgarcia, CC BY-SA 4.0; terminal rodoviário de Coronel Fabriciano e Praça da Matriz de Conselheiro Pena — HVL, CC BY 4.0; foto oficial do senador Flávio Bolsonaro — Agência Senado; foto oficial do presidente Lula — Ricardo Stuckert/PR, CC BY 2.0. Os créditos completos, com URL de cada arquivo, estão em assets/datafolha_072026_creditos.json.