DATAFOLHA AJUDA A CAMPANHA OFFLINE DO FLÁVIOO mapa de onde o Brasil é ouvido é público antes do campo, o interior está 45×45 e a régua de renda não bate com a PNAD.
33 posts prontos para o X, cada um com o texto para colar e um card 16:9 para screenshot. O arco: o método e o mapa (1–6) → a suspeita testada com o resultado de 2022 (7–9) → o que o mapa serve e o que ele não serve (10–11) → o achado central: o empate no interior (12–16) → a metade sem partido (17–18) → os buracos reais de Flávio (19–20) → a prova cruzada dos três cenários e a transferência de voto (21–23) → a reponderação por renda contra a PNAD (24–26) → o plano de chão (27–31) → o recorte que ninguém publicou e o veredito (32–33). Sem hashtags.
Como publicar: em cada post, tire screenshot do card (proporção 16:9) e clique em “Copiar texto” para o corpo. Publique na ordem, como respostas em sequência. Dossiê-mãe: brasil.arvor.co/datafolha_072026.html
Fontes: relatório Datafolha de julho/2026 (33 páginas, cruzamentos nas págs. 24–33), registro PesqEle/TSE BR-01166/2026 e anexos territoriais de BR-07489/2026 (maio), BR-09956/2026 (junho) e BR-01166/2026 (julho); TSE Eleitorado (157.846.602 eleitores, jun./2026); TSE Resultados 2022; Lei 9.504/1997; IBGE, PNAD Contínua anual 2025 visita 1 (microdado, rendimento domiciliar deflacionado para abril/2026). Contas abertas em github.com/ArvorCo/PNAD.
Post 01 · abertura
foto: Otávio Nogueira · CC BY 2.0Datafolha · julho de 2026 · BR-01166/2026
137 de 139
municípios de julho já estavam no anexo de junho, público um mês antes do campo. O mapa antigo é o mapa novo.
DATAFOLHA AJUDA A CAMPANHA OFFLINE DO FLÁVIO.
Não é ironia. É consequência do desenho da pesquisa.
O Datafolha ouve 2.004 eleitores em pontos de fluxo (rua, feira, calçadão, terminal) distribuídos em 139 municípios. O mapa de cada rodada só vai ao ar depois da divulgação: o próprio registro avisa que a relação de municípios e bairros será anexada até o dia seguinte à publicação.
Só que ele quase não muda. Dos 139 municípios de julho, 137 já estavam no anexo de junho, que é público desde o dia 19. E 118 estão nas três ondas seguidas, com a mesma cota de entrevistas em cada uma.
Quem tinha o mapa de junho já sabia, antes de o campo de julho começar, 98,6% de onde o Brasil seria ouvido. Não é vazamento. É repetição, e repetição publicada.
Auditamos os seis documentos oficiais do BR-01166/2026: relatório, questionário, registro, declaração da estatística, nota fiscal e anexo territorial. Vai thread, com o número que muda a leitura da eleição e que nenhuma manchete publicou.
Post 02 · o método
foto: HVL · CC BY 4.0
Técnica declarada no registro
ponto de fluxo
Aborda-se quem está passando, não quem está em casa. Quem ocupa a rua entra na conta.
Entrevistas2.004
Municípios139
Pontos de coleta331
Dias de campo3
22–24/07/2026 · abordagem pessoal em ponto de fluxoArvor
O registro no TSE diz, com todas as letras: “pesquisa quantitativa, com abordagem pessoal em pontos de fluxo populacional”.
Traduzindo: o entrevistador não vai à casa do eleitor. Ele fica num lugar de passagem, calçadão, feira, terminal, praça, entrada de mercado, e aborda quem passa, respeitando cotas de sexo e idade.
Isso tem uma consequência que quase ninguém enuncia: a pesquisa mede, primeiro, quem está na rua. Aposentado que sai à tarde, dona de casa que faz feira de manhã, trabalhador que passa pelo terminal às 18h. Depois a ponderação corrige a composição por sexo, idade, escolaridade e renda. Mas ponderação corrige composição, não corrige quem nunca foi abordado.
Não é ilegal, não é fraude, e é a técnica de mais da metade do mercado brasileiro. Só que ela tem endereço. E o endereço é público.
Guarde este detalhe, porque ele volta no fim da thread: ponto de fluxo mede presença. Quem some da rua some da estatística, e volta depois só como peso.
Post 03 · o painel fixo
Anexo territorial · maio, junho e julho
118 de 139
municípios aparecem nas três ondas, todos com a mesma cota de entrevistas em cada uma.
cada ponto é um município do anexo de julho
87,4% das entrevistas de julho estão nesse painel fixoArvor
118 dos 139 municípios de julho já estavam no campo de junho e no de maio.
O que mais me chamou a atenção nos anexos não foi um número. Foi uma repetição.
Cruzei os anexos territoriais das três últimas rodadas nacionais do Datafolha, município a município, pelo código do IBGE.
E aqui vem a parte que ninguém comentou: os 118 aparecem nas três ondas com a mesma quantidade de entrevistas em cada uma. Não é “parecida”. É idêntica.
São Paulo: 132 entrevistas em maio, 132 em junho, 132 em julho. Rio: 72, 72, 72. Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte e Brasília: 36, sempre. Goiânia, Recife, Manaus, Curitiba e Porto Alegre: 24, sempre.
87,4% das 2.004 entrevistas de julho acontecem nesse painel fixo.
Isso é desenho de painel, e tem lógica estatística. Mas não está declarado em lugar nenhum do relatório. Você só descobre se cruzar os três anexos.
Escala do que estou falando: essas 118 cidades concentram 1.752 das 2.004 entrevistas e 29,8% de todo o eleitorado brasileiro.
Post 04 · as duas trocas
Junho → julho · o que mudou no mapa
2 trocas
Rio Claro e Severínia saíram. Piracicaba e Ouroeste entraram. Todas em São Paulo.
137 municípios mantidos, 2 trocados
Anexos BR-09956/2026 e BR-01166/2026Arvor
De junho para julho, quantos municípios mudaram na maior pesquisa eleitoral do país?
Dois.
Saíram Rio Claro (SP) e Severínia (SP). Entraram Piracicaba (SP) e Ouroeste (SP). Os outros 137 são os mesmos. E, de novo, com as mesmas cotas.
De maio para junho a rotação foi maior: 21 municípios trocados. Ainda assim, 120 dos 139 permaneceram.
Não estou dizendo que trocar pouco é ilegal. Painel fixo reduz variância entre ondas e melhora comparabilidade. É uma escolha técnica defensável, e provavelmente é isso.
Estou dizendo outra coisa: essa escolha, que muda o significado de toda a série histórica, não aparece em nenhuma linha do relatório de 33 páginas, nem na metodologia registrada. Ninguém pergunta. Ninguém responde.
Se é desenho, publique o desenho: probabilidade de inclusão do município, critério de estrato e regra de rotação.
E a rotação real acontece um nível abaixo: dentro dessas mesmas cidades, 79,1% dos setores censitários de julho são novos em relação a junho.
Post 05 · a granularidade
Julho de 2026 · 331 linhas do anexo
6 por setor
328 das 331 linhas trazem exatamente seis entrevistas. A amostra é uma grade, não um sorteio livre.
Dentro de cada município, o Datafolha declara setores censitários, o geocódigo de 15 dígitos do IBGE.
Em julho são 331 linhas, 330 setores únicos. E 328 dessas linhas trazem exatamente 6 entrevistas. Três trazem 12.
A amostra nacional é uma grade de blocos de seis. Seis pessoas ali, seis pessoas acolá, 334 vezes, e o Brasil inteiro sai disso.
Detalhe documental: o setor 130083905000015, em Caapiranga (AM), aparece duas vezes no anexo de julho, uma como “Centro”, outra como “Nossa Senhora das Graças”, com seis entrevistas em cada linha. Em junho esses bairros estavam ligados a setores diferentes.
Pode ser erro de digitação. Pode ser agregação. Mas é o tipo de coisa que precisa ser corrigida ou explicada, porque o geocódigo é a única unidade amostral verificável que existe no documento.
Para comparar as ondas: maio teve 334 linhas para 331 setores únicos; junho, 331 e 331; julho, 331 linhas para 330 setores. Daí a duplicidade.
Post 06 · o mapa da cobertura
Quanto do Brasil cabe no mapa
2,5%
dos 5.571 municípios do país entram na amostra. Eles concentram 30,2% do eleitorado.
Municípios do Brasil na amostra2,5%
Eleitorado coberto30,2%
Amostra nas 11 maiores cidades23,4%
Estados sem nenhuma entrevistaAP e RR
cada entrevista carrega, em média, 78.766 eleitores
Quanto do Brasil cabe nesse mapa?
Cruzei os 139 municípios com o cadastro atual do TSE, que tem 157.846.602 eleitores residentes no país.
As 139 cidades são 2,5% dos 5.571 municípios brasileiros e concentram 30,2% do eleitorado, 47,7 milhões de pessoas.
Duas unidades da federação não recebem uma única entrevista: Amapá e Roraima. Juntas, 0,62% do eleitorado. Já o Amazonas aparece com 2,99% da amostra para 1,78% do eleitorado; Mato Grosso, com 0,60% para 1,67%.
Nada disso é escandaloso por si. Amostra nacional não precisa cobrir todo estado, e a ponderação por macro-região corrige parte do desequilíbrio.
Mas cada entrevista carrega, em média, 78.766 eleitores. Onze cidades concentram 23,4% de toda a amostra. Quando a base é essa, saber exatamente como as unidades foram sorteadas deixa de ser detalhe técnico.
E a concentração tem outro lado: as 30 menores cidades do painel somam 360 entrevistas para 368 mil eleitores. Ali cada entrevista carrega mil pessoas; em São Paulo, 69 mil.
Post 07 · a pergunta desconfortável
foto: HVL · CC BY 4.0A hipótese que qualquer um levanta
travaram nas cidades?
Se o painel é fixo, alguém escolheu essas 139. A pergunta é legítima. A resposta tem que vir com dado.
Teste: 2º turno presidencial de 2022, município a municípioArvor
Aqui chega a pergunta que qualquer pessoa desconfiada faz, e que eu fiz.
Se o painel é praticamente fixo, alguém escolheu essas 139 cidades. E se escolheram cidades convenientes, e travaram nelas, para o número dar sempre no mesmo lugar?
É uma acusação séria. Acusação séria exige teste, não adjetivo.
O teste é direto: pegar o resultado oficial do 2º turno presidencial de 2022, município a município, e perguntar como esse conjunto de 139 cidades votou de fato, comparado ao Brasil inteiro.
Se o painel fosse escolhido para deprimir a direita, ele apareceria mais lulista que o país. Se fosse o contrário, mais bolsonarista.
Baixei o pacote de votação por partido, município e zona do TSE, filtrei presidente, 2º turno, e somei PL e PT em cada uma das 139 cidades.
O resultado está no próximo post. Ele não é o que eu esperava.
Registro com honestidade: eu já tinha a hipótese formada e o post escrito. Publicar sem testar teria sido mais fácil, mais rápido e mais rentável.
Post 08 · a hipótese cai
2º turno de 2022 · voto nominal válido
50,88%
foi o voto em Bolsonaro nas 139 cidades do painel. No Brasil inteiro, 49,10%. A hipótese caiu.
78 das 139 cidades foram vencidas por Bolsonaro
Hipótese testada e derrubada com dado oficial do TSEArvor
O resultado do teste.
As 139 cidades do painel do Datafolha, somadas, votaram 50,88% em Bolsonaro no 2º turno de 2022, contra 49,10% no Brasil inteiro. A mediana municipal do painel é 53,67% para Bolsonaro. Em 78 das 139 cidades Bolsonaro venceu, e é nelas que estão 1.080 das 2.004 entrevistas.
Ponderando cada cidade pelo número de entrevistas que ela recebe, que é como o painel efetivamente pesa, o terreno fica em 49,33%. Praticamente colado ao resultado nacional.
Conclusão honesta: não há evidência de escolha de cidades para forçar resultado. Se alguma coisa, o terreno é levemente mais bolsonarista que o país.
Eu preferia outro resultado? Preferia. Mas dado que só serve quando confirma o que a gente já pensava não é dado, é decoração.
Quem quiser sustentar a acusação de amostra escolhida precisa de outra prova. Esta não existe nos números.
A conta é refazível em dez minutos: pacote de votação por partido, município e zona de 2022 no portal de dados abertos do TSE, cargo presidente, 2º turno, soma de PL e PT por município.
Post 09 · o que sobra é pior
O problema real não é viés, é previsibilidade
maio118 municípios que voltam
→
junho137 dos 139 de julho
→
julho2 trocas em 139
98,6%
do mapa de julho já estava publicado antes de o campo de julho começar, no anexo da rodada anterior.
O anexo de cada rodada só é entregue depois da divulgação, conforme o art. 2º, §7º da Res. 23.600/2019. A antecipação vem da repetição, não do prazo.
Transparência hoje colide com integridade da coletaArvor
Cai a hipótese do viés. Sobra outra coisa, e ela é mais estrutural.
O problema não é quais cidades foram escolhidas. É que são as mesmas, com as mesmas cotas, rodada após rodada.
Faço questão de corrigir uma coisa que eu mesmo escrevi antes: o mapa de cada rodada não é público antes do campo. O registro de julho, protocolado em 18/07, diz textualmente que a relação de municípios e bairros seria anexada até o dia seguinte à data de divulgação, conforme o art. 2º, §7º da Resolução 23.600/2019. Ele saiu depois do campo, não antes.
A previsibilidade vem de outro lugar, e é mais difícil de defender: o anexo de junho, público desde 19/06, já continha 137 dos 139 municípios de julho, e o de maio já trazia 118 deles.
O mapa antigo é o mapa novo. E há uma consequência de auditoria nisso: como o anexo só chega depois da divulgação, não existe prova pública de que a amostra estava definida antes de o campo começar.
Post 10 · o mapa como ativo
foto: Edudgarcia · CC BY-SA 4.0O que o mapa realmente entrega
onde o país é ouvido
139 cidades, 87,4% delas fixas, publicadas mês a mês. É a lista de onde a percepção nacional se forma primeiro.
Uso legítimo: agenda de campanha. Não: mexer na pesquisaArvor
Então por que o título desta thread diz que o Datafolha ajuda a campanha offline?
Porque o valor daquele mapa não é o que você imaginou. É melhor, e é legítimo.
O anexo diz onde o país está sendo ouvido, todo mês, com estabilidade: as mesmas 139 cidades, os mesmos volumes, as mesmas regiões. Nenhuma campanha brasileira tem, de graça e por obrigação legal do concorrente, uma lista assim.
Uma candidatura que faz agenda de rua sistemática nessas cidades não está influenciando pesquisa. Está fazendo o que a política sempre fez: conversar com o eleitor onde ele passa. A diferença é que agora ela sabe, com precisão municipal, onde a conversa vira percepção nacional primeiro.
E é aí que entra a parte que quase ninguém tem coragem de falar em público: quem depende de estúdio, avião e capital não pisa nesses lugares. Quem faz chão, pisa.
Baixe o anexo de qualquer rodada anterior no PesqEle e você terá a lista, com município, bairro e geocódigo de 15 dígitos.
Post 11 · o limite ético e técnico
Por que ocupar ponto de fluxo não funciona
79,1%
dos setores censitários de julho são novos em relação a junho. Você sabe a cidade. Não sabe a esquina.
Setores novos jun → jul79,1%
Setores repetidos20,9%
Entrevistas por setor6
e a ponderação por sexo, idade, escolaridade e renda achata concentração artificial
O mapa serve para fazer campanha, não para fraudar pesquisaArvor
Agora o contraponto, porque alguém vai pensar nisso e é melhor matar a ideia com conta.
Tentar “ocupar” pontos de fluxo para deslocar um instituto seria indefensável e, além disso, tecnicamente inútil.
Primeiro: o município repete, mas o setor não. De junho para julho, 79,1% dos setores censitários são novos. Você sabe a cidade; não sabe a esquina.
Segundo: a cota é de seis entrevistas por setor. Para mover um ponto no placar nacional você precisaria contaminar dezenas de setores desconhecidos, em dois dias, em cidades espalhadas por 25 estados.
Terceiro: a ponderação por sexo, idade, escolaridade e renda achata concentração artificial. Excesso de um perfil vira peso menor.
O mapa é ótimo para decidir agenda de campanha e péssimo para fraudar pesquisa. É bom que seja assim.
Registro isso porque a linha é fina e importa: usar dado público para decidir agenda é campanha; tentar interferir na coleta é outra coisa, e a Arvor não recomenda nem ensina.
Post 12 · o achado central
2º turno no interior · n=1.217
45Lula45Flávio
60,7% da amostra mora fora de capital e região metropolitana. E ali o placar empata.
60,7%39,3%
interior · 1.217capital + RM · 787
Interior: vantagem de Lula0
Capital + RM: vantagem de Lula13 pontos
Relatório Datafolha julho/2026, página 32Arvor
Página 32 do relatório. Está lá o número que não virou manchete em lugar nenhum.
O Datafolha publica ali o 2º turno por natureza do município. Capital e região metropolitana: Lula 52, Flávio 39. Interior: Lula 45, Flávio 45.
Empate. Numa base de 1.217 entrevistas, 60,7% de toda a amostra nacional.
O “Lula 48 × Flávio 43” que circulou no país inteiro é a média de duas eleições diferentes: uma metropolitana, com treze pontos de distância, e uma do interior, empatada.
Não é opinião minha, não é reponderação minha, não é modelo. É o próprio relatório, com as bases que o próprio instituto publicou.
E aqui vale a pergunta jornalística honesta: por que o recorte que muda a leitura da eleição não apareceu em nenhuma das manchetes, e “inferno astral” apareceu?
Bases do recorte, para quem quiser conferir: 787 entrevistas em capital e região metropolitana, 1.217 no interior. Somadas, as 2.004 da amostra nacional.
Post 13 · a decomposição
De onde vêm, aritmeticamente, os 5 pontos
−5,11
é a contribuição de capital e região metropolitana ao saldo nacional. A do interior é zero.
A média ponderada dos dois grupos reproduz o toplineArvor
Dá para transformar isso em uma conta de uma linha.
O saldo nacional Flávio menos Lula é −5 pontos. Decompondo por natureza do município, com as bases publicadas:
capital e região metropolitana contribuem com −5,11 pontos;
interior contribui com 0,00.
A soma reproduz o topline que a Folha publicou. Não é interpretação: é a média ponderada dos dois grupos.
Em português claro: em julho de 2026, a vantagem de Lula é inteiramente metropolitana.
Cuidado com o que isso não diz. Não diz que Flávio vence a eleição, porque o voto do interior também não é uniforme. Não diz que o empate no interior é estatisticamente firme. O intervalo do interior sob amostragem aleatória simples vai de −5,3 a +5,3.
Diz apenas, e com precisão, onde os cinco pontos nascem. E onde eles não nascem.
Fiz a conta com as bases ponderadas publicadas pelo próprio instituto, e ela fecha: −5,11 somado a 0,00 devolve exatamente os −5 pontos do topline divulgado.
Post 14 · o primeiro turno
1º turno por natureza do município
15 × 3
pontos de distância. À esquerda, capital e região metropolitana. À direita, o interior.
Capital + RM · Lula43
Capital + RM · Flávio28
Interior · Lula38
Interior · Flávio35
o “oito pontos de vantagem” nacional é a média de quinze e três
Relatório Datafolha julho/2026, página 30Arvor
No primeiro turno, página 30, o mesmo corte aparece e fica ainda mais claro.
Capital e região metropolitana: Lula 43, Flávio 28. Quinze pontos.
Interior: Lula 38, Flávio 35. Três pontos.
O número nacional de primeiro turno, Lula 40 e Flávio 32, é a média dessas duas realidades.
Repare no que isso faz com a narrativa. A leitura pública da eleição é construída sobre um agregado que mistura um cenário decidido com um cenário disputado, e depois trata o resultado como se fosse o retrato de um país só.
Não é erro do instituto: o instituto publicou os dois recortes. É escolha de quem edita, e de quem repercute.
E, para uma campanha, a diferença entre esses dois números é a diferença entre calendário de avião e calendário de estrada.
E é no interior que está o maior estoque de indeciso, como mostro no próximo post. Três pontos de distância com quatro em dez eleitores sem nome na cabeça é outro tipo de eleição.
Post 15 · a rejeição que inverte
Rejeição · “não votaria de jeito nenhum”
46 × 48
No interior, quem é mais rejeitado é Lula. A manchete nacional diz o contrário.
Brasil · Flávio48
Brasil · Lula46
Interior · Flávio46
Interior · Lula48
Capital + RM · Flávio51
Capital + RM · Lula44
Relatório Datafolha julho/2026, página 33Arvor
Tem uma inversão na página 33 que vale sozinha por uma manchete.
A rejeição nacional é: Flávio 48%, Lula 46%. Foi o que se noticiou, “Flávio é o mais rejeitado”.
No interior, onde estão 60,7% das entrevistas, os números viram: Flávio 46%, Lula 48%.
Em capital e região metropolitana: Flávio 51%, Lula 44%.
A frase “o candidato mais rejeitado do país” depende inteiramente de onde você olha. No Brasil metropolitano é Flávio. No Brasil do interior é Lula. E o Brasil do interior é a maior parte da amostra.
Nada disso desmente a manchete nacional, porque o agregado é o agregado. Mas mostra que o teto que se atribui a um candidato é, em boa medida, um teto geográfico.
E teto geográfico se enfrenta com presença. Não com nota de repúdio.
Um ponto técnico a favor do instituto: a rejeição é medida antes do bloco temático do questionário, o que protege esses números de contaminação pelas perguntas sobre tarifas e prisão.
Post 16 · o estoque de indecisos
foto: Wagner Tamanaha · CC BY-SA 2.0
Espontânea · sem mostrar cartão de nomes
39%
dos eleitores do interior não citam nenhum nome. Nas metrópoles, 34%.
Não citam ninguém39%
Citam Lula28%
Citam Flávio17%
quatro em cada dez eleitores do interior ainda não têm candidato formado
Relatório Datafolha julho/2026, página 29Arvor
E tem estoque para trabalhar.
Na pergunta espontânea, aquela em que o entrevistador não mostra a lista de nomes, 39% dos eleitores do interior não citam absolutamente ninguém. Nas capitais e regiões metropolitanas, 34%.
Entre os que citam, no interior: Lula 28%, Flávio 17%.
No lugar onde a eleição está empatada, quase quatro em cada dez eleitores ainda não têm um nome na cabeça. Não é que estejam contra alguém: é que não há candidato formado ali.
Nacionalmente o padrão se repete e fica pior nos grupos que decidem: 45% das mulheres e 46% dos jovens de 16 a 24 anos não citam nenhum nome.
Campanha de estúdio não resolve isso, porque lembrança espontânea é função de presença e repetição. Quem é lembrado sem cartão é quem apareceu na semana.
Junte com o recorte anterior e veja o desenho: no interior, placar empatado e 39% sem nenhum nome na cabeça. É o único lugar da pesquisa onde as duas coisas acontecem juntas.
Post 17 · a metade sem partido
Eleitores sem nenhum partido · n=1.006
48Flávio35Lula
2º turno no maior recorte da pesquisa: 50,2% da amostra, o dobro do PT.
metade da amostra não tem partido nenhum
Deff necessário para zerar o sinal5,44
Deff que zera o 48×43 nacional1,44
IC 95% sob AAS: +7,4 a +18,6 pontosArvor
1.006 dos 2.004 entrevistados dizem não ter partido nenhum.
É metade da amostra e o maior recorte da pesquisa inteira: maior que o Sudeste, maior que os católicos, o dobro dos que se dizem do PT. E ninguém usou.
Nesse bloco, o 2º turno é Flávio 48, Lula 35.
E o sinal é robusto: o intervalo de 95% da diferença, sob amostragem aleatória simples, vai de +7,4 a +18,6 pontos. Seria preciso um efeito de desenho de 5,44 para o resultado tocar zero, muito acima de qualquer coisa plausível.
Para comparar: no placar nacional de 48×43, bastaria um efeito de desenho de 1,44 para o intervalo incluir o empate. O instituto não publica esse número.
Traduzindo: a vantagem de Flávio entre os sem-partido é estatisticamente mais firme do que a vantagem de Lula no placar nacional.
Vale o inverso também: entre quem tem partido, o jogo está congelado. Quem se diz do PT dá 98×2 a Lula; quem se diz do PL dá 98×2 a Flávio. Não há o que disputar ali.
Post 18 · o paradoxo do bloco
O mesmo bloco de 1.006 eleitores
15%
vai a branco ou nulo no 2º turno, contra 9% na média nacional. O adversário desse bloco é a não-escolha.
Rejeitam Lula55%
Rejeitam Flávio39%
Não citam nome espontaneamente53%
Vão a branco ou nulo15%
Média nacional de branco/nulo no 2º turno: 9%Arvor
Mas esse mesmo bloco tem um paradoxo que precisa ser dito, senão vira autoengano.
Entre os 1.006 sem partido: 55% rejeitam Lula, 39% rejeitam Flávio. Ponto para Flávio.
Só que 53% deles não conseguem citar nenhum nome espontaneamente, e 15% vão para branco ou nulo no segundo turno, contra 9% na média nacional.
É preferência ativada por estímulo, não identidade consolidada. É o eleitorado mais volátil e o mais decisivo da eleição, e ele decide por rejeição.
O que isso significa na prática: metade da eleição está sendo disputada entre um candidato e a abstenção, não entre dois candidatos.
Quem tratar esse bloco com discurso de sigla vai perdê-lo para o branco e nulo. Ele responde a problema concreto, nome fácil de lembrar e adversário nomeado. E o adversário dele já está nomeado, por 55%.
Mais um dado do mesmo bloco: na espontânea, Lula tem 15% e Flávio 13%. Ninguém domina o grupo que vai decidir a eleição. Ele está vago.
Post 19 · o maior buraco
Contribuição ao saldo Flávio menos Lula
−8,38
é o que os católicos custam a Flávio. O maior buraco isolado não é renda nem região: é religião.
Diferença do grupo vezes o peso do grupo na amostraArvor
Onde Flávio realmente perde a eleição, segundo os próprios números do Datafolha?
Calculei a contribuição aritmética de cada recorte para o saldo nacional. A conta é simples: diferença do grupo vezes o peso do grupo na amostra.
Nordeste: −9,09 pontos.
Católicos: −8,38.
Ensino fundamental: −7,41.
Mulheres: −5,21.
Capital e região metropolitana: −5,11.
Do outro lado:
Evangélicos: +7,16.
Sem partido: +6,53.
Brancos: +3,57.
O detalhe que muda estratégia: o segundo maior buraco não é renda nem região. É religião. Católicos são 988 entrevistas, quase metade da amostra, e dão 54×37 para Lula.
Consolidar mais os 60% entre evangélicos rende pouco, porque a base já está perto do limite. Cada ponto recuperado entre católicos vale mais que qualquer ganho adicional onde já se venceu.
Uma ressalva obrigatória: essas dimensões se sobrepõem. A mesma pessoa pode ser mulher, nordestina, católica e do interior. Somar os eixos seria erro grosseiro; a leitura é de prioridade.
Post 20 · o mundo do trabalho
2º turno por ocupação · página 25
461
entrevistas estão em aposentados e donas de casa. A pauta de empreendedorismo fala com 88.
Assalariado com carteira · n=49746 × 40
Assalariado sem carteira · n=12739 × 49
Aposentados · n=29435 × 60
Donas de casa · n=16734 × 61
Empresários · n=8865 × 27
valores: Flávio × Lula
Os maiores déficits são de renda fixa e cuidado, não de empregoArvor
E dentro do mundo do trabalho a divisão é mais interessante do que o clichê sugere.
Assalariado com carteira assinada: Flávio 46, Lula 40.
Assalariado sem carteira: Lula 49, Flávio 39.
Autônomo, liberal e bico: Flávio 47, Lula 43.
Funcionário público: Lula 47, Flávio 42.
Empresário: Flávio 65, Lula 27, mas a base é de só 88 entrevistas, então é tendência, não medida.
Agora o que pesa de verdade no agregado:
Aposentados: Lula 60, Flávio 35, contribuição de −3,67 pontos.
Donas de casa: Lula 61, Flávio 34, contribuição de −2,25.
Os dois maiores déficits ocupacionais de Flávio não são de emprego. São de renda fixa e de cuidado: aposentadoria, saúde, preço de comida, fila de creche e de cuidador.
São 461 entrevistas. A pauta de empreendedorismo, que domina o discurso, fala com 88.
E um alerta metodológico que ninguém faz: com 88 entrevistas, o recorte de empresário tem intervalo enorme. Serve como sinal de direção, jamais como meta de campanha.
Post 21 · a prova cruzada
Três cenários de 2º turno · mesma amostra
47 · 48 · 48
Lula não se move em nenhum deles. Quem varia é o bloco adversário.
Toplines publicados · nada aqui é estimativaArvor
Tem um experimento dentro desta pesquisa que quase ninguém lê, e ele é medição pura.
O Datafolha testou três segundos turnos com a mesma amostra, na mesma semana, com os mesmos pesos:
Lula 48 × Flávio 43, com 9 de branco e nulo.
Lula 47 × Caiado 40, com 11.
Lula 48 × Zema 40, com 10.
Repare no que não muda: Lula fica em 47, 48 e 48. O teto dele não depende de quem está do outro lado.
E repare no que muda: o bloco adversário rende 43 com Flávio e 40 com os outros dois. Esses três pontos não vão para Lula, que não sobe. Vão para branco e nulo, que sobe de 9 para 11 e para 10.
Traduzindo: existe um eleitorado que vota em Flávio e simplesmente não vota em Caiado nem em Zema. Ele não muda de lado, ele sai da urna.
Isso não é modelo. São três toplines publicados no mesmo relatório.
Um detalhe que fecha o raciocínio: nos três cenários o “não sabe” fica em 1 ou 2. Não é indecisão que produz a diferença entre 43 e 40, é recusa de parte do eleitorado de Flávio a votar em outro nome da direita.
Post 22 · para onde vai o voto
Consolidação fora da própria base
1,48 : 1
Flávio consolida +10,1 pontos fora da base; Lula, +6,8. Em junho a razão era 2:1.
barras: fato · fitas hachuradas: estimativa
Prior ideológica ajustada por IPF às margens publicadasArvor
Com essa restrição na mão, dá para estimar o caminho do voto quando a eleição afunila, dizendo com todas as letras o que é medido e o que não é.
Entre o 1º e o 2º turno, cerca de dezoito pontos são liberados: catorze de candidaturas eliminadas e quatro de indecisos que decidem.
Descontando a própria base, Flávio consolida cerca de 10,1 pontos e Lula, 6,8. Razão de 1,48 para 1. Em junho era 2 para 1: a vantagem de consolidação de Flávio encolheu.
O ganho dele não vem do indeciso. Dos três pontos de “não sabe” do 1º turno sobra um no 2º, e quem decide pende levemente para Lula. Vem inteiro da direita que se pulverizou: Caiado, Zema, Renan, Cury e Daciolo somam menos de 13 pontos e valem mais que a distância final.
O método, aplicado igual em toda pesquisa de 1º turno que auditamos, está no dossiê: prior ideológica explícita, cenários alternativos como restrição e ajuste às margens publicadas.
Post 23 · o que o diagrama não é
Blindagem metodológica
nenhum elo foi medido
Nenhum instituto brasileiro publica matriz de transição. Por isso a fita é hachurada e a barra é sólida.
A razão sobrevive à troca da prior; o corte por candidato, nãoArvor
E agora a parte que separa análise de chute, porque um diagrama de fluxo é a peça mais fácil de falsificar em toda a estatística eleitoral.
Nenhum instituto brasileiro publica matriz de transição. Ninguém sabe, com dado, para onde foi o eleitor de Caiado, nem o Datafolha, que teria como saber e não divulga.
O que fizemos é explícito: partimos de uma matriz de afinidade ideológica, ajustamos por IPF até bater exatamente nas margens publicadas e desenhamos barra sólida para o que é fato e fita hachurada para o que é estimativa.
E a distinção que importa: a razão de consolidação, em torno de 1,5 para 1, é imposta pelas próprias margens e sobrevive à troca das premissas. Já o corte candidato a candidato depende da prior e não deve ser tratado como medição.
Qualquer matriz que respeite os toplines devolve os mesmos totais. É por isso que o instituto precisa publicar a dele.
Publicar a matriz custaria uma página. Ela existe no banco de qualquer instituto que pergunte 1º e 2º turno na mesma entrevista. Basta cruzar duas variáveis já coletadas do mesmo respondente.
Post 24 · a régua da renda
Faixa até 2 salários mínimos
16,6 pp
de distância entre a amostra e a PNAD, na faixa onde Lula faz 56×36.
vermelho: até 2 SM · âmbar: 2 a 5 · ciano: 5 a 10 · ácido: 10+
PNADC anual 2025 visita 1 · rendimento domiciliar em SMArvor
Agora a parte que separa auditoria de comentário: a régua de renda.
O próprio Datafolha publica o perfil econômico da amostra ponderada. Metade dela, 52,1% considerando as bases dos cruzamentos, declara renda familiar de até dois salários mínimos.
Fui ao microdado da PNAD Contínua anual de 2025, visita 1, com peso calibrado do IBGE, e calculei a mesma faixa com o rendimento domiciliar deflacionado para abril de 2026 e convertido em salários mínimos.
Domicílios brasileiros até 2 SM: 42,9%.
Pessoas de 16 anos ou mais até 2 SM: 35,4%.
A segunda linha é a que importa, porque o universo declarado da pesquisa é exatamente esse: “eleitores com 16 anos ou mais”.
São 16,6 pontos de distância. E no outro extremo: acima de 10 SM, a amostra tem 2,7% e a PNAD tem 8,4%, três vezes mais gente.
Guarde a informação que torna isso decisivo: é justamente na faixa até 2 SM que Lula faz 56×36.
Para efeito de comparação: sexo, idade e macro-região da amostra ficam a menos de um ponto do cadastro do TSE. A renda erra por dezesseis.
Post 25 · a reponderação
2º turno, trocando só a distribuição de renda
45,4 × 45,3
com a régua da PNAD por pessoas de 16 anos ou mais. A vantagem de cinco pontos evapora.
Inferência · sensibilidade de margem única, sem interaçõesArvor
O que acontece com o placar quando você troca só essa régua, e mais nada?
Antes de mexer, a validação obrigatória: aplicando as próprias margens de renda do Datafolha ao próprio cruzamento publicado, chego a Lula 47,9 e Flávio 42,8. Reproduzo o 48×43 divulgado. A máquina de cálculo está correta antes de qualquer alteração.
Agora trocando apenas a distribuição de renda pela da PNAD:
Domicílios: Lula 46,6 × Flávio 44,2. A vantagem cai de 5,1 para 2,4 pontos.
Pessoas de 16 anos ou mais: Lula 45,4 × Flávio 45,3. Empate.
Testei também com o rendimento habitual em vez do efetivo, e o desenho é o mesmo. Não depende da variável escolhida.
No primeiro turno, o mesmo exercício leva a distância de 7,2 para 4,0 pontos.
Não é um resultado eleitoral. É a medida de quanto do 48×43 depende de a amostra ser mais pobre que o país.
Detalhe metodológico que costuma ser omitido em thread: só faz sentido reponderar depois de reproduzir o número oficial com a régua original. Quem pula essa etapa está calibrando o próprio erro, não o do instituto.
Post 26 · o precedente e o limite
2º turno de 2022 · véspera × urna
52 × 48
foi o Datafolha da véspera. A urna deu 50,90 × 49,10. O erro dobrou a diferença.
Datafolha véspera · Lula52
Datafolha véspera · Bolsonaro48
Urna · Lula50,90
Urna · Bolsonaro49,10
erro na mesma direção que a composição de renda corrige
Registro BR-08297/2022 · resultado oficial recalculado voto a votoArvor
Isso tem precedente, e é honesto colocá-lo na mesa com o limite junto.
Na véspera do segundo turno de 2022, o Datafolha publicou Lula 52 × Bolsonaro 48 em votos válidos. A urna deu 50,90 × 49,10, número que recalculei voto a voto no mesmo pacote do TSE que usei para testar as 139 cidades.
A diferença publicada era o dobro da real, e o erro foi todo na mesma direção que a reponderação por renda corrige.
Agora o limite, porque sem ele isto vira militância com planilha.
Isso não prova que o erro de 2022 foi causado por renda. Não prova que Flávio está empatado hoje. Renda declarada na rua não é rendimento domiciliar medido pelo IBGE, 3,9% da amostra não declarou renda, e reponderar uma margem isolada ignora que renda, região, escolaridade e religião andam juntas.
O que está provado é mais modesto e mais útil: o “Lula +5” não sobrevive a uma única troca de régua.
Por isso a peça inteira termina no mesmo lugar: exigir do instituto o efeito de desenho, o n efetivo e a distribuição dos pesos. Com esses três números, ninguém precisaria reponderar nada por fora.
Post 27 · plano 1
foto: HVL · CC BY 4.0Plano de chão · movimento 01
70 cidades
do painel têm entre 20 mil e 200 mil eleitores e concentram 840 entrevistas, 41,9% da amostra nacional.
Peso de um ponto ganho no interior0,607
Peso de um ponto ganho na capital0,393
Onde a agenda custa uma fração de um evento metropolitanoArvor
Vamos ao que fazer com isso. Cinco movimentos, todos ancorados em número do próprio relatório.
Movimento 1: fazer a eleição no interior, não no aeroporto.
1.217 das 2.004 entrevistas estão fora de capital e região metropolitana, e ali o placar é 45×45 no 2º turno e 38×35 no 1º. Em termos de agregado nacional, cada ponto ganho no interior vale 0,607 ponto; cada ponto ganho na capital vale 0,393.
O painel dá até o tamanho da cidade: 38 municípios com 50 a 200 mil eleitores e 32 com 20 a 50 mil. São 70 cidades que somam 840 entrevistas, 41,9% da amostra.
Custo de uma agenda dessas: uma fração de um evento metropolitano. Rádio local, comércio central, feira, terminal, câmara municipal.
Indicador para acompanhar: espontânea de Flávio no interior, hoje em 17%.
Mais um dado para a logística: 30 cidades do painel têm menos de 20 mil eleitores e ainda assim recebem 360 entrevistas, 18% de toda a amostra nacional.
Post 28 · plano 2
Plano de chão · movimento 02
1.006
eleitores sem partido. O adversário deles é a não-escolha, não o outro candidato.
Não citam nenhum nome53%
Vão a branco ou nulo15%
Meta: branco/nulo na média nacional9%
Discurso de sigla perde esse bloco para a abstençãoArvor
Movimento 2: falar com quem não tem partido, e não pedir que tenha.
É o maior bloco da pesquisa: 1.006 pessoas, 50,2% da amostra. Dá 48×35 a Flávio, rejeita Lula por 55%, e ainda assim 53% dele não cita nenhum nome e 15% vai a branco ou nulo.
Traduzindo em decisão de campanha: nesse bloco, cada minuto gasto em disputa ideológica de sigla é minuto perdido. O que converte é problema concreto e local, nome e número fáceis de memorizar, e um adversário nomeado, que já é rejeitado por mais da metade deles.
Três erros clássicos a evitar aqui: falar de partido, falar para quem já converteu, e tratar rejeição a Lula como voto conquistado. Rejeição a Lula, nesse grupo, muitas vezes termina em nulo.
Meta verificável: derrubar os 53% de “não sabe citar” e o branco/nulo de 15% para a média nacional de 9%.
Um detalhe de sobreposição que ajuda: boa parte desse bloco mora justamente no interior, onde o placar já está empatado. É onde a conversão custa menos por voto.
Post 29 · plano 3
Plano de chão · movimento 03
15 pontos
separam citar e escolher. Flávio é lembrado por 17% e votado por 32%. O resto depende do cartão.
45% das mulheres e 46% dos jovens não citam nenhum nomeArvor
Movimento 3: fechar o buraco entre lembrar e escolher.
Na espontânea nacional, Flávio é citado por 17%. Na estimulada, faz 32%. São quinze pontos que dependem de o entrevistador mostrar uma lista de nomes.
No caso de Lula: 30% espontâneo para 40% estimulado. Dez pontos de diferença.
Isso é um diagnóstico de marca, não de posicionamento. Quem só existe quando lembrado por terceiros tem voto de baixa densidade, e voto de baixa densidade é o primeiro a evaporar em semana ruim.
O remédio não é mais anúncio: é mais presença física, mais repetição local, mais rosto associado a lugar. Quem é citado sem cartão é quem esteve na cidade.
Métrica para cobrar da própria campanha, todo mês: espontânea por sexo, idade e natureza do município. Se a estimulada sobe e a espontânea fica parada, o crescimento é de superfície.
E há um teste simples de sinceridade interna: se a campanha não mede espontânea todo mês, por região e por sexo, ela não está medindo o que importa. Está medindo o que agrada.
Post 30 · plano 4
Plano de chão · movimento 04
1,44
é o efeito de desenho que basta para o intervalo do 48×43 tocar o zero. O instituto não publica esse número.
Deff que zera o 2º turno1,44
Deff que zera o 1º turno4,68
Correlação intraclasse equivalenteρ 0,088
com blocos de seis entrevistas por setor, Kish dá deff = 1 + 5ρ
Margem da diferença sob AAS: ±4,17 pontosArvor
Movimento 4: brigar com a métrica, nunca com o número.
Contestar “48×43” é perder, porque o número é fiel ao arquivo. O que é contestável, e verdadeiro, cabe em três frases:
1. A margem de ±2 divulgada é de uma proporção isolada. A margem da diferença entre os dois candidatos é ±4,17 pontos, e ninguém publica isso.
2. O efeito de desenho não é divulgado. Bastaria 1,44 para o intervalo da diferença incluir zero. E, como a coleta é feita em blocos de seis entrevistas por setor, pela fórmula de Kish isso equivale a uma correlação intraclasse de apenas 0,088 entre vizinhos do mesmo setor censitário.
3. O recorte por natureza do município, que está na página 32, mostra 45×45 no interior.
E a extrapolação mais frágil da cobertura é “inferno astral”: entre junho e julho, Flávio ficou estável em 43% no 2º turno e subiu de 31% para 32% no 1º.
Nada disso é acusação de fraude. É exigência de metadado. Quem tem o dado, publica.
Para referência: no primeiro turno seria preciso deff de 4,68 para os oito pontos sumirem. Ali o saldo de Lula é robusto.
Post 31 · plano 5
foto: Wagner Tamanaha · CC BY-SA 2.0
Plano de chão · movimento 05
3 achados
documentais maduros nesta rodada. Nenhum é escândalo. Juntos, são cadeia de custódia.
Campo: relatório × registro1 dia
Valor: registro × nota fiscalR$ 100
Setor duplicado em Caapiranga1
acesso pelos arts. 13 e 34 da Res. TSE 23.600
Pedir deff, n efetivo, CV dos pesos e taxa de recusaArvor
Movimento 5: usar o direito de acesso em vez de reclamar do resultado.
Partido, federação, coligação, candidatura e Ministério Público Eleitoral podem exigir o sistema interno de controle, o relatório entregue ao contratante, o questionário aplicado e as planilhas e mapas amostrados. Isso é instrumento legal, não favor.
Três alvos documentais já estão maduros nesta rodada:
1. O relatório e o anexo dizem campo em 22 e 23/07. O registro e a declaração da estatística dizem 22 a 24/07. Um dia de diferença.
2. Registro e declaração trazem R$ 307.541,60. A nota fiscal traz R$ 307.641,60. Cem reais, 0,033%. Não é escândalo, é teste de consistência.
3. O setor 130083905000015, em Caapiranga (AM), aparece duas vezes no anexo, com dois bairros diferentes.
E, no mesmo pedido: efeito de desenho, n efetivo, coeficiente de variação dos pesos, taxa de abordagem e taxa de recusa.
Prazo importa: o pedido tem muito mais força protocolado logo após cada registro, com a rodada ainda quente, do que semanas depois da manchete já consumida.
Post 32 · o que não virou manchete
O que estava publicado e o que foi noticiado
“Datafolha 2º turno: Lula tem 48%, e Flávio Bolsonaro, 43%”G1 · 24/07 · publicado
“Inferno astral de Flávio mantém vantagem de Lula”Folha · 24/07 · publicado
Interior 45×45, com base de 1.217 entrevistaspágina 32 do relatório · não publicado
O dado estava nas 33 páginas. Não era segredoArvor
Um cotejo final, e sem teoria da conspiração.
Do relatório de 33 páginas saíram manchetes sobre o placar nacional, sobre a rejeição, sobre “inferno astral” e sobre os 52% que veem Trump ajudando Flávio. Este último, aliás, medido depois de o entrevistado ouvir a acusação de Lula dentro do próprio enunciado.
O que não saiu em manchete nenhuma: capital e região metropolitana 52×39, interior 45×45, com base de 1.217 entrevistas.
Não estou afirmando intenção editorial. Estou afirmando um fato verificável: o dado que muda a leitura da eleição estava publicado, com base declarada, na página 32, e não foi noticiado, enquanto uma interpretação causal sem respaldo na série virou análise.
Você não precisa acreditar em mim. O PDF é público, o registro é BR-01166/2026, e a página é a 32.
E o cotejo é reprodutível: qualquer pessoa com o PDF, o número do registro e trinta minutos chega exatamente ao mesmo lugar a que eu cheguei. É esse o padrão que deveríamos exigir.
Post 33 · veredito
foto: Otávio Nogueira · CC BY 2.0Veredito calibrado
opaco ≠ fraude
Há inconsistências e transparência insuficiente. Não há prova de fabricação nem de escolha enviesada de cidades.
Testado e derrubado: painel enviesado50,88% × 49,10%
Sem resposta: deff, pesos, taxa de recusanão publicados
Dossiê completo, contas e dados abertosbrasil.arvor.co/datafolha_072026.html
Fecho como sempre fecho: com o veredito que a evidência sustenta, e não com o que daria mais engajamento.
O Datafolha não fabricou resultado. Não escolheu cidades para deprimir a direita: o painel dele votou 50,88% em Bolsonaro em 2022, contra 49,10% do Brasil. Testei a suspeita e ela caiu.
O que existe é: um painel municipal fixo e não declarado; cotas idênticas há três rodadas; duas UFs que nunca entram; efeito de desenho, pesos e taxa de recusa não publicados; um dia de divergência no campo; cem reais de diferença na nota; um setor duplicado; e um anexo territorial que só chega depois da divulgação, sem prova pública de que a amostra precedeu o campo.
Existe um empate de 45×45 no interior, em 61% da amostra, que ninguém noticiou. E existe uma régua de renda 16,6 pontos fora da PNAD, que sozinha explica os cinco pontos.
Prova de opacidade não é prova de fraude. Mas quem mede o país deveria abrir a régua.
Se o instituto responder, publico a resposta inteira, inclusive se ela me contrariar.
Dossiê completo, com as contas e os dados: brasil.arvor.co/datafolha_072026.html